IA ganha peso nas vendas em Portugal e expõe falhas nos dados

O mais recente estudo State of Sales da Salesforce, com dados para Portugal, mostra que a Inteligência Artificial já é usada por quase nove em cada dez equipas comerciais. Os agentes de IA sobem ao topo das prioridades para 2026, numa altura em que as equipas enfrentam excesso de tarefas administrativas, dificuldades na prospeção e desafios na qualidade dos dados.
16 de Fevereiro, 2026

A Salesforce divulgou a nova edição do seu estudo State of Sales, baseado num inquérito a mais de 4.000 profissionais de vendas em mais de 20 países, incluindo Portugal. O retrato nacional indica que 89% das equipas e empresas de vendas já utilizam alguma forma de Inteligência Artificial em tarefas como prospeção, previsão de vendas, classificação de oportunidades ou redação de emails.

O contexto ajuda a explicar esta adesão. As equipas comerciais acumulam funções, divididas entre a pressão para gerar receita e a necessidade de responder a clientes cada vez mais exigentes. Segundo o estudo, o principal bloqueio à produtividade não está na falta de competência, mas no peso das tarefas administrativas.

É aqui que entram os chamados agentes de IA, sistemas capazes de executar autonomamente tarefas como pesquisar contactos, redigir comunicações ou apoiar a qualificação de oportunidades. Em Portugal, 88% dos líderes comerciais consideram que estes agentes são essenciais para responder às exigências atuais do negócio.

Entre os profissionais que já recorrem a IA, 89% dizem que a tecnologia melhora a compreensão do cliente e 87% afirmam que reduz o nível de stress no trabalho. A adoção de agentes está ainda numa fase de aceleração: 41% dos inquiridos em Portugal já os utilizaram e 53% planeiam fazê-lo até 2027. Quando totalmente implementados, os vendedores esperam reduzir em 31% o tempo gasto na pesquisa de potenciais clientes e em 35% o tempo dedicado à redação de emails.

Fernando Braz, responsável da empresa em Portugal, enquadra esta aposta como uma forma de libertar as equipas da burocracia e concentrar esforços na construção de relações comerciais. A própria organização está a utilizar agentes para integrar novos representantes, acelerar a orçamentação de negócios complexos e personalizar o contacto com clientes, além de manter atividades de prospecção contínuas.

A nível global, a empresa indica que, em quatro meses, os seus agentes contactaram 130.000 leads e geraram 3.200 oportunidades de negócio, estimando um crescimento significativo destes números no próximo ano.

A prospeção continua a ser um dos pontos mais sensíveis da função comercial. Em Portugal, 53% dos representantes de vendas apontam as chamadas a frio como a parte mais difícil do trabalho e a mesma percentagem admite não ter disponibilidade para realizar prospeção adequada, apesar de dedicar quase um dia por semana a essa tarefa.

Para compensar esta limitação, 66% já utilizam IA na prospeção e 37% planeiam fazê-lo. Globalmente, 92% dos vendedores que usam agentes de IA consideram que estes melhoram os seus esforços nesta área. O estudo acrescenta que os profissionais de alto desempenho têm 1,7 vezes mais probabilidade de recorrer a agentes para prospeção do que os colegas com resultados mais baixos.

O peso das tarefas administrativas afeta de forma desigual as diferentes gerações. Enquanto o vendedor médio em Portugal dedica 43% do seu tempo a vender, os representantes da Geração Z ficam-se pelos 35%, perdendo cerca de duas horas semanais em introdução manual de dados. Além disso, 46% referem que raramente recebem feedback sobre as suas conversas de vendas e 47% dizem não ter oportunidades suficientes para treinar antes de contactar clientes.

Quando questionados sobre os entraves à formação, os mais jovens apontam a falta de tempo dos gestores, enquanto gerações mais experientes referem a ausência de dados e informação estruturada. A consequência é uma maior predisposição da Geração Z para mudar de emprego, sobretudo por falta de perspetivas de crescimento.

A crescente utilização de IA trouxe para o centro da agenda um tema menos visível, mas crítico: a qualidade dos dados. Entre os líderes de vendas portugueses que usam IA, 37% admitem que sistemas desconectados estão a atrasar as suas iniciativas.

Para responder a este problema, 61% das equipas estão a investir na limpeza e normalização de dados, eliminando duplicações e corrigindo inconsistências. Entre os profissionais de alto desempenho, essa prioridade sobe para 79%, face a 54% nos restantes.

A conclusão do estudo é clara quanto à dependência da tecnologia em relação à informação disponível. Sem dados integrados e fiáveis, os agentes tendem a produzir resultados imprecisos. Para os decisores de TI e de compras tecnológicas, a mensagem é direta: a aposta em IA nas vendas exige uma base sólida de dados e integração entre sistemas, sob pena de limitar o retorno do investimento.

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