A adoção de inteligência artificial (IA) nas empresas portuguesas avança impulsionada pela necessidade de eficiência e pela pressão competitiva, mas ainda enfrenta limitações práticas e culturais. A tecnologia é vista simultaneamente como um acelerador de processos e como um instrumento que redefine funções, sem eliminar necessariamente postos de trabalho.
Na perspetiva de Olavo de Sousa, responsável de serviços da Ricoh Portugal, a IA já está integrada no quotidiano das organizações, tanto ao nível dos processos como no uso individual por parte dos colaboradores. Em algumas áreas específicas, a automatização permite substituir tarefas cujo resultado é hoje considerado inferior ao obtido com recurso a sistemas inteligentes, mas essa substituição traduz-se, na prática, numa reorientação das pessoas para funções de maior valor.
Ainda assim, o ritmo de adoção não é uniforme. As empresas demonstram interesse crescente, muitas vezes motivadas por comparação com concorrentes ou por curiosidade sobre o potencial da tecnologia. No entanto, persistem dúvidas quanto à aplicabilidade concreta. Apesar da forte visibilidade mediática, os casos de uso com impacto direto no dia-a-dia empresarial continuam limitados, sendo o custo um dos principais fatores que condiciona decisões.
A experiência da ExpressGlass ilustra uma abordagem pragmática. A empresa introduziu sistemas de IA capazes de analisar danos em viaturas através de imagem, apoiando a decisão entre reparação e substituição. Esta aplicação contribui não só para ganhos operacionais, mas também para objetivos de sustentabilidade, ao aumentar a taxa de reparação.
A utilização da tecnologia estende-se também ao desenvolvimento de software e ao apoio a operações internas, incluindo projetos em curso para integrar IA em redes e centros de contacto. Neste contexto, a automatização é vista como uma forma de aumentar a disponibilidade do serviço, nomeadamente através de atendimento contínuo, sem implicar a eliminação do contacto humano.
Nos serviços de suporte e atendimento, a evolução tende a favorecer a automatização de processos mais estruturados. Sistemas inteligentes já conseguem assegurar respostas consistentes e contínuas em tarefas repetitivas, libertando recursos humanos para situações que exigem interpretação e empatia.
Ainda assim, o contacto humano mantém relevância, sobretudo em momentos críticos. A capacidade de compreender rapidamente um problema e adaptar a resposta continua a ser apontada como uma vantagem das pessoas face aos sistemas automatizados.
Do ponto de vista da gestão de recursos, a experiência acumulada indica que a automação não é um fenómeno recente. Processos anteriormente manuais, como a emissão de faturas, foram progressivamente automatizados sem impacto direto no emprego. A tendência repete-se com a IA, exigindo adaptação e requalificação, mas não conduzindo, de forma generalizada, à redução de equipas.
A evolução tecnológica coloca, no entanto, novos desafios na formação e na gestão de talento. As gerações mais jovens entram no mercado com maior familiaridade com ferramentas digitais, mas nem sempre com experiência prática suficiente para avaliar criticamente os resultados produzidos por sistemas de IA. A capacidade de questionar e validar as respostas da tecnologia continua dependente de conhecimento acumulado e contexto operacional.
A escassez de competências especializadas é apontada como um entrave à adoção mais alargada. Apesar do surgimento de formação específica, as empresas referem dificuldades em encontrar profissionais com capacidade para explorar plenamente estas tecnologias. Existe um desfasamento entre o potencial demonstrado em ambientes experimentais e a sua aplicação efetiva nos contextos empresariais.
Neste cenário, o papel das organizações passa também por formar internamente e adaptar modelos de aprendizagem. A utilização de ambientes simulados e ferramentas avançadas permite acelerar a aquisição de competências técnicas, mas exige investimento contínuo.
Para empresas fora do setor tecnológico, a atração de talento constitui um desafio adicional. Ainda assim, a possibilidade de acompanhar projetos de ponta a ponta e de observar o impacto direto das soluções implementadas surge como um fator de motivação para profissionais de IT.
A relação com integradores tecnológicos assume um papel relevante neste processo. As empresas procuram parceiros capazes de oferecer não apenas implementação técnica, mas também orientação estratégica baseada na experiência acumulada no mercado.
A proximidade no acompanhamento e a partilha de conhecimento sobre tendências e soluções disponíveis são apontadas como elementos diferenciadores. Este apoio torna-se particularmente importante num contexto em que as decisões tecnológicas implicam investimento significativo e impacto direto na operação.
No caso das pequenas e médias empresas, a automatização é vista como uma oportunidade para ganhar escala e eficiência. A adoção precoce de processos automatizados permite libertar recursos e concentrar esforços na melhoria do serviço ao cliente e na diferenciação do negócio.
A evolução da inteligência artificial nas organizações portuguesas segue, assim, um caminho gradual, marcado por ganhos claros de produtividade, mas também por desafios ao nível da aplicação prática, da formação e da gestão de talento. O equilíbrio entre tecnologia e fator humano permanece, para já, no centro das decisões.







