“Investir no espaço é investir na economia”

Portugal vai ter a primeira constelação VDES do mundo.
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Portugal prepara-se para um dos momentos mais marcantes da sua história tecnológica: o lançamento dos primeiros quatro satélites da constelação Lusíada. O projeto, liderado pela LusoSpace, combina inovação tecnológica, relevância económica e um simbolismo cultural improvável, num ano em que se celebram os 500 anos do nascimento de Luís de Camões. Falámos com o CEO da LusoSpace, Ivo Vieira, para compreender o alcance desta iniciativa.

Porque é que este é considerado um momento histórico para o setor espacial português?

Este ano foi muito especial para o espaço em Portugal. Lançámos o PoSat-2, o primeiro satélite comercial português. Já houve outros lançamentos no passado, incluindo o PoSat-1, em 1993, no qual participei com o professor Carvalho Rodrigues. Mas eram satélites isolados ou experimentais. Agora, estamos a falar de algo completamente diferente. Em fevereiro lançamos quatro satélites e, em 2026, mais oito. É uma constelação completa, algo que Portugal nunca teve. É a primeira vez que colocamos tantos satélites portugueses a operar ao mesmo tempo.

Como chegou a LusoSpace à posição de liderança deste projeto?

A LusoSpace tem 23 anos de trabalho contínuo com a Agência Espacial Europeia. Isso deu-nos experiência em sistemas muito críticos, desde sensores a componentes de precisão. Com o PRR surgiu a Agenda NewSpace, liderada pela Edisoft, onde várias constelações estão a ser desenvolvidas. A nossa não é a única, mas fomos mais rápidos porque já tínhamos uma base técnica sólida. O trabalho com a ESA permitiu-nos criar métodos, processos e equipas capazes de cumprir requisitos exigentes. Quando surgiu a oportunidade, estávamos preparados para avançar rapidamente.

Se tivesse de explicar o propósito da Lusíada de forma simples, como o faria?

A constelação tem dois grandes objetivos. O primeiro é permitir que qualquer navio, em qualquer ponto do planeta, possa enviar e receber mensagens de forma segura e acessível. Não estamos a inventar algo que não exista, mas estamos a torná-lo acessível. Os sistemas atuais são caros. O nosso não só será mais barato, como terá situações em que será gratuito.

O segundo objetivo é criar uma espécie de Waze dos oceanos. Queremos permitir que qualquer pessoa ou entidade partilhe informação útil: icebergues, manchas de óleo, embarcações suspeitas, rotas congestionadas. Isto tem aplicações civis, ambientais e de segurança marítima.

O que traz de novo o AIS/VDES e porque é que é tão relevante?

O AIS é conhecido: é um sistema de rádio com cerca de 20 anos que permite comunicar posição e identificação do navio. O VDES é um passo em frente. Tem mais largura de banda e traz encriptação, que é crítica para setores como defesa, segurança marítima ou operações críticas.

A grande revolução aqui não é apenas a tecnologia em si, mas o facto de ser usada numa constelação. Existem dois ou três satélites VDES no mundo, mas funcionam isoladamente. Isso não permite um serviço consistente. Uma constelação dá continuidade. Será a primeira constelação VDES do mundo.

Quais foram os maiores desafios tecnológicos e operacionais?

O maior desafio foi o ritmo. O PRR tem prazos muito apertados. Foi necessário trabalhar com fornecedores de forma muito intensa, fechar contratos muito claros e blindados, e manter equipas altamente dedicadas. Do ponto de vista técnico, tivemos problemas típicos de quem tem de desenvolver depressa: correr riscos, testar soluções à última hora, adaptar subsistemas. Mas a equipa esteve sempre à altura.

Com esta constelação, Portugal entra num mercado global onde já existem grandes players. Contra quem estamos a competir?

Neste momento, com tecnologia VDES, existem apenas satélites isolados. A nossa será a primeira constelação. Os países nórdicos e o Japão são os que mais se aproximam. Mas uma constelação muda completamente a equação. Passamos a ter cobertura contínua. Isso coloca-nos efetivamente na frente nesta tecnologia específica.

Este projeto contribui para reposicionar Portugal como país tecnológico?

Sim, sem dúvida. Portugal já tem décadas de experiência no setor espacial, mas muitas vezes trabalhávamos como subfornecedores. A Agência Espacial Portuguesa tem feito um trabalho importante na promoção internacional das nossas competências. Mas uma constelação liderada por uma empresa nacional, pioneira a nível mundial, muda a forma como somos vistos. Demonstra capacidade técnica, organizacional e financeira.

Há também uma parte pública no projeto. Como funciona?

O PRR financia cerca de 70 por cento da constelação. Isso tornou o projeto viável. A ideia de enviar os nomes surgiu internamente na LusoSpace e foi bem acolhida. É uma forma simbólica de aproximar as pessoas do espaço. E quisemos reforçar o lado cultural: os primeiros satélites terão os nomes de Camões, Pessoa, Saramago e Agustina. No ano de Camões, faz todo o sentido.

Qual é a dimensão total do investimento e quem o financia?

A constelação custa quinze milhões de euros. Dez milhões são financiados pelo PRR. A LusoSpace financia cerca de dois milhões e meio. E outros dois milhões e meio estão a ser angariados junto de investidores privados.

Que impacto económico e industrial terá esta constelação em Portugal?

O projeto já nos levou a aumentar a equipa e deverá criar mais postos de trabalho se avançarmos para uma segunda fase com cinquenta ou cem satélites, que é a nossa ambição. Hoje ainda compramos muitos subsistemas ao estrangeiro, mas já começamos a integrar tecnologia nacional, como a antena desenvolvida pelo IT, INEGI e FEUP. Queremos reforçar essa cadeia de valor. Há espaço para startups, fornecedores e novos centros de engenharia.

Há interesse internacional em utilizar ou comprar esta tecnologia?

Sim. A LusoSpace já exporta 95 por cento do que produz. E já estamos a fabricar satélites em série, algo raro mesmo a nível europeu. Vários países, sobretudo o Reino Unido, já demonstraram interesse tanto em serviços como em satélites completos. A constelação será uma montra importante para novos contratos.

Como se compara a Lusíada com constelações como Starlink ou Iridium?

São segmentos completamente diferentes. Comparar a Lusíada com o Starlink é como comparar uma bicicleta com um Ferrari. O Starlink foi desenhado para alto débito e latência mínima. A nossa constelação foi desenhada para fiabilidade, segurança e operação mesmo em condições meteorológicas adversas. Não competimos nesses mercados. Servimos necessidades distintas.

Quanto tempo demoram os satélites a ficar operacionais?

Após o lançamento há duas fases. A primeira em que verificamos se todos os subsistemas estão bem. A segunda é a mais detalhada, onde testamos tudo ao pormenor. Normalmente leva cerca de três meses. Estamos a trabalhar para reduzir esse tempo.

Após a Lusíada, o que está no horizonte da LusoSpace?

As comunicações óticas. Comunicações por laser entre satélites, drones, estações terrestres e veículos militares. O laser é muito resistente a interferências e captação de sinal. Num mundo onde a defesa e a soberania digital pesam cada vez mais, isto será crítico. Queremos criar uma rede completa desse tipo.

Fala-se muito da necessidade de Portugal investir mais no espaço através da ESA. Porque é que isso é importante?

Porque cada euro investido no espaço devolve entre seis e dez euros à economia. Isso está documentado em vários estudos, desde a ESA aos EUA e Reino Unido. Cria emprego qualificado, retém talento e aumenta exportações. É um investimento com retorno claro. Temos transmitido isso ao Governo: investir no espaço é investir na economia.

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