O número de empresas portuguesas vítimas de fraude subiu 19 pontos percentuais em relação ao ano anterior, com 42% das organizações a reportarem eventos relacionados, revela o estudo Corruption & Fraud Survey 2024 da Deloitte. Os resultados indicam que os ciberataques (25%) e fraudes em meios de pagamento (14%) foram os incidentes mais comuns, refletindo lacunas nos sistemas de controlo interno e nos valores éticos das organizações.
Impactos financeiros e éticos
Fraude não é apenas um problema ético; tem consequências tangíveis para os resultados financeiros das empresas. Segundo o estudo, 83% dos líderes empresariais reconhecem que eventos de fraude afetam diretamente o desempenho económico das suas organizações. No entanto, as iniciativas preventivas ainda são insuficientes, destacando-se a ausência de soluções tecnológicas robustas.
Apesar de 97% dos inquiridos identificarem a tecnologia como crucial para combater fraudes, mais de metade das empresas (57%) não dispõem de ferramentas de análise de dados, essenciais para monitorizar e detetar comportamentos suspeitos. Entre as organizações que implementaram soluções antifraude, apenas 29% conseguem quantificar o impacto real dessas ferramentas.
Tecnologia: Aliada ou ameaça?
A inteligência artificial generativa surge como uma solução promissora na fase de prevenção, com 54% dos inquiridos a destacarem a sua relevância. Contudo, a adoção de Inteligência Artificial generativa e ferramentas analíticas integradas ainda é limitada, com apenas 34% das empresas a utilizarem soluções tecnológicas avançadas.
Ferramentas mais tradicionais, como verificações de antecedentes (background checks), continuam a ser as mais utilizadas (53%), seguidas por soluções baseadas em regras de negócio (43%). Esta dependência de abordagens convencionais pode limitar a eficácia das empresas na resposta a fraudes cada vez mais sofisticadas.
O estudo identifica conflitos de interesses não divulgados (64%) e vantagens indevidas (55%) como os principais fatores de risco associados à corrupção. Outros riscos incluem violações de conduta (30%) e branqueamento de capitais (14%), sublinhando a complexidade do panorama de crime financeiro enfrentado pelas empresas.
Embora a crescente regulação, como o Regime Geral da Prevenção da Corrupção, tenha contribuído para fortalecer as estruturas internas, a Deloitte alerta para a necessidade de maior vigilância e adaptação contínua. “A monitorização consistente é fundamental para garantir o cumprimento destas medidas”, afirma Gonçalo Quintino, Partner da Deloitte.
Ainda assim, 96% dos inquiridos reconhecem que a cultura de prevenção da fraude nas suas empresas pode ser melhorada. A adoção de canais de denúncia (utilizados por 84% das empresas, um aumento de 10 pontos percentuais face a 2023) e a avaliação periódica de riscos (58%) são passos importantes, mas não suficientes.
Com a fraude a tornar-se um desafio cada vez mais complexo, as empresas portuguesas enfrentam um dilema entre implementar tecnologias avançadas e garantir que estas soluções são eficazes. A aposta em IA generativa e ferramentas analíticas é essencial, mas apenas se acompanhada por uma cultura organizacional sólida, que priorize a transparência e a ética.
Num ambiente empresarial cada vez mais interligado e tecnológico, a capacidade de prevenir e mitigar riscos de fraude será decisiva para proteger não apenas os resultados financeiros, mas também a confiança dos stakeholders e do público. É imperativo para aumentar a confiança no mercado nacional que os gestores olhem para as ferramentas tecnológicas como um aliado no aumento da competitividade, eficácia, e transparência dos negócios das suas empresas.







