Falta de talento e estratégia trava a adoção da IA nas empresas

As ferramentas algorítmicas melhoram a produtividade, mas a sua adoção é freada pela falta de talento e estratégia. As finanças avançam mais rapidamente do que a administração pública e as PME, uma lacuna que a educação tenta reduzir com novos programas especializados.
6 de Março, 2026

O relatório denominado Barómetro IA, elaborado pelo centro de investigação sobre inteligência artificial e sustentabilidade da escola de negócios ESSCA, analisa a situação atual da adoção dessas novas tecnologias no âmbito corporativo. Embora metade das empresas admita ter experimentado melhorias no seu desempenho graças à inteligência artificial, a maioria dos projetos encontra-se numa fase inicial e orienta-se para a contenção de gastos nos departamentos tecnológicos, em vez de procurar a inovação pura. Nesse sentido, a investigação revela que 16% das empresas ainda não destinou fundos para essa tecnologia, apesar de haver um consenso sobre seu efeito benéfico na produtividade dos funcionários.

À falta de investimento financeiro soma-se uma importante lacuna organizacional, já que 31% das entidades não conta com um grupo de trabalho específico para essas ferramentas nem tem intenção de formá-lo no futuro. A formação também é negligenciada, uma vez que cerca de 40% das empresas não preveem formar os seus trabalhadores na utilização dos novos sistemas algorítmicos. Por outro lado, a perceção de segurança é baixa, uma vez que apenas 26% dos inquiridos se consideram capacitados para enfrentar as ameaças e contingências decorrentes da sua implementação.

O estudo detalha estes números, mostrando uma realidade díspar de acordo com o tipo de atividade económica e o tamanho da organização. As instituições financeiras e as empresas de fornecimento de energia são as que apresentam maior integração e implantação de soluções cognitivas nas suas diferentes áreas de trabalho. No extremo oposto, a administração pública apresenta um atraso evidente, dado que 90% dos seus organismos operam com menos de uma dezena de sistemas automatizados e apenas um terço deles identifica vantagens palpáveis na sua utilização. O setor de serviços também reflete números de estagnação, agrupando um quinto das empresas sem investimento e marcando a maior taxa de desinteresse em inovar com essas ferramentas, situada em 22%. As pequenas e médias empresas também enfrentam grandes barreiras, com 37% delas sem nenhum projeto em desenvolvimento.

A motivação por trás da adoção tecnológica também é um ponto de análise destacado no documento. Apenas 23% das empresas destinam orçamento à IA para resolver uma necessidade previamente identificada, sendo a pressão do mercado ou as iniciativas sem estrutura os verdadeiros motores dessa transição na maioria dos casos. Essa falta de planeamento coincide com a perspetiva de dois terços dos trabalhadores europeus, que antecipam que a próxima década exigirá processos massivos de reciclagem e aperfeiçoamento profissional. A conclusão desses dados ressalta a necessidade de criar perfis profissionais híbridos que dominem a vertente técnica, a gestão da informação, o enfoque de negócios e a prevenção de dilemas éticos.

Diante da constatação de que a principal barreira para as corporações reside nas habilidades do pessoal, mais do que na própria tecnologia, o setor educacional começa a propor soluções para transformar a fase de experimentação atual em uma implementação definitiva. Nessa linha, o campus localizado na cidade andaluza de Málaga da mencionada escola ESSCA modificou seu programa universitário em gestão internacional. A partir de setembro de 2027, a instituição académica integrará no terceiro ano deste curso uma especialização centrada em inteligência artificial para negócios, análise de dados e segurança informática.

Os responsáveis do centro universitário de Málaga explicam que o objetivo desta atualização académica é fornecer ao mercado de trabalho profissionais que compreendam estas tecnologias de uma perspectiva estratégica e de governança. O objetivo é capacitar os futuros gestores para que liderem a transformação digital das suas organizações, integrem as ferramentas algorítmicas em todas as divisões corporativas e saibam lidar com a regulamentação em vigor. Os impulsionadores deste programa de formação de carácter internacional sustentam que o nível competitivo das empresas no futuro a curto prazo estará diretamente condicionado pela sua perícia na hora de recrutar talentos qualificados. Motivo pelo qual as instituições educativas devem antecipar-se à procura das empresas.

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