Huawei ganha terreno nos chips de IA na China

Empresa chinesa deverá assumir a maior quota do mercado chines de chips de inteligência artificial num contexto de restrições comerciais e procura por alternativas locais.
3 de Maio, 2026

A chinesa Huawei está posicionada para conquistar a maior fatia do mercado de chips de inteligência artificial na China ainda este ano, segundo uma análise avançada pelo Financial Times. O movimento ocorre num momento em que empresas tecnológicas chinesas procuram reduzir a dependência de fornecedores norte-americanos, num contexto marcado por tensões comerciais e restrições regulatórias.

A empresa prevê que as receitas com chips de IA atinjam 12 mil milhões de dólares, face aos 7,5 mil milhões registados em 2025, apoiada numa forte procura interna. Este crescimento estimado de cerca de 60% assenta, em grande parte, nas encomendas já existentes do modelo 950PR, cuja produção em massa começou recentemente. A Huawei prepara ainda o lançamento de uma versão atualizada, designada 950DT, prevista para o quarto trimestre.

Este avanço surge num período em que a atividade da Nvidia na China enfrenta obstáculos significativos. As operações da empresa norte-americana, que chegaram a representar até um quarto das receitas do seu negócio de centros de dados, estão condicionadas por restrições de exportação impostas pelos Estados Unidos e por exigências regulatórias chinesas.

Apesar de ter obtido autorizações para vender chips H200 à China, a Nvidia continua a enfrentar atrasos nas entregas devido a entraves regulatórios contraditórios entre Washington e Pequim. As autoridades chinesas têm incentivado as empresas locais a limitar o uso de tecnologia estrangeira às operações fora do país, enquanto os reguladores norte-americanos exigem que os chips vendidos sejam utilizados exclusivamente em território chinês. Esta incompatibilidade tem dificultado o processo de desalfandegamento.

A produção dos chips da Huawei está maioritariamente a cargo da SMIC, o principal fabricante de semicondutores da China, que planeia expandir a sua capacidade com a construção de duas novas fábricas dedicadas ainda este ano. Caso consiga aumentar a produção conforme previsto, a Huawei poderá reforçar ainda mais a sua posição no mercado.

Embora os chips da Nvidia continuem tecnicamente mais avançados, a Huawei tem seguido uma estratégia distinta. Em vez de competir diretamente no segmento de treino de modelos de IA, mais exigente em termos computacionais, a empresa está a focar-se na inferência — o processo pelo qual os modelos já treinados geram respostas e executam tarefas.

A Huawei está a posicionar os seus processadores 950PR como solução preferencial para tarefas de inferência, um segmento que deverá concentrar a maior parte da procura futura em inteligência artificial. Este posicionamento permite-lhe competir de forma eficaz, mesmo com chips de desempenho inferior, uma vez que as exigências de processamento são mais moderadas.

Para compensar limitações técnicas, a empresa recorre ainda à interligação de múltiplos chips através da sua tecnologia de rede, criando clusters de computação que aumentam o desempenho global do sistema. Esta abordagem tem vindo a demonstrar resultados práticos, como no caso da DeepSeek, que utilizou chips da Huawei para inferência no seu modelo mais recente, apesar de o treino ter sido feito com tecnologia da Nvidia.

A Nvidia continua, no entanto, a beneficiar de uma vantagem relevante no ecossistema de software. A sua plataforma CUDA mantém-se amplamente adotada pelos programadores, enquanto a alternativa da Huawei, o sistema Cann, ainda apresenta limitações em termos de maturidade e facilidade de utilização, o que pode traduzir-se em maiores custos de desenvolvimento para os clientes.

Mesmo assim, a posição da Nvidia no mercado chinês tem vindo a enfraquecer, abrindo espaço ao crescimento acelerado de fornecedores locais. Segundo estimativas da Morgan Stanley, apontadas pelo Financial Times, o mercado chinês de chips de IA poderá atingir os 67 mil milhões de dólares até 2030, sendo que empresas nacionais deverão responder por cerca de 86% dessa procura. Para este ano, os fornecedores chineses poderão representar cerca de 21 mil milhões de dólares.

O cenário atual reflete uma reconfiguração profunda da cadeia de valor dos semicondutores de inteligência artificial, impulsionada por fatores geopolíticos e pela crescente aposta da China na autonomia tecnológica.

Opinião