O Campeonato do Mundo FIFA 2026 está a ser alvo de um planeamento paralelo – e não é desportivo. Segundo uma investigação da Check Point Software Technologies, desde 1 de agosto de 2025 foram registados mais de 4.300 domínios com referências à FIFA, ao Mundial ou às cidades anfitriãs, num movimento que revela um padrão coordenado de atividade fraudulenta.
Estes domínios, aparentemente inofensivos, estão a ser criados em picos sincronizados, com registos concentrados em poucos fornecedores e partilhando estruturas comuns de DNS. O objetivo, segundo os investigadores, é criar uma rede que será ativada progressivamente, à medida que a data do torneio se aproxima, com o intuito de vender bilhetes falsos, difundir malware através de transmissões ilegais e comercializar produtos contrafeitos.
Um plano estruturado em múltiplas frentes
Entre 8 e 12 de agosto de 2025, foram registados quase 1.500 domínios relacionados com o evento, com um novo pico em setembro. Esta dinâmica, longe de parecer espontânea, indica operações automatizadas de aquisição em massa. Adicionalmente, foi detetado o uso de uma técnica conhecida como domain aging, com domínios registados para edições futuras (2030 e 2034), mantidos inativos para ganhar legitimidade aparente até serem ativados.
A maioria dos domínios está registada em grandes plataformas como GoDaddy, Namecheap e Dynadot, preferidas pela facilidade de automatização e baixos preços. O domínio .com lidera, seguido por TLDs económicos como .shop, .store, .online e .football.
Geograficamente, os domínios refletem os países anfitriões – EUA, México e Canadá – e cidades específicas como Miami, Toronto ou Cidade do México. Em termos linguísticos, o inglês é dominante, mas fraudes orientadas a públicos de língua portuguesa e espanhola são comuns, sobretudo nos domínios de bilhetes e merchandising.
Fraude como serviço
A investigação agrupa os domínios em três grandes eixos temáticos: bilhetes falsos, transmissões ilegais e produtos contrafeitos. Alguns focam-se exclusivamente num tema, outros combinam vários, demonstrando a utilização de kits automáticos de geração de domínios, capazes de variar a estrutura mantendo a lógica de campanha.
Análises técnicas aos DNS revelaram que muitos destes domínios partilham os mesmos nameservers, sugerindo uma centralização operacional. Ou seja, trata-se de um número limitado de operadores que gerem centenas ou milhares de domínios, e não de múltiplos agentes independentes.
O ecossistema fraudulento estende-se além dos domínios. Canais no Telegram, fóruns na dark web, redes sociais e anúncios pagos em motores de busca estão a ser utilizados para direcionar vítimas para estas plataformas. Além disso, são vendidos kits e ferramentas para que terceiros possam replicar os esquemas com relativa facilidade.
A infraestrutura da bilhética da FIFA é também alvo de ações organizadas. Existem indícios de que botnets estão a ser preparadas para manipular filas virtuais, comprando em massa bilhetes para revenda a preços inflacionados. Estes acessos massivos também distorcem os algoritmos de preços dinâmicos, prejudicando os adeptos legítimos.
Nos mercados clandestinos, já se vendem ferramentas como farms de proxies, kits anti-bot e manuais de instrução para contornar sistemas de segurança. Este tipo de ataque tem impacto direto na receita oficial do evento e mina a confiança dos consumidores nas plataformas digitais associadas à FIFA.
As consequências desta economia paralela digital não se limitam aos adeptos. A FIFA, os patrocinadores e as cidades anfitriãs estão igualmente em risco de perdas financeiras e danos reputacionais. Plataformas tecnológicas e redes de anúncios correm o risco de serem instrumentalizadas como canais de amplificação destes esquemas.
Para os utilizadores finais, os riscos vão desde phishing em campanhas de pré-venda até malware escondido em transmissões gratuitas falsas. Do lado da oferta, os domínios fraudulentos aproveitam nomes credíveis, conjugando palavras-chave como “FIFA”, “2026”, “bilhetes”, “stream”, “HD” e “live” para ganhar visibilidade nos motores de busca.
A mitigação deve começar já, e não apenas em 2026. A monitorização de padrões de registo de domínios deve ser constante, com foco em combinações linguísticas e nomes de cidades. Os registos mais vulneráveis a abuso devem ser pressionados a aplicar mecanismos de controlo mais rigorosos.
Os sistemas de bilhética devem incorporar tecnologia anti-bot e de deteção comportamental nas fases iniciais de venda, para identificar padrões de acesso anómalos. Além disso, é crucial investir em inteligência cross-channel, que acompanhe a atividade fraudulenta nas várias plataformas – da dark web às redes sociais.
O verdadeiro desafio para as entidades envolvidas no Mundial de 2026 é proteger o perímetro digital antes que o público tente entrar nos estádios. Caso contrário, o risco é que um evento pensado para unir adeptos acabe por expô-los a esquemas altamente sofisticados e disfarçados de ofertas legítimas.







