IA generativa vai modernizar administração pública portuguesa

Um estudo encomendado pela Google à Católica Lisbon School of Business and Economics e à Implement Consulting Group revela que a adoção da inteligência artificial generativa pode aumentar em até 9% a produtividade da administração pública. A transformação poderá traduzir-se num Estado mais eficiente, mais próximo dos cidadãos e com impacto direto na economia nacional.
27 de Outubro, 2025

A inteligência artificial (IA) generativa está a deixar de ser apenas uma promessa tecnológica para se tornar uma ferramenta prática ao serviço das instituições públicas. Um novo relatório estima que a sua adoção pode gerar um acréscimo anual de 1,2 mil milhões de euros para a economia portuguesa, à medida que a produtividade do setor público aumenta cerca de 9% ao longo da próxima década.

O estudo, conduzido pela Implement Consulting Group e pela Católica Lisbon School of Business and Economics, aponta para uma oportunidade clara: a tecnologia pode libertar milhares de funcionários públicos de tarefas rotineiras, permitindo-lhes concentrar-se em missões de maior valor, como o contacto direto com os cidadãos e a resolução de casos mais complexos.

Cerca de 66% dos trabalhadores do Estado — cerca de 200 mil pessoas — podem ver as suas funções transformadas com o apoio da IA. O relatório indica ainda que mais de metade dos funcionários já utiliza ferramentas de inteligência artificial e que 80% acredita que estas serão indispensáveis na próxima década.

O impacto para o cidadão comum poderá ser imediato. A IA pode simplificar processos burocráticos e acelerar a resposta dos serviços públicos, tornando mais rápido e fácil pedir um passaporte, registar um nascimento ou pagar impostos. Em vez de enfrentar formulários complexos e sistemas pouco intuitivos, os utilizadores poderão contar com assistentes inteligentes capazes de orientar cada passo.

As empresas também sentirão os efeitos desta transformação. A automatização de processos administrativos e de candidaturas a apoios públicos pode reduzir tempos de espera e eliminar etapas redundantes, tornando a relação com o Estado mais previsível e eficiente.

Portugal já começou a testar estas soluções. O assistente virtual de IA do portal Gov.pt respondeu a mais de 17 mil conversas no primeiro mês de funcionamento, resolvendo 62% dos casos sem necessidade de intervenção humana. Este exemplo mostra que a modernização digital do Estado não é apenas possível — está já em curso.

O relatório recomenda que esta evolução seja feita de forma coordenada entre as várias instituições, com estratégias de adoção partilhadas e foco em projetos de baixo risco. Defende também que o país deve garantir soberania digital e independência tecnológica, apostando em sistemas abertos, seguros e escaláveis que evitem a dependência de fornecedores únicos.

A transformação digital da administração pública exige também investimento nas pessoas. A Google anunciou que irá financiar com 1 milhão de dólares um programa de formação em inteligência artificial para 7.000 estudantes universitários portugueses, em parceria com as organizações INCO e Chance. O projeto será desenvolvido em colaboração com o Instituto Politécnico de Santarém e o Instituto Politécnico de Tomar, com o objetivo de preparar uma nova geração de profissionais para os desafios do mercado tecnológico.

Em paralelo, a empresa tem reforçado a infraestrutura digital que suporta esta transição. O cabo submarino Equiano, inaugurado em 2022, reforçou a ligação entre Portugal e África, enquanto o cabo Nuvem, previsto para 2026, ligará o país aos Estados Unidos. Para 2025, está já planeado o cabo Sol, uma nova ligação transatlântica entre Espanha e os Estados Unidos, passando pelos Açores e pelas Bermudas.

Estas iniciativas mostram que Portugal está a posicionar-se como um ponto estratégico na rede global de inovação e conectividade. Mas a verdadeira mudança não depende apenas da tecnologia: depende da colaboração entre governo, setor privado e academia, de políticas públicas consistentes e de uma aposta firme na capacitação digital das pessoas.

A inteligência artificial pode ser a chave para uma administração pública mais eficiente e centrada no cidadão. O desafio agora é garantir que esta transformação se faz de forma ética, segura e inclusiva, colocando a tecnologia ao serviço das pessoas — e não o contrário.

Opinião