Fórmula 1 corre à velocidade dos dados

Uma equipa de Fórmula 1 é também uma organização tecnológica distribuída, onde centenas de sensores, sistemas de análise, aplicações, fornecedores e ligações globais têm de funcionar sob pressão constante. Neste ambiente, a cibersegurança deixa de ser apenas uma questão de proteção da infraestrutura e passa a fazer parte da própria capacidade de competir.
13 de Julho, 2026

Um monolugar de Fórmula 1 não consome apenas combustível. Ao longo de um fim de semana de corrida, centenas de sensores geram centenas de gigabytes de telemetria que circulam continuamente entre o carro, a garagem, os sistemas instalados no circuito, a fábrica e a equipa que toma decisões junto à pista.

É nesse fluxo permanente que reside uma parte significativa da vantagem competitiva. Configurações aerodinâmicas, sinais relacionados com a estratégia de pneus, tendências de afinação do motor, dados biométricos do piloto e informação sobre o comportamento do carro podem ser transmitidos e analisados quase em tempo real.

A Fórmula 1 transformou-se num exemplo extremo de uma realidade já familiar às grandes empresas, na qual o valor deixou de estar concentrado num único sistema e passou a circular entre utilizadores, aplicações, fornecedores, dispositivos e serviços.

O principal risco, por isso, não está necessariamente numa base de dados isolada. Está nos serviços, identidades e processos que permitem que a informação atravesse toda a organização.

Para uma equipa, a telemetria funciona como uma representação continuamente atualizada do automóvel. A informação recolhida é processada por software e sistemas analíticos que apoiam decisões sobre configuração, simulações de corrida e previsões de fiabilidade. À mesma infraestrutura juntam-se ainda dados financeiros relacionados com patrocinadores, contratos, planeamento interno e documentação operacional.

Tudo isto se desloca com a equipa.

Ao longo de uma temporada disputada em mais de 20 países, as organizações passam sucessivamente por novas redes, diferentes condições de acesso físico e múltiplas jurisdições. O ambiente tecnológico muda regularmente e, com ele, também muda o perfil de risco.

A comparação com uma empresa tradicional tem, naturalmente, limites. Poucas organizações operam com a mesma intensidade competitiva ou pressão temporal. Mas a arquitetura subjacente é cada vez menos invulgar. Trabalho remoto, serviços cloud, fornecedores externos, equipas distribuídas e aplicações acessíveis a partir de diferentes localizações fazem hoje parte da realidade de muitas empresas.

A Fórmula 1 apenas comprime essas dificuldades num espaço mais visível e com menos margem para falhar.

Uma equipa moderna depende de dezenas de fornecedores, parceiros e empresas tecnológicas. Cada integração acrescenta capacidade, mas pode também criar uma nova exposição.

Um atacante experiente não precisa de atacar diretamente a organização mais protegida. Pode procurar um fornecedor com controlos menos robustos, explorar o seu acesso e entrar posteriormente através de credenciais, sessões ou ligações que aparentam ser legítimas.

Quanto maior for a dependência de terceiros, mais difícil se torna limitar a segurança ao perímetro formal da organização.

No ambiente de uma corrida, esta dificuldade aumenta. Prestadores de serviços, equipas de comunicação, parceiros e outros intervenientes podem necessitar de acesso durante algumas horas ou dias. São permissões temporárias por natureza, mas a pressão operacional pode transformar uma exceção numa situação permanente.

Este é um problema reconhecível em muitas empresas. O acesso concedido rapidamente para resolver uma necessidade imediata pode permanecer ativo muito depois de essa necessidade desaparecer.

A diferença está na velocidade.

Numa equipa de Fórmula 1, uma interrupção poucas horas antes de uma sessão de qualificação tem consequências imediatas. O ransomware, por exemplo, torna-se particularmente perigoso quando o próprio tempo pode ser utilizado como instrumento de pressão. Uma empresa pode enfrentar perdas financeiras durante uma paragem prolongada. Uma equipa que deixe de aceder a sistemas essenciais num momento crítico pode comprometer diretamente a operação desse fim de semana.

O roubo de propriedade intelectual apresenta outro risco. No mundo digital, a saída de informação não exige necessariamente uma intrusão sofisticada. Credenciais reutilizadas, partilhas cloud mal configuradas, permissões excessivas ou acessos temporários que nunca foram revogados podem ser suficientes.

Também a engenharia social encontra condições favoráveis num ambiente altamente previsível. Calendários de corridas, deslocações, anúncios de patrocinadores e agendas públicas fornecem contexto para campanhas dirigidas. Funcionários que trabalham a partir de aeroportos, hotéis ou outros locais fora da infraestrutura habitual aumentam ainda a complexidade da proteção de identidades e sessões.

As ameaças dirigidas à Fórmula 1 são, em grande medida, as mesmas que afetam outras organizações. O que muda é a combinação entre mobilidade, valor da informação e pressão sobre o tempo.

A inteligência artificial acrescenta uma nova escala ao problema.

A tecnologia não cria necessariamente novas vulnerabilidades humanas, mas permite automatizar e acelerar a exploração das que já existem. Campanhas de phishing podem ser adaptadas ao contexto de uma corrida, ao vocabulário interno ou a relações conhecidas com patrocinadores. Conteúdos de áudio e vídeo podem ser utilizados para imitar responsáveis de equipas ou outros interlocutores. Sistemas automatizados podem ainda procurar infraestruturas expostas com uma velocidade difícil de acompanhar por equipas que trabalham em ambientes temporários e em constante mudança.

A consequência é um desequilíbrio crescente entre a velocidade do ataque e a capacidade humana de resposta.

Mas a inteligência artificial também pode ser utilizada na defesa.

Num ambiente com o volume de dados de uma equipa de Fórmula 1, os sistemas de segurança podem recorrer a modelos capazes de identificar padrões de comportamento habitual e assinalar desvios relevantes. Isto aplica-se não apenas a utilizadores humanos, mas também a contas de serviço, processos automatizados e agentes de inteligência artificial que começam a comportar-se como novas identidades dentro das redes empresariais.

A análise pode ainda relacionar riscos que, isoladamente, parecem pouco graves. Uma configuração incorreta, uma exposição limitada e um acesso excessivo podem tornar-se significativamente mais perigosos quando surgem em conjunto.

Há, contudo, uma limitação importante. A inteligência artificial não corrige uma arquitetura desorganizada. Num ambiente com identidades fragmentadas, segmentação inconsistente e responsabilidades pouco claras, a deteção tende a gerar mais ruído e a aumentar a fadiga provocada pelo excesso de alertas.

É neste ponto que o modelo de zero trust ganha relevância.

A segurança tradicional partia frequentemente da existência de um interior confiável e de um exterior potencialmente hostil. Num ambiente distribuído por circuitos, hotéis, fábricas, serviços cloud e redes de parceiros, essa fronteira torna-se difícil de sustentar.

O princípio passa então por verificar cada sessão, utilizador e dispositivo, limitar os acessos ao estritamente necessário e reavaliar continuamente o nível de confiança à medida que as condições mudam.

Não é uma abordagem exclusiva do desporto automóvel. Uma empresa com infraestrutura híbrida, trabalhadores remotos e fornecedores externos enfrenta o mesmo problema, embora normalmente sem a exposição pública e a pressão operacional de uma corrida.

É neste enquadramento que surge a abordagem da Zscaler associada à Aston Martin F1. A proposta assenta na utilização da plataforma Zero Trust Exchange e num conjunto de ferramentas dirigidas à proteção do acesso a aplicações de inteligência artificial, à inspeção das interações com esses sistemas, ao teste contínuo de modelos e à gestão de ativos relacionados com IA.

O objetivo é aumentar a visibilidade sobre aplicações utilizadas pelos trabalhadores, incluindo ferramentas adotadas sem aprovação formal, aplicar controlos de acesso, inspecionar prompts e respostas e reduzir o risco de saída de informação sensível.

Outras capacidades procuram identificar ataques específicos contra sistemas de inteligência artificial, testar modelos ao longo do seu ciclo de vida e mapear os riscos associados a modelos, agentes, serviços e conjuntos de dados. A lógica é tratar a IA não como uma aplicação isolada, mas como mais uma camada integrada na infraestrutura empresarial.

A principal conclusão que a Fórmula 1 oferece aos decisores tecnológicos é que proteger um equipamento individual já não é suficiente. A segurança depende da capacidade de controlar todo o sistema através do qual pessoas, parceiros, aplicações, dados e ferramentas de inteligência artificial trabalham em conjunto.

Na pista, cada fração de segundo pode influenciar uma decisão. Na cibersegurança, o princípio é semelhante. Quanto mais rapidamente os dados circulam e quanto maior for o número de entidades que lhes podem aceder, menor é a utilidade de um modelo de proteção baseado apenas em fronteiras estáticas.

A Fórmula 1 é um caso extremo, mas o problema que expõe é cada vez mais comum. As organizações modernas não funcionam dentro de uma rede fechada. Funcionam através de ecossistemas. E é precisamente nesses caminhos entre sistemas, pessoas e parceiros que a segurança começa hoje a ser decidida.

Opinião