Futuro dos media joga-se num “faroeste” regulatório

Os principais grupos de media portugueses admitem que o sector enfrenta uma transformação estrutural marcada pela pressão das plataformas digitais, pela inteligência artificial e por um quadro regulatório que consideram desequilibrado. No Congresso da APDC, RTP, Impresa e Media Capital defenderam maior adaptação legislativa e novas estratégias de escala para garantir sustentabilidade ao negócio dos conteúdos em Portugal.
6 de Maio, 2026

A indústria dos media portuguesa entrou numa nova fase de pressão competitiva. Já não se trata apenas da fragmentação das audiências ou da migração do consumo para o digital. O problema, segundo os principais operadores nacionais, está na crescente distância entre as obrigações impostas aos grupos tradicionais e a liberdade operacional das grandes plataformas globais.

No Congresso da APDC, Francisco Pinto Balsemão, CEO da Impresa, descreveu esse cenário como um “faroeste” regulatório, alertando para as consequências de um mercado onde plataformas digitais conseguem competir pelos mesmos públicos e pelas mesmas receitas sem estarem sujeitas às mesmas regras.

A expressão “faroeste” acabou por resumir a principal preocupação dos operadores nacionais: a sensação de que o mercado audiovisual está a evoluir mais depressa do que a capacidade de regulação europeia e nacional.

A referência surgiu durante uma discussão sobre o crescimento do YouTube, da Netflix e de outras plataformas globais na disputa por publicidade, direitos desportivos e atenção dos consumidores. Para os grupos portugueses, a assimetria é particularmente visível nas regras aplicadas à publicidade, às quotas de produção nacional e às obrigações de serviço público.

Francisco Pinto Balsemão afirmou que plataformas como YouTube ou Google actuam hoje como “free riders” do ponto de vista regulatório, beneficiando da distribuição de conteúdos e da captação de investimento publicitário sem assumirem responsabilidades equivalentes às dos operadores tradicionais.

O responsável da Impresa alertou também para a entrada de novos atores tecnológicos no mercado publicitário, referindo que empresas como a OpenAI já começam igualmente a disputar investimento das marcas.

Pedro Morais Leitão, CEO da Media Capital, enquadrou esta transformação num contexto económico mais amplo, marcado por instabilidade internacional e necessidade permanente de adaptação. Apesar de os primeiros meses do ano não terem revelado sinais fortes de retração publicitária, o gestor admitiu que os grupos de media vivem hoje em regime contínuo de contingência.

Segundo o responsável da Media Capital, os últimos anos obrigaram as empresas a preparar-se para cenários sucessivos de crise, desde a guerra à crise energética, acelerando processos de eficiência operacional e reorganização interna.

Os três grupos presentes convergiram numa ideia central, sem escala, alianças estratégicas e capacidade tecnológica, os operadores nacionais terão dificuldade em competir com plataformas globais com recursos financeiros incomparáveis.

Nesse contexto, Francisco Pinto Balsemão destacou a importância das parcerias internacionais estabelecidas pela Impresa com grupos como Globo, Amazon, Disney ou Tribeca. O gestor defendeu que a única forma de enfrentar os gigantes tecnológicos passa por trabalhar em rede e procurar modelos de cooperação internacional.

A dimensão financeira desses concorrentes foi outro dos temas centrais do debate. Balsemão recordou que Google e Meta geram dezenas de milhares de milhões de dólares por trimestre e advertiu para o impacto dessa capacidade de investimento sobre mercados nacionais de pequena dimensão como o português.

A ameaça deixou de estar apenas no streaming. O YouTube foi várias vezes apontado como um concorrente direto dos operadores televisivos, sobretudo depois da entrada da plataforma na negociação de direitos desportivos e conteúdos em directo.

Pedro Morais Leitão referiu o caso brasileiro, onde o YouTube já domina mais de metade do consumo televisivo, alertando para a possibilidade de esse fenómeno se replicar progressivamente na Europa.

Também Nicolau Santos, presidente da RTP, defendeu que a legislação europeia e nacional já não acompanha a velocidade da transformação tecnológica. O responsável da estação pública afirmou que “a legislação tem de se adaptar a estas novas situações”, considerando insustentável manter obrigações rígidas para os operadores tradicionais enquanto as plataformas operam com maior flexibilidade.

A RTP, a Impresa e a Media Capital defenderam uma revisão das regras aplicadas ao sector audiovisual, sobretudo nas áreas da publicidade, direitos de conteúdos e obrigações de investimento em produção nacional.

A inteligência artificial surgiu igualmente como um dos grandes temas do debate. Os responsáveis consideram inevitável que a tecnologia transforme profundamente os processos editoriais, de produção e de distribuição.

Francisco Pinto Balsemão admitiu que a Impresa já utiliza ferramentas de inteligência artificial em tarefas de apoio à produção jornalística e análise documental. Pedro Morais Leitão considerou que a tecnologia poderá trazer ganhos relevantes de eficiência e alterar modelos de negócio em várias áreas da operação.

Apesar disso, os intervenientes insistiram na importância do factor humano, sobretudo no jornalismo.

Nicolau Santos defendeu que os operadores tradicionais continuam a diferenciar-se pela confiança e pela verificação da informação, num contexto marcado pela proliferação de desinformação, deepfakes e conteúdos gerados automaticamente.

A discussão acabou por revelar uma preocupação transversal entre operadores públicos e privados, possibilidade de o mercado nacional perder relevância perante plataformas internacionais que concentram escala, tecnologia, publicidade e distribuição.

Para os responsáveis do sector, o futuro dos media portugueses dependerá tanto da capacidade de adaptação tecnológica como da rapidez com que a Europa conseguir redefinir as regras do jogo digital.

Opinião