IA obriga a repensar o modelo de trabalho

Um relatório da SAP indica que a eficiência já não é suficiente na estratégia empresarial: embora a tecnologia economize mais de uma hora por dia por funcionário, as empresas devem reorganizar as tarefas e evitar a desmotivação diante da automação.
9 de Fevereiro, 2026

A SAP publicou os resultados do seu último estudo intitulado The Road Ahead: Predictions and Possibilities for the Future of Work. Para elaborar este documento, a empresa combinou a análise de 357 fontes especializadas com um inquérito de campo realizado a 8058 funcionários em todo o mundo. As conclusões apontam que as empresas atingiram um ponto de inflexão decisivo em que a busca pela eficiência operacional deixou de ser o único objetivo válido. Isso obriga as corporações a repensar a natureza do trabalho e a sua distribuição entre o capital humano e os sistemas inteligentes.

Os dados revelados pela análise indicam que os funcionários conseguem economizar em média 75 minutos por dia graças ao uso da inteligência artificial, um número que aumentou em 23 minutos em relação aos registos do início de 2025. No entanto, a investigação destaca uma deficiência na gestão desse tempo libertado: a maioria dos inquiridos indica que esse tempo excedente é destinado a aumentar o volume de trabalho existente, em vez de ser dedicado a tarefas de maior valor acrescentado. Este fenómeno revela que, até à data, o impacto se limitou à eficiência quantitativa, adiando a necessária transição para formas de trabalho qualitativamente diferentes.

Esta capacidade da tecnologia para assumir cargas de trabalho gera uma dupla perceção no funcionário. Quase metade dos profissionais calcula que 42% das suas funções atuais poderiam ser realizadas pela inteligência artificial. Esta previsão tem um impacto direto na estabilidade emocional da equipa, uma vez que a perceção de insegurança no emprego aumenta 25% por cada aumento de 10% na quantidade de trabalho considerado automatizável.

Este relatório esboça duas estratégias diferenciadas para a integração destas ferramentas. A primeira consiste em automatizar ao máximo os processos, deixando nas mãos das pessoas apenas as tarefas residuais que a máquina não pode realizar. Embora esta abordagem possa oferecer picos de produtividade imediatos, o estudo alerta para os seus efeitos adversos a longo prazo, citando riscos significativos de desmotivação e erosão da confiança nas equipas. Por outro lado, a segunda alternativa, considerada a mais transformadora, defende a redesenho das funções profissionais para combinar o potencial humano com o da IA, promovendo o pensamento crítico e a autonomia. De facto, 80% dos trabalhadores confiam que esta tecnologia lhes permitirá concentrar-se em atividades de maior valor e participar em projetos mais estimulantes.

A penetração da inteligência artificial na rotina de trabalho modificou substancialmente as relações no ambiente de trabalho. O estudo revela um dado surpreendente: 40% dos funcionários utilizam a IA como fonte de apoio emocional, e mais de metade da amostra afirma sentir-se mais apoiada por estas ferramentas digitais do que pelos seus próprios colegas humanos. Apesar destas novas expectativas, o relatório alerta para o perigo de antropomorfizar a tecnologia, tratando-a como um igual.

Para mitigar esses riscos de dependência e isolamento, recomenda-se estabelecer um modelo de relação em que a IA atue como um colaborador imparcial que oferece análises rigorosas sem tentar imitar o comportamento humano. Essa redefinição é fundamental para preservar o valor do critério profissional na execução de tarefas complexas e evitar que a tecnologia substitua as dinâmicas sociais necessárias na empresa.

No plano intelectual, consolida-se a perceção da IA como um aliado, já que metade dos profissionais prefere projetar soluções em conjunto com um sistema inteligente do que com outro colega. No entanto, existe uma tendência preocupante para o que o relatório denomina «efeito descarga»: a aceitação acrítica dos resultados gerados pela máquina. 90% dos funcionários admitem ter entregue conteúdo gerado inteiramente pela IA sem ter feito nenhuma modificação posterior. Diante dessa passividade, os especialistas defendem a implementação de sistemas que estimulem o pensamento humano e a introdução de nuances, aproveitando que 67% dos trabalhadores reconhecem que essas ferramentas os ajudam a explorar abordagens mais criativas e inovadoras.

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