A corrida empresarial à inteligência artificial tem sido dominada pela escolha de modelos, fornecedores e infraestruturas. No entanto, a capacidade de uma organização retirar valor desta tecnologia depende também da qualidade dos processos sobre os quais ela será aplicada. Sistemas que não comunicam entre si, procedimentos desatualizados e circuitos operacionais fragmentados podem limitar os ganhos esperados, independentemente da sofisticação do modelo utilizado.
É neste ponto que a Noviq pretende posicionar-se. A empresa portuguesa foi criada para trabalhar com organizações de grande dimensão e operações complexas, concentrando a sua atividade na implementação da ServiceNow, uma plataforma utilizada para gerir, integrar e automatizar processos empresariais.
A proposta da empresa parte do princípio de que a inteligência artificial só produz resultados consistentes quando os processos críticos estão identificados, integrados e preparados para serem automatizados.
Na prática, a plataforma permite reunir diferentes fluxos de trabalho num ambiente comum, reduzindo tarefas manuais e criando uma base operacional sobre a qual podem ser introduzidas ferramentas de inteligência artificial. Esta preparação é particularmente relevante em áreas nas quais uma falha de integração, uma decisão automatizada incorreta ou a utilização de dados incompletos pode afetar diretamente a continuidade da atividade.
A Noviq apresenta-se como uma empresa nativa de inteligência artificial, embora a sua estratégia não esteja centrada apenas no desenvolvimento ou na seleção de modelos. O foco declarado está na transformação dos processos que suportam o funcionamento das organizações, procurando garantir que a tecnologia possa ser aplicada de forma segura, escalável e sustentável.
Para os responsáveis de tecnologia e de compras, esta abordagem desloca parte da avaliação dos projetos de inteligência artificial do desempenho dos algoritmos para a maturidade operacional da própria organização.
Esta mudança tem consequências na forma como os investimentos são planeados. Antes de contratar novas capacidades de inteligência artificial, as empresas podem ter de rever integrações, responsabilidades, regras de decisão, qualidade dos dados e dependências entre departamentos. Caso contrário, a automação pode acelerar procedimentos mal desenhados, aumentar o número de decisões inconsistentes e tornar mais difícil identificar a origem dos problemas.
Os fundadores da Noviq, Bruno Pires e Luís Franco, defendem que o mercado entrou numa fase em que a preparação dos processos assume maior importância do que a simples evolução dos modelos. A sua leitura é que a inteligência artificial aplicada a estruturas operacionais deficientes tende a ampliar limitações já existentes, em vez de as corrigir.
A empresa iniciou atividade em Portugal e encontra-se a preparar a expansão para os Países Baixos. Para o primeiro ano, prevê ultrapassar 1,8 milhões de euros de faturação, uma projeção sustentada na expectativa de crescimento da adoção de inteligência artificial por grandes organizações.
A previsão financeira dependerá, contudo, da capacidade da empresa para converter o interesse empresarial pela inteligência artificial em projetos concretos de transformação de processos.
Para reduzir os tempos de execução e aumentar a eficiência das implementações, a Noviq pretende desenvolver soluções próprias e aceleradores tecnológicos. Estes ativos correspondem a componentes previamente construídos que podem ser reutilizados em diferentes projetos, evitando que cada implementação tenha de começar do zero.
Esta estratégia acompanha uma alteração no modelo económico dos serviços tecnológicos. Em vez de o crescimento depender exclusivamente do aumento do número de consultores envolvidos em cada projeto, as empresas especializadas procuram criar ferramentas, metodologias e componentes reutilizáveis que permitam executar mais trabalho com equipas relativamente menores.
João Prior, acionista da Noviq e Managing Partner da Growset, considera que a inteligência artificial poderá reforçar esta transformação. Na sua perspetiva, o valor das empresas de serviços tecnológicos deverá passar a depender mais da capacidade de desenvolver ativos próprios, acelerar implementações e transformar processos de forma repetível.
A estrutura de investidores inclui também Rui Pereira, apresentado como fundador da primeira empresa portuguesa a atingir o estatuto de unicórnio, e a Growset. A presença destes investidores acrescenta experiência empresarial ao projeto, mas a consolidação da Noviq dependerá da execução da estratégia, da expansão internacional e da diferenciação num mercado onde plataformas empresariais e inteligência artificial estão a aproximar-se rapidamente.
O posicionamento da Noviq traduz uma questão que começa a ganhar peso nas decisões tecnológicas: antes de investir em mais inteligência artificial, as organizações precisam de saber se os seus processos estão preparados para a receber.







