“Geração suspensa”: Jovens portugueses vivem entre o presente precário e um futuro incerto

Os jovens portugueses encaram o futuro com inquietação. Entre salários que mal chegam ao fim do mês, dificuldades no acesso à educação e ansiedade constante, cresce o receio de uma geração que sente estar a trabalhar sem rede – e sem garantia de reforma digna.
4 de Agosto, 2025

Num país que durante décadas cultivou a ideia de que o progresso passaria por estudar, trabalhar arduamente e, um dia, gozar a reforma com dignidade, os jovens portugueses vivem hoje num limbo desconcertante entre o esforço presente e a incerteza do futuro. A mais recente edição do Gen Z and Millennial Survey, da Deloitte, pinta um retrato inquietante: mais de metade dos jovens em Portugal receia não conseguir poupar o suficiente para garantir conforto financeiro na velhice — uma apreensão que se agudiza em comparação com os seus pares noutros países.

Entre os Millennials portugueses, 60% dizem temer não chegar à reforma com segurança financeira (face a 44% a nível global). Já na Geração Z, esse número atinge os 54% (comparados com 41% no resto do mundo). Estes dados revelam não apenas uma preocupação, mas um sentimento crónico de ansiedade financeira enraizado em experiências de instabilidade, salários baixos e um mercado laboral que parece, para muitos, uma estrada sem fim nem mapa.

Margarida Sousa Uva, Associate Partner da Deloitte, não tem dúvidas: “Os jovens da Geração Z e os Millennials começaram os seus percursos profissionais em contextos marcadamente desafiantes, o que acabou por moldar as suas expectativas em relação ao trabalho e ao conceito de sucesso.” O conceito de “trabalho com propósito”, frequentemente associado a estas gerações, parece cada vez mais condicionado pelas exigências básicas de sobrevivência: pagar a renda, manter um frigorífico com comida, cobrir os transportes.

De facto, mais de metade destes jovens vive de salário em salário — 52% dos Millennials e 54% da Geração Z. Um número considerável admite mesmo ter dificuldades em cobrir as despesas essenciais todos os meses (41% dos Millennials e 38% da Gen Z). A precariedade não é, portanto, uma ideia abstrata — é vivida todos os dias, nos recibos verdes, nos contratos a termo, nas contas que não fecham.

Pelo quarto ano consecutivo, o custo de vida é a principal preocupação para os jovens portugueses. Mas não é a única. A saúde mental surge como uma questão transversal, com metade dos Millennials e 45% da Geração Z a afirmarem sentir-se frequentemente ansiosos ou stressados. Não por acaso, 55% identificam o seu futuro financeiro como a principal causa dessa ansiedade.

O trabalho, longe de ser apenas uma fonte de rendimento ou realização, é também um dos principais gatilhos de stress. Cerca de um terço dos inquiridos afirma que o seu emprego contribui significativamente para o seu mal-estar emocional. As causas? A ausência de reconhecimento, o excesso de horas e, em muitos casos, uma cultura laboral tóxica. Apesar disso, menos de metade sente que a sua entidade patronal leva a sério o tema da saúde mental.

Neste contexto, os líderes de equipa são percecionados mais como obstáculos do que como apoio. Há um desfasamento gritante entre o que os jovens esperam dos seus gestores e o que de facto recebem: 70% da Geração Z consideram essencial receber orientação e apoio, mas apenas 27% sentem que isso acontece. Entre os Millennials, o fosso é semelhante. Em vez de liderança estratégica, sentem-se muitas vezes microgeridos.

A escada social está a tornar-se cada vez mais escorregadia. Mais de metade dos Millennials (53%) e 40% da Geração Z portugueses não prosseguiram estudos no ensino superior devido a limitações financeiras. São números preocupantes — e bastante acima da média global — que apontam para uma desigualdade estrutural no acesso ao conhecimento.

Ainda assim, as novas gerações não se deixam ficar para traz e vão ao encontro das necessidades do mercado. Procuraram fora do ensino formal as competências que o mercado exige, e que a bolsa permite. As chamadas soft skills são valorizadas por mais de 85% dos jovens como essenciais para progredir profissionalmente, ultrapassando mesmo as competências técnicas. É preciso perceber se esta não é uma opção que a bolsa obriga, para uns será, para outros talvez não.  

Mas esta busca por novas competências não esconde uma realidade dura: 27% dos jovens da Geração Z e 46% dos Millennials em Portugal já mudaram de setor ou carreira — não por paixão ou curiosidade, mas por necessidade. A mudança foi impulsionada, em muitos casos, pela procura de melhores condições e maior equilíbrio entre vida pessoal e profissional.

Inteligência artificial: alívio ou ameaça?

A ascensão da inteligência artificial generativa está a marcar esta nova fase do mercado de trabalho. Em Portugal, 54% da Geração Z e 48% dos Millennials já utilizam estas ferramentas no dia a dia. Muitos afirmam que a GenAI tem sido uma aliada, permitindo-lhes ganhar tempo e equilibrar melhor as exigências pessoais e profissionais. Mas, simultaneamente, cresce a inquietação quanto à possibilidade de serem substituídos: mais de metade já procura empregos menos vulneráveis à automação.

Um apelo à ação

O estudo da Deloitte não é apenas um espelho do presente. É também um aviso sobre o futuro. Um futuro onde os jovens, apesar de mais qualificados, informados e adaptáveis do que nunca, sentem-se desprotegidos, desvalorizados e ansiosos.

Há, nas entrelinhas, um apelo à ação — para empresas, decisores políticos, universidades e para a sociedade no seu todo. O talento existe. A ambição, também. Mas sem acesso justo à educação, sem condições dignas de trabalho e sem um mercado que reconheça o valor da estabilidade e do bem-estar, corre-se o risco de perder uma geração inteira para o cinismo e o desânimo.

Opinião