A Google está a reforçar a sua estratégia na computação em nuvem com base em tecnologia própria, numa tentativa de recuperar terreno face à Microsoft e à Amazon. A posição foi defendida por Thomas Kurian, responsável da Google Cloud, numa entrevista ao Financial Times, onde destacou o impacto dos novos chips e da evolução da inteligência artificial desenvolvida internamente.
A empresa aposta numa abordagem integrada, controlando desde os chips até aos modelos de inteligência artificial e aos centros de dados, como forma de reduzir custos e aumentar margens. Segundo Kurian, esta estratégia permite à Google evitar a dependência de fornecedores externos, o que se traduz numa maior capacidade de reinvestimento.
O executivo reconhece que a entrada tardia no mercado da cloud e um arranque mais lento na inteligência artificial colocaram a empresa em desvantagem. Ainda assim, desde que assumiu funções, há oito anos, vindo da Oracle, a quota de mercado da Google Cloud duplicou de 7% para 14%. Apesar desse crescimento, a operação continua atrás da Amazon Web Services e do Azure, num mercado avaliado em 418 mil milhões de dólares.
O crescimento recente tem sido impulsionado pela inteligência artificial, com a Google Cloud a registar um aumento de 48% nas receitas no último trimestre de 2025. A empresa prevê ultrapassar os 70 mil milhões de dólares este ano, face aos 43 mil milhões registados em 2024.
No centro desta estratégia estão os chips proprietários da Google, conhecidos como Tensor Processing Units (TPUs), sigla em inglês, cuja oitava geração foi recentemente apresentada. Estes componentes são desenhados para duas funções distintas: treino de modelos de inteligência artificial e execução de sistemas já treinados, permitindo maior eficiência e rapidez.
A evolução destes chips está ligada ao trabalho da DeepMind, o laboratório de inteligência artificial da empresa, que há mais de uma década contribui para o desenvolvimento de modelos e hardware próprios. Segundo Kurian, este investimento continuado permite oferecer soluções com custos mais baixos e melhor desempenho.
A Google defende que a combinação entre hardware e software próprios a coloca numa posição diferenciada face aos concorrentes, reduzindo a dependência de tecnologias externas como os GPUs, sigla em inglês,da Nvidia. Ainda assim, esta estratégia tem criado alguma tensão entre as duas empresas, apesar de a Alphabet continuar a ser um dos maiores clientes da fabricante de chips.
Dados da Epoch AI indicam que a Google controla cerca de um quarto da capacidade global de computação dedicada à inteligência artificial, com milhões de TPUs e GPUs em operação. A Microsoft surge em segundo lugar, apoiada sobretudo em hardware da Nvidia.
O posicionamento da Google não passou sem críticas. Jensen Huang questionou recentemente o desempenho dos chips da empresa e a ausência de testes independentes. Kurian respondeu sublinhando que a maioria dos principais laboratórios de inteligência artificial utiliza TPUs, incluindo a startup Thinking Machines, liderada por Mira Murati.
Paralelamente, a Google tem reforçado a sua relação com a Anthropic, com um acordo que prevê investimento até 40 mil milhões de dólares e o fornecimento de capacidade computacional significativa ao longo de cinco anos. Este movimento surge num contexto em que empresas como a OpenAI e a própria Anthropic continuam a registar prejuízos elevados, devido aos custos associados ao desenvolvimento e operação dos seus modelos.
Kurian antecipa uma consolidação no setor da inteligência artificial nos próximos dois anos, defendendo que a sustentabilidade financeira será um fator decisivo para a sobrevivência das empresas. O executivo alerta para a dependência destas startups de financiamento privado, num momento em que o acesso a capital começa a mostrar sinais de saturação.
Com investimentos previstos de 185 mil milhões de dólares este ano em infraestruturas de inteligência artificial, a Google aposta na escala e na integração tecnológica como resposta à crescente pressão competitiva no mercado da cloud.







