O Java está a consolidar a sua posição no desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial (IA). De acordo com o relatório State of Java 2026, divulgado a 10 de fevereiro pela Azul, 62% dos utilizadores inquiridos recorrem ao Java para desenvolver funcionalidades de IA, um aumento face aos 50% registados na edição anterior.
O estudo resulta de um inquérito realizado entre setembro e novembro de 2025 a mais de dois mil utilizadores da linguagem. A evolução sugere uma tendência clara de integração de capacidades de IA nos sistemas empresariais já suportados por Java, em vez da criação de ambientes isolados ou paralelos para estas novas funcionalidades.
Segundo os dados recolhidos, os programadores têm hoje à disposição várias bibliotecas especializadas para incorporar IA nas suas aplicações. As ferramentas mais utilizadas são a JavaML, a Deep Java Library e a OpenCL, o que reflete uma aposta em soluções que permitem executar modelos de aprendizagem automática diretamente em ambientes empresariais consolidados. Além disso, 31% dos inquiridos indicam que mais de metade do código que produzem já integra algum tipo de funcionalidade de inteligência artificial, sinal de que a IA deixou de ser um projeto experimental para passar a fazer parte do desenvolvimento corrente.
A influência da IA estende-se também às ferramentas de geração automática de código. Entre as soluções mais referidas pelos participantes surge o ChatGPT, da OpenAI, seguido do Gemini Code Assist, da Google, do Visual Studio IntelliCode, da Microsoft, e do GitHub Copilot, da GitHub. Estes dados confirmam que a automatização da escrita de código Java já é uma prática disseminada, com impacto direto na produtividade das equipas de desenvolvimento.
Paralelamente, o relatório aponta para uma mudança estrutural no ecossistema da linguagem. 81% dos participantes já migraram, estão a migrar ou planeiam migrar do Java da Oracle para distribuições OpenJDK não associadas à Oracle, enquanto 92% manifestam preocupação com o modelo de preços da Oracle. A questão do custo e do licenciamento surge, assim, como um fator determinante nas decisões tecnológicas das organizações.
No que respeita à adoção da versão mais recente de longo prazo, 18% dos inquiridos afirmam já ter adotado o JDK 25, disponibilizado em setembro de 2025. Embora seja ainda uma percentagem minoritária, trata-se da versão Long Term Support (LTS), tipicamente escolhida por empresas que privilegiam estabilidade e suporte prolongado.
O peso do Java nas infraestruturas empresariais mantém-se elevado. 64% indicam que mais de metade das suas cargas de trabalho ou aplicações são construídas em Java ou executadas sobre a Java Virtual Machine (JVM), ainda que ligeiramente abaixo dos 68% registados no ano anterior. Do ponto de vista financeiro, 43% afirmam que as cargas de trabalho em Java representam mais de metade da fatura de computação na cloud, o que demonstra o impacto direto da linguagem nos custos operacionais.
O estudo chama ainda a atenção para um problema recorrente nas equipas técnicas. 63% dos participantes reconhecem que código morto ou não utilizado afeta a produtividade de DevOps em alguma medida ou de forma significativa. Num contexto em que a integração de IA acelera o ritmo de desenvolvimento, a gestão e limpeza de código tornam-se fatores críticos para controlar custos e manter eficiência.
Para decisores de TI e responsáveis de compras tecnológicas, os dados apontam para três sinais claros: a IA está a ser integrada no núcleo das aplicações Java existentes, o custo do licenciamento influencia cada vez mais as estratégias de adoção da plataforma e o peso do Java continua a ter impacto direto na fatura de cloud. O desafio passa agora por equilibrar inovação, controlo de custos e sustentabilidade das bases de código num ecossistema que permanece central nas arquiteturas empresariais.






