Falta de engenheiros já é um risco estratégico

Com a aceleração da inteligência artificial, dos data centers, da eletrificação e da renovação das infraestruturas, a falta de engenheiros qualificados deixou de ser apenas um problema de recrutamento. Passou a ser uma ameaça direta à capacidade das empresas e dos governos para concretizarem os seus investimentos.
8 de Julho, 2026

A engenharia voltou ao centro da economia. A transformação digital, a transição energética, os semicondutores, os data centers, a defesa e as infraestruturas críticas dependem cada vez mais de profissionais capazes de transformar planos estratégicos em projetos reais. O problema é que o mercado não está a formar nem a atrair talento ao ritmo exigido.

Segundo o estudo Tendências do Mundo do Trabalho – Engenharia, da Manpower, 73% dos empregadores têm dificuldade em recrutar profissionais qualificados nesta área. O dado mostra que a escassez de engenheiros já não é uma dificuldade pontual, mas uma limitação estrutural para setores essenciais da economia.

A pressão resulta de vários fatores em simultâneo. Há mais investimento, projetos mais complexos e uma procura crescente por competências técnicas em energia, infraestruturas digitais, indústria, semicondutores e defesa. Ao mesmo tempo, muitos profissionais seniores estão próximos da reforma, o que aumenta o risco de perda de conhecimento acumulado.

Este ponto é particularmente crítico. A saída de engenheiros experientes não significa apenas substituir pessoas. Significa perder experiência prática, capacidade de decisão e conhecimento técnico que muitas vezes não está documentado. De acordo com o estudo, nove em cada dez empregadores afirmam que a reforma de trabalhadores seniores já está a influenciar diretamente a sua estratégia de talento.

A inteligência artificial está a acelerar esta tensão. Embora o debate se concentre muitas vezes nos modelos e nas aplicações, a IA precisa de uma base física robusta. Precisa de centros de dados, energia, redes, sistemas de arrefecimento e equipas capazes de garantir operação contínua. A economia digital continua a depender de engenharia concreta e de profissionais especializados.

A procura global de energia deverá crescer mais de 3,5% ao ano até ao final da década, impulsionada pela eletrificação e pela expansão das infraestruturas digitais. Nos semicondutores, o mercado deverá passar de 627 mil milhões de dólares em 2024 para cerca de 1,3 biliões em 2030, exigindo cerca de um milhão de trabalhadores qualificados até ao final da década.

A renovação de infraestruturas acrescenta outra camada de pressão. A economia global terá de canalizar cerca de 3,5% do PIB anual para preparar infraestruturas sociais, de transportes, energéticas e digitais. Só na Europa, estima-se que os governos terão de investir 12 biliões de euros até 2040 para construir ou recuperar infraestruturas essenciais.

Também a defesa e a indústria aeroespacial aumentam a procura por talento técnico. Neste sector, 76% dos empregadores dizem ter dificuldades em atrair profissionais de engenharia, num contexto agravado pelos requisitos de segurança exigidos nos processos de recrutamento.

A IA está igualmente a transformar o próprio trabalho dos engenheiros. Ferramentas digitais podem automatizar tarefas repetitivas, como desenho técnico, análise de dados ou processos administrativos. Isso pode libertar tempo para funções de maior valor, mas também cria novos riscos. Cerca de 76% dos profissionais alertam para a possibilidade de erosão de competências devido a uma dependência excessiva destas ferramentas.

O estudo mostra ainda que há um défice de preparação para usar IA de forma eficaz. A nível global, 29% dos empregadores da área de engenharia afirmam que a sua força de trabalho atual não tem as competências necessárias. Em Portugal, esse valor é de 11%.

Perante este cenário, as empresas terão de ir além do recrutamento tradicional. Será necessário antecipar necessidades, reforçar formação contínua, acelerar programas de requalificação e criar mecanismos de transferência de conhecimento entre gerações. A atração de talento global e a inclusão de perfis menos representados, como as mulheres, poderão também ajudar a alargar a base de profissionais disponíveis.

A mentoria ganha aqui uma importância especial. Mais de metade dos trabalhadores, 57%, afirma nunca ter recebido mentoria ou coaching ao longo do percurso profissional. Num sector onde a experiência prática é difícil de substituir, esta ausência pode transformar a reforma dos profissionais seniores numa perda direta de capacidade operacional.

O maior desafio da engenharia já não é apenas tecnológico. É humano, organizacional e estratégico. As empresas que conseguirem formar, reter e atualizar talento estarão mais bem preparadas para executar projetos complexos. As restantes poderão descobrir que o maior obstáculo à inovação não está na falta de tecnologia, mas na falta de pessoas capazes de a tornar realidade.

Opinião