Num momento em que a transformação digital deixou de ser promessa para passar a ser exigência, conversar com Pedro Gomes Santos, diretor-geral da Inetum Portugal, é uma boa forma de perceber como se constrói, na prática, um integrador tecnológico com ambição global e execução local. Esta conversa, integrada no Coffee Break do Digital Inside, passou por temas centrais para qualquer decisor de TI: talento, impacto real da tecnologia, inteligência artificial e o papel da regulação.
A presença da Inetum em Portugal foge ao padrão clássico das multinacionais de tecnologia concentradas em Lisboa e, no máximo, no Porto. Além destas duas cidades, a empresa tem operações relevantes na Covilhã e em Bragança. A explicação não é logística nem fiscal. É estratégica.
Segundo Pedro Gomes Santos, a proximidade às universidades é um fator decisivo. Em Bragança, por exemplo, a Inetum leciona uma unidade curricular durante seis meses, o que lhe permite acompanhar, avaliar e formar talento ainda antes da contratação. Esta estratégia faz com que estes polos representem hoje cerca de metade do headcount da Inetum em Portugal. Num mercado marcado pela escassez de competências, esta abordagem antecipada ao recrutamento faz a diferença.
À primeira vista, a Inetum pode parecer muitas empresas numa só: consultora, integradora, prestadora de serviços geridos e parceira estratégica. Essa perceção tem explicação na história da operação portuguesa, construída a partir de aquisições, incluindo a de um dos maiores prestadores de serviços SAP do mercado nacional.
O portefólio está hoje organizado em três grandes áreas. A consultoria tecnológica, orientada para ajudar os clientes a desenhar roadmaps de transformação digital. A área de tecnologia, mais operacional, que cobre infraestruturas, sistemas e aplicações correntes. E, finalmente, a área de solutions, onde está o principal foco de crescimento.
É aqui que entram as parcerias estratégicas com fabricantes como SAP, Microsoft, ServiceNow e Salesforce, bem como áreas como dados, inteligência artificial, cibersegurança e engenharia aplicada a setores como defesa, transportes e administração pública.
Quando fala de impacto, Pedro Gomes Santos afasta-se do discurso abstrato. Dá exemplos concretos. Um deles vem da sua experiência na América Latina, onde a Inetum liderou um projeto de transformação digital do registo civil no Peru, colocando online milhões de registos de nascimento, casamento e óbito. O impacto social foi imediato: menos burocracia, mais acesso e mais eficiência.
Em Portugal, o impacto assume outras formas, muitas vezes invisíveis. Desde operações críticas asseguradas em regime 24×7 durante situações de crise, como apagões, até projetos de modernização que garantem a continuidade de serviços públicos essenciais. Para a Inetum, ser parceiro tecnológico é estar presente quando as coisas correm mal, não apenas quando se anunciam projetos.
Contrariando o discurso recorrente de que Portugal é pequeno demais para inovar, o responsável da Inetum defende que o país tem sido, em muitos casos, early adopter de tecnologia. Eventos como o Web Summit ajudam a reforçar essa perceção internacional, mas o essencial acontece fora dos palcos.
O verdadeiro desafio, sobretudo no setor público, não está tanto na falta de tecnologia, mas na sua adoção. Sistemas existem. Plataformas também. O problema está na capacitação dos utilizadores finais e na gestão da mudança. Sem isso, a transformação digital fica incompleta.
Inteligência artificial: menos medo, mais literacia
A inteligência artificial foi outro dos temas centrais da conversa. Para Pedro Gomes Santos, o medo da IA nasce sobretudo do desconhecimento. A tecnologia chegou rapidamente, ganhou visibilidade mediática e criou expectativas pouco realistas. Muitas organizações querem “ter IA”, mas não sabem para quê nem como.
A posição da Inetum é pragmática. A IA não vem substituir pessoas, vem ajudá-las. Não funciona sem dados de qualidade nem sem profissionais capazes de a orientar. Internamente, a empresa já automatizou mais de uma centena de processos, libertando equipas para tarefas de maior valor. Nos clientes, o objetivo é o mesmo: mais produtividade, mais eficiência e melhores resultados, não cortes cegos.
O conceito de copilot, popularizado pela Microsoft, é um bom resumo desta visão. Um assistente que apoia o trabalho humano, desde que exista investimento sério em reskilling e upskilling.
Regulação: limite ou enquadramento?
A regulação europeia, em particular na área da IA, é muitas vezes vista como um travão à inovação. A Inetum discorda dessa leitura simplista. A lei tem de ser respeitada e os princípios éticos são inegociáveis. Isso não impede a inovação, antes a torna mais sustentável.
O maior obstáculo, mais uma vez, é o desconhecimento. A legislação está em evolução e gera incerteza, mas não constitui, por si só, uma barreira intransponível. Com clareza, informação e parceiros experientes, as organizações conseguem inovar dentro das regras.
A conversa com Pedro Gomes Santos deixa uma mensagem clara para os responsáveis de compras tecnológicas e decisores de TI: a transformação digital não se faz com modas, mas com pessoas, talento e adoção real. A tecnologia é um meio, não um fim. E o impacto mede-se no terreno, não nos slides.
Num mercado cada vez mais pressionado por escassez de competências, expectativas elevadas e escrutínio regulatório, esta visão pragmática pode ser tão valiosa como qualquer nova plataforma.






