A inteligência artificial generativa entrou nas empresas antes de muitas organizações estarem preparadas para a gerir. Desde o lançamento do ChatGPT e de outras ferramentas de consumo, no final de 2022 e início de 2023, os colaboradores começaram a perceber rapidamente o potencial destes sistemas para escrever, resumir, programar, pesquisar ou acelerar tarefas repetitivas. O problema, para as empresas, surgiu logo a seguir: que dados estavam a ser introduzidos nessas plataformas e com que nível de controlo?
Na Cisco, a questão foi colocada de forma direta. A empresa podia bloquear o acesso a ferramentas externas de IA ou criar uma alternativa interna, mais segura e alinhada com as suas necessidades. Optou pela segunda via. Em vez de tratar a IA generativa apenas como uma ameaça, desenvolveu um assistente próprio, lançado internamente no final de 2023 e disponibilizado aos colaboradores a partir de 2024.
A decisão da Cisco partiu de uma lógica que é central para as empresas europeias, se os colaboradores precisam de IA para trabalhar melhor, a organização deve oferecer um ambiente governado antes que a utilização informal se espalhe.
Este ponto é especialmente relevante num contexto europeu e português, onde as exigências sobre proteção de dados, segurança, conformidade regulatória e responsabilidade na utilização de tecnologia são cada vez mais fortes. A questão já não é saber se os colaboradores vão usar IA. A questão é saber se a vão usar dentro de uma arquitetura controlada ou através de ferramentas externas, muitas vezes sem visibilidade para as equipas de TI, segurança ou compliance.
O assistente interno da Cisco foi concebido para evitar essa fragmentação. Em vez de permitir que diferentes equipas adotassem soluções distintas, a empresa criou uma plataforma comum, capaz de integrar vários modelos de IA. Inicialmente, o sistema incluía Azure OpenAI e Google Gemini, mas foi desenhado para poder incorporar novos modelos em poucas semanas, sempre que exista uma necessidade interna justificada.
Esta flexibilidade é uma das dimensões mais importantes do projeto. Para grandes organizações, a escolha de um único modelo pode tornar-se limitadora. A capacidade de trabalhar com diferentes modelos, dentro de um mesmo ambiente governado, permite adaptar a IA a diferentes funções, casos de uso e níveis de risco.
Com o tempo, o assistente evoluiu para uma ferramenta transversal. Funciona como copiloto empresarial, apoio à programação, assistente de recursos humanos e interface para tarefas de produtividade. No desenvolvimento de software, ajuda a detetar pequenos erros e a gerar testes unitários. Noutras áreas, apoia tarefas administrativas, facilita o acesso a informação interna e reduz a dependência de múltiplas aplicações.
Segundo a Cisco, os engenheiros poupam em média seis horas por semana com a ferramenta, enquanto os restantes colaboradores ganham cerca de cinco horas semanais. No primeiro trimestre de 2026, o assistente tinha mais de 96 mil utilizadores e uma taxa de adoção de 90% entre os colaboradores. Os inquéritos internos indicam que 79% dos utilizadores consideram que a ferramenta lhes poupa tempo, 72% dizem que aumenta a produtividade e 71% referem melhorias na qualidade do trabalho.
Para os decisores de tecnologia, estes números devem ser lidos com alguma prudência, mas também com atenção. A produtividade prometida pela IA generativa só tem valor empresarial quando é acompanhada por controlo, medição e integração nos processos existentes. Ganhar minutos ou horas em tarefas isoladas é relevante, mas o verdadeiro impacto surge quando essas melhorias passam a fazer parte da forma como a organização trabalha.
A Cisco afirma que o custo mensal por utilizador ronda os 10 dólares, abaixo do preço de subscrição de várias soluções comerciais de assistentes de IA. Para empresas de grande dimensão, esta é uma indicação importante: quando existe escala, uma solução interna pode reduzir dependências externas e permitir maior controlo sobre dados, permissões e integrações. Ainda assim, este tipo de abordagem exige capacidade técnica, governação contínua e investimento em manutenção.
A arquitetura do projeto assenta em micros erviços, o que facilita a integração de novas aplicações de IA. A plataforma permite a partilha de prompts entre colaboradores, a realização de tarefas de recursos humanos, como o agendamento de férias, e a criação de projetos personalizados com dados proprietários guardados em pastas seguras do OneDrive.
Um dos elementos mais relevantes é a utilização de geração aumentada por recuperação, conhecida pela sigla RAG. Na prática, esta abordagem permite que o modelo responda com base em documentos internos e metadados da empresa. Em vez de depender apenas do conhecimento geral do modelo, o assistente consegue consultar informação corporativa dentro de limites definidos.
A função “My Projects” permite aos colaboradores carregar conjuntos de dados proprietários para ambientes seguros e fazer perguntas sobre essa informação sem a expor a serviços públicos. Esta capacidade responde a um dos maiores riscos da adoção informal de IA: a tentação de copiar documentos internos, dados operacionais ou informação de clientes para plataformas externas em busca de respostas rápidas.
No mercado europeu, este ponto é particularmente sensível. Organizações sujeitas a regras exigentes de proteção de dados, auditoria e segurança precisam de saber onde a informação é processada, quem lhe acede e que controlos existem sobre a sua utilização. A IA generativa não elimina estas obrigações. Pelo contrário, torna-as mais complexas.
A abordagem da Cisco mostra que a resposta à chamada IA sombra não passa apenas por proibir ferramentas. A proibição pode reduzir alguns riscos imediatos, mas também pode empurrar a utilização para fora do radar da empresa. Uma alternativa interna, útil e bem integrada, aumenta a probabilidade de os colaboradores adotarem canais autorizados.
Esta é talvez a principal lição para CIOs e CISOs (siglas em inglês) em Portugal. A governação da IA não deve ser vista como um travão à inovação, mas como a condição para que a inovação possa escalar. Sem regras claras, a IA fica dispersa. Sem ferramentas úteis, os colaboradores procuram alternativas. Sem integração, a produtividade prometida fica limitada a experiências individuais.
A próxima fase prevista pela Cisco passa pela criação de agentes personalizados para cada colaborador. Estes sistemas poderão ligar-se ao email e ao Webex Meetings, ordenar mensagens por prioridade ou executar determinadas ações mediante autorização. A ideia é criar uma camada de apoio permanente, ajustada ao contexto de trabalho de cada pessoa.
Mas esta evolução também aumenta o nível de risco. Um assistente que responde a perguntas é diferente de um agente que executa ações. Quando a IA passa a interagir com email, reuniões, sistemas internos ou processos financeiros, a questão da responsabilidade torna-se mais exigente.
A Cisco reconhece que o controlo humano continuará a ser necessário, sobretudo porque estes sistemas podem cometer erros. A delegação total só fará sentido em tarefas de baixo valor ou baixo risco, onde uma falha não tenha impacto material. Nas restantes, será essencial manter validação humana, rastreabilidade e regras claras de autorização.
O desafio para as empresas não será apenas adotar agentes de IA, mas definir em que tarefas estes podem atuar, com que permissões e sob que supervisão humana.
Para o mercado português, esta discussão chega num momento em que muitas organizações ainda estão a consolidar políticas internas de IA generativa. Algumas já testam copilotos, outras permitem ferramentas públicas com restrições, e muitas continuam a avaliar como equilibrar produtividade e segurança. O caso da Cisco não deve ser lido como uma receita técnica universal, mas como uma orientação estratégica.
A dimensão cultural também conta. A Cisco posiciona a IA como uma camada de amplificação do trabalho humano, não como substituição direta dos colaboradores. Esta escolha pode ajudar a reduzir resistência interna e a acelerar a adoção, sobretudo em organizações onde a transformação digital depende tanto da confiança das equipas como da tecnologia disponível.
No fim, a questão é menos sobre o modelo de IA escolhido e mais sobre a arquitetura de decisão que a empresa constrói à sua volta. Quem pode usar? Com que dados? Para que tarefas? Com que supervisão? Com que custos? E com que responsabilidade?
A experiência da Cisco mostra que a IA generativa já deixou de ser apenas uma ferramenta experimental. Está a tornar-se parte da infraestrutura de produtividade das grandes organizações. Para os decisores tecnológicos portugueses a IA empresarial terá de ser segura, integrada e governada. Caso contrário, entrará na empresa pela porta mais difícil de controlar.







