IA na análise de dados: evolução natural ou rotura profunda?

O debate do BI 30 Minutos chega ao Digital Inside com respostas práticas para quem decide tecnologia
27 de Janeiro, 2026

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O episódio número 50 do BI 30 Minutos, iniciativa da Associação Portuguesa de Business Intelligence (APBI), marca um ponto de viragem. A partir de agora, o programa passa a ter um espaço regular no Digital Inside, aproximando-se do trabalho real dos cientistas de dados e das equipas de BI que, todos os dias, sustentam a digitalização dos negócios em Portugal.

O tema escolhido não podia ser mais atual: a Inteligência Artificial representa uma simples evolução das ferramentas de dados ou uma rotura profunda na forma como se trabalha com informação? A resposta curta é menos dramática do que o ruído mediático sugere. A resposta longa interessa, e muito, a quem toma decisões de investimento em tecnologia.

Expectativa social vs. realidade técnica

Para José António Silva, a grande rotura não é técnica, mas social. “Se não lhe dermos dados bons, continuamos no garbage in, garbage out”, resume. A frase pode ser conhecida, mas mantém-se brutalmente atual. A IA não resolve problemas de dados mal curados, mal governados ou mal compreendidos.

O que mudou, isso sim, foi o interface. A linguagem natural substitui menus e fórmulas, e os profissionais passam a desenhar modelos orientados a “agentes”. Em termos simples, já não se trata apenas de tabelas e métricas, mas de semântica: perceber relações entre entidades, contextos e significados.

José António Silva usa uma metáfora para gestores: trabalhar com agentes de IA é como orientar equipas juniores. Precisam de guias, regras e incentivos. A vantagem? Uma agilidade inédita. Hoje é possível testar, falhar e iterar rapidamente, sem o custo emocional e financeiro de “deitar tudo fora” a cada tentativa. Ainda assim, fica o aviso: as black boxes continuam a exigir espírito crítico, sobretudo quando as decisões têm impacto direto em pessoas.

Do construtor de dashboards ao arquiteto de dados

No terreno empresarial, Pedro Assude, do Grupo Nabeiro, confirma que a IA já faz parte do dia a dia. Ferramentas como o Copilot no Power BI aceleram a criação de medidas, alertas e análises. Mas os velhos problemas não desapareceram. Limpeza de dados e transformações continuam a consumir tempo e atenção.

O impacto maior sente-se no perfil profissional. O técnico focado apenas em gráficos está a perder relevância. Ganha espaço o “Arquiteto de Dados”: alguém que valida o código gerado pela IA, garante a coerência da arquitetura e assegura que os números fazem sentido para o negócio.

À medida que a técnica se democratiza, a literacia de negócio torna-se diferenciadora. Conhecer operações, processos e objetivos estratégicos é onde o valor humano permanece difícil de substituir. Para quem decide compras tecnológicas, investir só em ferramentas não chega, é preciso investir em competências.

Menos funções, mais valor real

Hélder Quintela alarga o debate para lá do BI. A IA está a atravessar todas as funções, do comercial ao programador, aumentando eficiência e eficácia. No futuro, defende, deixaremos de falar em cargos tradicionais para falar em tarefas executadas por humanos e tarefas entregues a agentes, sobretudo as mais determinísticas.

Isto abre espaço a uma mudança estrutural no trabalho. Os profissionais passam a ser valorizados pelo conhecimento e pelo impacto, não pelo tempo gasto. Consolidar ficheiros Excel deixa de ser um ritual inevitável e passa a ser um desperdício evitável.

Como docente, Quintela lembra que o ensino superior português já prepara os alunos para esta realidade há vários anos. A novidade está no upskill necessário: saber fazer a pergunta certa. O chamado prompting não é magia, é raciocínio estruturado.

Apesar da vaga de automação, as bases não mudam. SQL, modelação dimensional e princípios clássicos como Kimball continuam a ser essenciais para validar o que a máquina produz. Sem esse alicerce, a confiança nos resultados é frágil.

Curiosidade e sentido crítico como vantagem competitiva

O consenso entre os especialistas é pragmático. A IA não elimina o profissional de dados, mas expõe quem depende apenas da técnica. Num mercado cada vez mais competitivo, curiosidade, espírito crítico e compreensão do negócio tornam-se as verdadeiras vantagens competitivas.

Para os decisores de tecnologia, fica uma conclusão simples: a IA acelera, mas não substitui o pensamento. As organizações que melhor tirarem partido desta nova fase serão as que investirem tanto em pessoas como em plataformas. É aí que a digitalização deixa de ser promessa e passa a ser resultado.