Inteligência Artificial melhora qualidade de vida de doentes renais

O crescimento da doença renal crónica está a pressionar sistemas de saúde em todo o mundo e a acelerar a procura por ferramentas digitais capazes de melhorar a prevenção e a literacia em saúde. É neste contexto que a Diaverum, prestadora sueca de cuidados renais integrada na M42, lançou o kidney.com, uma plataforma baseada em inteligência artificial que chega já a Portugal com a promessa de tornar o conhecimento clínico mais acessível e personalizado.
13 de Maio, 2026

A corrida da inteligência artificial na saúde está a entrar numa nova fase. Depois da explosão dos modelos generalistas de IA, o mercado começa agora a assistir ao aparecimento de plataformas especializadas em áreas clínicas concretas, desenhadas para responder a necessidades muito específicas de doentes e profissionais. O lançamento do kidney.com pela Diaverum e pela M42 encaixa precisamente nessa tendência.

A plataforma, disponível desde hoje em Portugal, Emirados Árabes Unidos, França, Reino Unido e Alemanha, surge focada na educação e apoio à gestão da doença renal crónica (DRC), uma condição que continua a crescer de forma silenciosa e que representa um dos maiores desafios financeiros e clínicos para os sistemas de saúde.

Segundo os dados divulgados pela empresa, até 90% das pessoas desconhecem que sofrem de doença renal crónica até fases avançadas da doença. Esse atraso no diagnóstico agrava os custos clínicos, aumenta o número de hospitalizações e reduz a eficácia das estratégias preventivas.

O kidney.com procura responder a esse problema através de uma interface conversacional suportada por inteligência artificial treinada com base em fontes clínicas consideradas credíveis. A plataforma oferece conteúdos educativos personalizados, experiências adaptadas ao perfil do utilizador e funcionalidades que procuram simplificar informação médica normalmente difícil de interpretar para o público em geral.

Entre essas funcionalidades estão o suporte por voz, a interpretação de rótulos de produtos através do carregamento de ficheiros e o suporte multilingue. Além do português, o serviço já está disponível em inglês, árabe, francês e alemão.

A aposta reflete também uma mudança mais ampla na estratégia tecnológica da saúde digital. Em vez de ferramentas genéricas, as organizações começam a investir em sistemas especializados capazes de responder a patologias concretas, com modelos treinados em contextos clínicos delimitados e supervisionados por equipas médicas.

O desenvolvimento do kidney.com envolveu mais de 30 nefrologistas, médicos e enfermeiros de 13 países e passou por mais de 14 mil interações de teste antes do lançamento. O objetivo declarado passa por garantir maior rigor clínico e reduzir um dos principais riscos associados à IA aplicada à saúde: a geração de informação incorreta ou descontextualizada.

A componente económica também pesa nesta iniciativa. A doença renal crónica está entre as patologias mais dispendiosas para os sistemas de saúde europeus, com custos anuais estimados em 140 mil milhões de euros. Num cenário de envelhecimento populacional e aumento de doenças associadas ao estilo de vida, como diabetes e hipertensão, a pressão financeira deverá continuar a crescer.

Portugal não foge a essa realidade. Os dados do registo nacional de 2024 indicam que 27,7% dos doentes em hemodiálise têm diabetes como doença renal primária e 12,1% hipertensão. Com mais de 21 mil pessoas em tratamento de substituição da função renal, o país enfrenta um peso significativo na gestão destas patologias crónicas.

A Diaverum posiciona o kidney.com como uma ferramenta de educação e autogestão, e não como um sistema de diagnóstico ou recomendação terapêutica. A empresa sublinha que a plataforma foi concebida para complementar o trabalho dos profissionais de saúde e não para substituir acompanhamento médico.

Esse ponto é particularmente relevante numa altura em que a adoção de IA na saúde continua sob forte escrutínio regulatório e ético. O enquadramento europeu para inteligência artificial, aliado às exigências de proteção de dados clínicos, está a obrigar fornecedores tecnológicos a definirem com maior clareza os limites de utilização destas ferramentas.

No caso do kidney.com, a Diaverum refere que a plataforma foi desenvolvida em conformidade com as regulamentações aplicáveis em matéria de privacidade e proteção de dados, procurando reforçar a confiança numa área onde a credibilidade da informação continua a ser determinante.

Mais do que lançar um novo chatbot clínico, a Diaverum e a M42 procuram posicionar-se num segmento emergente da saúde digital especializado em IA vertical, focada em doenças específicas e orientada para apoio contínuo ao doente. O sucesso desse modelo dependerá, contudo, da capacidade destas plataformas conquistarem confiança clínica, demonstrarem utilidade prática e integrarem-se de forma eficaz nos ecossistemas de saúde já existentes.