Governo português coloca “deep tech” no centro da política económica

Na abertura da SIM Conference, no Porto, o secretário de Estado da Economia apresentou o Tech Foundry Portugal – Deep Tech Edition como um novo instrumento para aproximar ciência, indústria e investimento.
14 de Maio, 2026
João Rui Ferreira, Secretário de Estado da Economia de Portugal

A apresentação do Tech Foundry Portugal – Deep Tech Edition, feita por João Rui Ferreira na abertura da SIM Conference, trouxe consigo mais do que um novo programa de apoio a startups. O anúncio revelou também uma leitura política sobre um problema que Portugal discute há vários anos: a capacidade de transformar investigação científica em atividade económica com dimensão internacional.

Ao apresentar o programa, o secretário de Estado da Economia colocou a deep tech no centro da estratégia económica associada à inovação e ao crescimento futuro.

A nova iniciativa, desenvolvida pela Startup Portugal em parceria com a Hello Tomorrow, terá candidaturas gratuitas a partir de junho e prevê selecionar até 40 equipas nacionais em fase inicial de desenvolvimento. O foco será colocado em projetos com tecnologia já demonstrada em laboratório ou noutros ambientes relevantes e que procurem dar os primeiros passos rumo à industrialização e à entrada no mercado.

A estrutura do programa combina quatro meses de aceleração intensiva, entre setembro e dezembro, com acesso a mentoria, workshops especializados e ligação a uma rede internacional de investidores e especialistas em tecnologias de base científica.

Mas o elemento mais relevante do anúncio poderá não estar no formato do programa. O secretário de Estado da Economia, João Rui Ferreira enquadra a deep tech como uma área estratégica para a economia nacional, associando-a diretamente à criação de valor, à qualificação do emprego e ao posicionamento internacional do país.

A mensagem política transmitida pelo governante sugere uma mudança de foco, passando do incentivo genérico ao empreendedorismo para uma aposta mais dirigida em tecnologias de elevada intensidade científica.

A diferença é relevante. Durante a última década, grande parte do discurso público sobre inovação centrou-se na capacidade de criar startups e atrair investimento. O novo enquadramento parece apontar para uma preocupação mais específica, na criação de mecanismos para que investigação científica e conhecimento tecnológico avancem para aplicações industriais concretas.

Na prática, a dificuldade identificada não é nova. Portugal aumentou a produção científica, reforçou a capacidade de investigação universitária e consolidou ecossistemas tecnológicos em várias regiões. No entanto, a passagem entre descoberta científica e produto comercial continua a representar uma das etapas mais difíceis do processo.

Foi precisamente essa distância que João Rui Ferreira procurou destacar ao apresentar o programa como uma “ponte” entre laboratórios e mercado.

O Governo escolheu o Porto para acolher as sessões presenciais do programa, numa decisão que reforça o peso crescente da cidade no panorama tecnológico nacional.

As sessões decorrerão na cidade através de uma colaboração institucional com a Câmara Municipal do Porto. A escolha surge também num contexto em que a SIM Conference procura afirmar-se como ponto de encontro entre startups, investidores e grandes empresas.

O Tech Foundry Portugal destina-se a equipas e startups com sede ou atividade de investigação e desenvolvimento em Portugal. Entre as áreas prioritárias estão setores como biotecnologia, tecnologias para a saúde, materiais avançados, nanotecnologia, robótica, computação avançada, tecnologias do oceano, clima, espaço, aeronáutica e soluções para administração pública.

O programa inclui ainda uma ligação direta à linha IFIC Deep Tech do Banco Português de Fomento. Equipas apoiadas através deste mecanismo, que prevê investimentos até 750 mil euros em capital ou quase-capital em regime de coinvestimento privado, terão acesso automático ao percurso de aceleração.

A aproximação entre aceleração e financiamento revela uma tentativa de responder a uma fragilidade frequente do ecossistema nacional, onde programas de apoio e instrumentos financeiros surgem muitas vezes de forma dispersa.

Ainda assim, o desafio ultrapassa a criação de novos instrumentos. O verdadeiro impacto deste tipo de iniciativas tende a medir-se anos depois do lançamento, quando se torna possível perceber quantos projetos conseguem transformar investigação em empresas sustentáveis, clientes e escala internacional.

Por agora, o anúncio do secretário de Estado deixa uma indicação mais ampla, a deep tech começa a ocupar um espaço mais visível no discurso económico do Governo e passa a ser apresentada não apenas como um tema tecnológico, mas como um elemento associado à política industrial e à competitividade futura do país.

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