O desenvolvimento de sistemas energéticos mais sustentáveis enfrenta um cenário de estancamento à escala global. De acordo com o Índice de Transição Energética 2026, elaborado pelo Fórum Económico Mundial em colaboração com a consultora Accenture, as pontuações globais mantiveram-se praticamente inalteradas durante o último ano. Este resultado surge num contexto em que a preparação para a transição registou um retrocesso inédito em mais de dez anos, evidenciando uma desconexão entre o capital injetado no setor e a capacidade técnica necessária para a sua absorção. O documento demonstra que o reforço financeiro é insuficiente para sustentar o ritmo de progressão.
Este panorama ocorre num período em que se registou um investimento mundial histórico de 3,3 biliões de dólares, dos quais 2,3 biliões se destinaram a energias limpas. No entanto, a estabilidade das redes de abastecimento tem sido afetada por pressões geopolíticas e problemas de fornecimento. Perturbações recentes em pontos estratégicos, como o estreito de Ormuz, agravaram as vulnerabilidades do setor, submetendo os sistemas a uma pressão irregular. Este ambiente geoeconómico instável afeta com maior severidade as economias emergentes que dependem das importações de energia, gerando impactos diretos nos custos operacionais, na resiliência do tecido empresarial e na viabilidade dos projetos a longo prazo.
Analisando o desempenho por mercados, o índice avalia os sistemas nacionais com base em critérios de segurança, sustentabilidade, equidade e preparação do ambiente operacional. Apesar do agravamento das condições de financiamento e das restrições nas infraestruturas, 60% dos países analisados melhoraram a sua pontuação geral. Contudo, o progresso equilibrado em todas estas vertentes em simultâneo restringe-se a apenas um em cada quatro países.
Geograficamente, os países nórdicos lideram a classificação geral, enquanto as economias avançadas preenchem catorze das vinte primeiras posições, embora com um progresso médio interanual limitado a 0,2%. Seis economias do G20 figuram neste grupo superior. A Alemanha, a França e o Reino Unido ocupam as nona, décima e undécima posições, respetivamente, seguidos pela China no décimo quarto lugar, pelo Brasil no décimo sétimo e pelos Estados Unidos na décima nona posição.
A nível regional, o comportamento do mercado apresenta assimetrias acentuadas. Enquanto a China aumentou o investimento em energias limpas para níveis recorde e a Índia progrediu significativamente na sua preparação, os Estados Unidos mantiveram um desempenho sólido na segurança, apesar de uma ligeira quebra generalizada. A África subsariana registou os maiores avanços do índice. Em sentido inverso, a América Latina e a região do Médio Oriente e Norte de África registaram um enfraquecimento devido à contração do investimento em infraestruturas, embora o Brasil preserve a liderança no seu mercado geográfico e a Arábia Saudita se destaque pela implementação de fontes renováveis.
Estas disparidades regionais são acompanhadas por tensões estruturais associadas ao consumo. A procura global de eletricidade cresceu 3%, impulsionada pela eletrificação, sistemas de refrigeração, infraestrutura digital e inteligência artificial. As economias emergentes representam cerca de 80% deste incremento da procura, mas continuam a enfrentar custos de financiamento elevados e insuficiências nas suas instalações técnicas. Adicionalmente, o capital para energias limpas continua altamente concentrado, com 75% dos fluxos financeiros direcionados para um número reduzido de países, o que alarga o fosso entre os locais recetores do investimento e as regiões onde o consumo efetivamente cresce.
Perante esta conjuntura, os responsáveis pelo Centro de Energia e Materiais do Fórum Económico Mundial apontam que o processo de transição não está a inverter-se, mas sim a fragmentar-se devido à instabilidade geoeconómica. Para responder a este cenário, consideram necessária uma maior rapidez no desenvolvimento de infraestruturas, uma distribuição de capital que alcance os mercados mais necessitados e a aposta em sistemas diversificados que priorizem a segurança e a acessibilidade dos custos energéticos.
A análise da Accenture sublinha que esta fase de rutura exige que as empresas deem prioridade à sua capacidade de resistência. Nesse sentido, o uso de tecnologia e inteligência artificial surge como fundamental para melhorar a adaptabilidade organizacional e fortalecer a tomada de decisões corporativas.
Para inverter a tendência atual de estancamento e garantir um progresso linear, o relatório aponta para a necessidade de integrar a segurança no desenho dos sistemas, acelerar o desenvolvimento da rede elétrica e restaurar o fluxo de investimento para as economias em desenvolvimento. Isto implica o planeamento da resiliência das infraestruturas desde a sua génese e não como uma reação a situações de crise, a otimização da distribuição energética através da integração de sistemas e o estabelecimento de quadros regulatórios estáveis capazes de atrair capital para os mercados que vão concentrar o crescimento futuro da procura energética.







