O emprego, e muitas profissões – cerca de 25% segundo estudos do Fórum Económico Mundial e da OCDE -, encontram-se atualmente muito expostos à transformação impulsionada pela Inteligência Artificial, sendo que a transformação é mais provável do que a substituição total. Ao invés de eliminar funções, aquilo que se está e irá assistir é à sua reconfiguração, redistribuindo tarefas com novos “colegas” de trabalho: os agentes. Esta evolução exigirá o desenvolvimento de novas competências e uma adaptação contínua dos profissionais: os empregos de maior crescimento até 2030 exigirão pensamento crítico, criatividade e capacidade de resolver problemas não estruturados.
Por isso, causa enorme estranheza o manifesto que advoga a restrição de utilização da IA no Ensino Superior, promovido por docentes deste grau de ensino, quando o que deverá ser feito é precisamente o oposto: promover a sua utilização de forma assistida, regulada, e eticamente responsável.
Novas Profissões e Funções Híbridas
A massificação da utilização da Inteligência Artificial e a inevitabilidade da sua adopção na prática diária implica o surgimento de novas profissões em diversas áreas e não apenas na tecnologia – o direito é um dos exemplos. Ao mesmo tempo, torna-se indispensável que praticamente todos os profissionais recebam formação e treino para utilizar as novas ferramentas e plataformas que, inevitavelmente, farão parte do seu dia-a-dia. Só assim será possível melhorar a eficiência e a eficácia no desempenho das suas funções.
Se, no que respeita aos novos perfis profissionais ligados à Inteligência Artificial, não estamos apenas a falar de cientistas de dados, engenheiros de machine learning, engenheiros de prompts ou arquitetos de IA, importa reconhecer que estão igualmente a emergir funções como supervisores de modelos, engenheiros do conhecimento e especialistas em ética digital. Paralelamente, começam também a ganhar relevância novas funções híbridas, como é o caso dos analistas de dados jurídicos, que combinam competências técnicas com conhecimento profundo do enquadramento legal. Acresce ainda que os profissionais já no ativo têm igualmente de desenvolver novas competências para integrar eficazmente a IA nas suas funções e tarefas atuais, sob pena de verem o seu papel progressivamente limitado num ambiente de trabalho cada vez mais digitalizado.
A Evolução das Profissões Tecnológicas
Embora o debate atual sobre o impacto da Inteligência Artificial incida de forma particularmente intensa sobre os programadores — ou seja, sobre a Engenharia de Software e, de forma mais ampla, sobre todas as áreas da Engenharia Informática — importa reconhecer que estes profissionais são, à partida, os que se encontram melhor preparados para enfrentar esta transformação. Tal deve‑se ao facto de, ao longo do seu percurso de formação, terem contactado com unidades curriculares que abordam os fundamentos da Inteligência Artificial, o que lhes confere uma base conceptual e técnica mais sólida para compreender e integrar estas ferramentas no seu trabalho quotidiano. No entanto, tal como já é habitual neste grupo profissional, a aprendizagem terá de continuar a evoluir, exigindo uma atualização permanente das competências e uma transição progressiva para um perfil cada vez mais associado ao conhecimento, à análise e à supervisão inteligente, e menos à produção repetitiva ou massificada de código.

E este paradigma não se aplica apenas às áreas tecnológicas. Estende‑se, de forma crescente, a inúmeras outras profissões e funções, nas quais os chamados copilots e sistemas de apoio inteligente podem amplificar a qualidade do trabalho realizado, aumentar a precisão das tarefas e libertar tempo para atividades de maior valor acrescentado. Trata‑se, portanto, de repensar não apenas o que fazemos, mas sobretudo como o fazemos, integrando a IA como um parceiro operacional que potencia a capacidade humana, em vez de a substituir.
Ou seja, os trabalhadores não técnicos – em áreas como a saúde, a justiça, a educação ou a administração pública -, necessitam de saber utilizar as novas aplicações/plataformas, mas também de compreender como a IA funciona, interpretar os seus outputs, avaliar riscos e garantir a sua utilização responsável. Isto inclui literacia sobre modelos base, limitações e enviesamentos, princípios de governança algorítmica, e competências de interação eficaz com copilots. Estes elementos tornam‑se essenciais para que os profissionais possam tomar decisões informadas, supervisionar agentes inteligentes e manter um elevado padrão de qualidade e ética no desempenho das suas funções.
Outra das áreas muito relevantes é ao nível das competências sociais, emocionais e colaborativas. Se até agora em equipas 100% humanas a comunicação e trabalho em equipa eram fundamentais, com a evolução para equipas híbridas – constituídas por humanos e agentes inteligentes a comunicação clara e colaboração assumem ainda maior relevância. A interação com sistemas autónomos exige maior precisão na formulação de instruções, maior capacidade de verificação e validação, bem como uma comunicação eficaz na articulação entre contributos humanos e algoritmos. Em suma, as competências relacionais e colaborativas passam a ser tão determinantes quanto as competências digitais.
Uma Revolução Organizacional e Humana
Acredito que a Inteligência Artificial não definirá o futuro do trabalho por si só. Seremos nós, enquanto sociedade, a definir que lugar queremos que ela ocupe e de que forma pode complementar o que nativamente temos para oferecer: criatividade, pensamento crítico, ética, empatia e capacidade de cooperação. A verdadeira revolução não será tecnológica, mas humana. E começa na forma como escolhemos aprender, ensinar e trabalhar lado a lado com estas novas ferramentas que, usadas com responsabilidade, podem ampliar — e não diminuir — o nosso potencial.
Hélder Quintela é Docente convidado do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave, e Presidente da Assembleia Geral da APBI






