A adoção de inteligência artificial está a coincidir com uma nova vaga de despedimentos no setor tecnológico global. Um relatório recente baseado em anúncios públicos de reestruturação empresarial indica que cerca de 9.238 postos de trabalho eliminados em 2026 estão associados diretamente à implementação de sistemas de inteligência artificial e a mudanças organizacionais ligadas à automatização.
Os números fazem parte de uma análise conduzida pela RationalFX, que reuniu dados provenientes de várias fontes independentes, incluindo notificações formais de despedimentos nos Estados Unidos (WARN notices), bases de dados de monitorização do setor tecnológico e reportagens especializadas. No total, desde o início de 2026 foram registados 45.363 despedimentos no setor tecnológico em todo o mundo, sendo que aproximadamente um quinto está ligado a iniciativas de automatização baseadas em IA.
Embora a redução de pessoal em empresas tecnológicas não seja um fenómeno novo, o relatório aponta para uma mudança estrutural. As empresas não estão apenas a ajustar custos num ciclo económico adverso. Em muitos casos, estão a reorganizar operações com base em novas ferramentas capazes de executar tarefas que anteriormente exigiam equipas humanas.
O caso mais expressivo surge na empresa tecnológica norte-americana Block. A companhia decidiu eliminar cerca de 4.000 postos de trabalho, reduzindo a sua força laboral de aproximadamente 10.000 para cerca de 6.000 colaboradores, numa reestruturação associada ao aumento das capacidades das ferramentas de inteligência artificial. A decisão segue um processo iniciado no ano anterior, quando a empresa já tinha dispensado cerca de 8% da sua equipa.
Outro exemplo relevante vem da australiana WiseTech Global, especializada em software para logística. A empresa anunciou a eliminação de 2.000 postos de trabalho no âmbito de um programa de transformação baseado em inteligência artificial, que pretende alterar a forma como as suas plataformas tecnológicas são desenvolvidas e mantidas. A direção argumenta que os avanços em modelos generativos e modelos de linguagem estão a aumentar significativamente a produtividade na engenharia de software.
A tendência não se limita ao desenvolvimento tecnológico. Também plataformas digitais e empresas de comércio eletrónico estão a reorganizar as suas operações. O eBay confirmou cerca de 800 despedimentos à medida que reforça a utilização de ferramentas de IA capazes de automatizar a criação de anúncios de produtos, a definição de preços e vários processos de apoio ao cliente. Estes sistemas conseguem gerar descrições de produtos, categorizar artigos e apoiar vendedores na definição de estratégias comerciais.
No setor das redes sociais, o Pinterest anunciou cerca de 675 despedimentos, correspondendo a aproximadamente 15% da sua força de trabalho. A empresa indicou que pretende concentrar recursos em equipas dedicadas a produtos baseados em inteligência artificial, enquanto simplifica a sua estrutura comercial e reduz espaço de escritórios.
Outras empresas incluídas na análise incluem a plataforma de design de interiores Livspace, sediada em Singapura, que eliminou cerca de 1.000 postos de trabalho no processo de adoção de inteligência artificial no seu marketplace digital, bem como organizações como ANGI Homeservices, Oracle e MercadoLibre, também com reduções de menor dimensão associadas a processos semelhantes.
A mudança estrutural no emprego tecnológico
Os dados sugerem que a inteligência artificial está a acelerar uma transformação estrutural no mercado de trabalho tecnológico, num momento em que muitas empresas continuam a apresentar receitas elevadas. A diferença face a ciclos anteriores de despedimentos está no facto de várias empresas associarem explicitamente a redução de equipas à automatização de tarefas.
Segundo a análise da RationalFX, esta transição reflete um investimento crescente em infraestruturas e ferramentas de inteligência artificial destinadas a aumentar a eficiência operacional. Ao mesmo tempo, a adoção destas tecnologias está a alterar profundamente o desenho das funções dentro das organizações.
Um dos efeitos mais visíveis é o impacto nas posições de entrada no mercado de trabalho. Várias tarefas operacionais, administrativas ou técnicas de menor complexidade estão progressivamente a ser assumidas por sistemas automatizados, reduzindo a necessidade de equipas numerosas dedicadas a processos repetitivos.
O relatório refere ainda que esta tendência já começa a ultrapassar o setor tecnológico tradicional. A automatização baseada em inteligência artificial começa também a atingir áreas como os serviços financeiros, onde algumas instituições estão a reduzir equipas operacionais à medida que introduzem sistemas de análise e automação.
Para os responsáveis de tecnologia nas empresas, o movimento coloca uma dupla questão. Por um lado, a adoção destas ferramentas pode representar ganhos claros de produtividade e eficiência. Por outro, obriga a repensar competências, estruturas organizacionais e modelos de contratação.
A questão central deixa de ser se os empregos vão mudar, mas quando e de que forma a inteligência artificial irá alterar o perfil das funções dentro das empresas.






