Em Portugal, estima-se que existam cerca de 250 mil especialistas em IT no final deste ano, perto de 5% do emprego, com a meta europeia de chegar a 7% até 2030 a implicar mais 100 mil profissionais. Foi assinalado, contudo, um recuo recente no interesse dos candidatos: na 1.ª fase de acesso ao ensino superior, entraram menos cerca de 1.500 alunos em cursos de competências digitais, alinhado com quedas noutros mercados (casos do Reino Unido, em cursos de informática, e a retração no recrutamento de perfis júnior nos EUA, sinalizada por estudos recentes). Em paralelo, surgem funções emergentes associadas à IA — como especialistas em “cleanup” de código assistido e prompt engineers — a sugerir uma reconfiguração do trabalho técnico em vez da sua extinção.
O mercado continua a absorver engenheiros de software (back-end, front-end e full-stack), perfis de cloud, bases de dados, DevOps/SRE e cibersegurança, com crescimento dos papéis em IA e machine learning. A exigência de “job readiness” antecipou-se: as empresas valorizam portefólios visíveis, participação em open source e repositórios ativos, além de bases em práticas modernas (integração/entrega contínuas, desenho de arquiteturas e operação em cloud). Um estudo citado da Landing Jobs aponta aumento salarial de 14,4%, interpretado como sinal de escassez relativa de oferta.
Universidades e empresas: o desalinhamento que custa tempo… e competitividade
Os intervenientes identificam desalinhamento entre formação académica e necessidades imediatas do mercado, com as universidades a priorizarem fundamentos e não a experiência prática dos recém-licenciados. Foi defendido que a missão universitária não é “entregar” profissionais prontos no primeiro dia, mas formar para a sociedade; ainda assim, o “gap” é hoje mais visível, obrigando empresas — nomeadamente consultoras — a programas extensivos de on-boarding e treino. Do lado empresarial, foi sublinhada a responsabilidade de investir mais na relação com a academia, desde estágios estruturados a contributos na atualização curricular.
A discussão chamou a atenção para a demografia do setor: apenas cerca de 8% seriam jovens, enquanto 75% teria mais de seis anos de experiência, o que indicia envelhecimento e renovação insuficiente. Para suprir carências, Portugal tem recorrido à atração de profissionais estrangeiros, que já representarão 17,6% do total, embora processos de vistos e regularização estejam a criar fricção na incorporação de quadros qualificados.
O desafio da IA é transversal e massivo. A atualização em IA não diz respeito apenas a informáticos; profissões como medicina, direito e contabilidade terão de integrar competências de IA. A escala necessária — potencialmente centenas de milhares de pessoas por ano — exige modelos de formação contínua, curtos e aplicados, articulando universidades, empresas e ofertas especializadas. Debateram-se ainda modelos de financiamento (propinas, empréstimos ao estudante, “cheques-formação” e simplificação de apoios públicos), com crítica à burocracia e reembolsos a posteriori, vistos como barreiras à adesão.
Portugal mantém vantagens competitivas para acolher centros tecnológicos — qualidade do ensino, proficiência em inglês, segurança e posição geográfica —, fatores que continuam a atrair empresas na avaliação para instalar tech hubs. A conclusão operacional do debate é que o “golden ticket” permanece, mas implica escolher bem as especializações, cultivar aprendizagem contínua e aproximar a oferta formativa das práticas de engenharia e de produto em contexto real.
No balanço final, a ambição de chegar a 7% de emprego em perfis digitais até 2030 dependerá menos da quantidade isolada de novos diplomados e mais da capacidade de alinhar competências, acelerar requalificação em IA e remover barreiras à entrada de talento — nacional e internacional.

