Num artigo recentemente publicado na Help Net Security, Sinisa Markovic, redator sênior da mesma revista, afirma que os gamers (ou seja, os aficionados que jogam videojogos) podem constituir um pool de talentos para a área da cibersegurança, tendo em conta que as habilidades desenvolvidas com os jogos podem ser muito úteis neste campo de trabalho.
No âmbito empresarial, os responsáveis pela resposta a incidentes sublinham que a experiência em jogos competitivos favorece características como a resiliência e pode orientar uma carreira profissional em cibersegurança. Os videojogos e determinados cargos de cibersegurança partilham capacidades cognitivas fundamentais: em ambos os casos, é necessário identificar padrões, antecipar movimentos, tomar decisões rápidas e resolver problemas sob pressão.
Além do aspeto técnico, o jogo desenvolve as chamadas soft skills, como o pensamento criativo, a consciência emocional e os hábitos de feedback — dar e receber —, competências não técnicas difíceis de incutir na sala de aula, mas relevantes nas operações de segurança.
Existe também um paralelismo motivacional: a cibersegurança pode ser especialmente atraente para perfis de gamers porque, como em muitos títulos, trata-se de detetar ameaças, ajudar os outros e impedir aqueles que tentam causar danos.
Em equipas de resposta a incidentes e centros de operações de segurança, a coordenação é decisiva. Os ambientes multijogador e cooperativos favorecem a comunicação, a sincronização e a gestão do stress, as mesmas competências que são postas à prova quando um SOC deve investigar alertas simultâneos ou conter um incidente. Profissionais do setor apontam que esta base facilita a transição do hobby para o exercício profissional, desde que seja complementada com formação específica.
Para preencher vagas difíceis, as organizações podem explorar comunidades de jogos, competições do tipo CTF e certificações de entrada como forma de detetar e qualificar talentos. Os jogadores que desejam dar o salto para a cibersegurança podem começar em fóruns e servidores Discord, onde se partilham recursos, se colocam questões e se participa em desafios de «capturar a bandeira», provas que se assemelham a situações reais, promovem o trabalho em equipa e as melhores práticas e ajudam a tecer uma rede de contactos que muitas vezes resulta em mentorias ou oportunidades de trabalho.
A estruturação da aprendizagem e a acreditação formal são os passos seguintes: as certificações iniciais (o artigo cita a CompTIA IT Fundamentals dos EUA) permitem introduzir os fundamentos de TI e segurança e fornecem uma credencial reconhecida pelos empregadores.
Quando o objetivo é avançar além do nível iniciante, o Security+ é geralmente considerado o primeiro certificado amplamente aceito, de acordo com o mesmo artigo (em Espanha e na Europa, provavelmente poderíamos encontrar outras referências). Em conjunto, programas, competições e certificações constroem um itinerário com habilidades práticas e evidências de progresso verificáveis pelos departamentos de RH.
Por fim, o texto termina citando uma série de exemplos na forma de iniciativas realizadas nos Estados Unidos, dedicadas a plantar sementes nos mais jovens para orientá-los para o setor de cibersegurança, identificando os principais talentos, o que facilita seus estudos e seu acesso ao mundo do trabalho. Esse tipo de proposta permite que as empresas identifiquem potenciais e preparem uma base de talentos com visão de futuro.
No âmbito da formação especializada, insiste-se que normalizar a captação de talentos por vias não tradicionais facilita a entrada de grupos sub-representados e fortalece a resposta do setor a um espetro de ameaças cada vez mais variado.
A adequação profissional dos perfis com formação em jogos é ampla. Os conhecimentos e hábitos adquiridos em jogos competitivos podem ser transferidos para funções de ethical hacking — exploração de sistemas e busca de vulnerabilidades — e para testes de penetração, onde pesam a estratégia, a adaptabilidade e a tomada de decisões em tempo real.
Também são úteis na análise de segurança de jogos online, uma função orientada para detectar fraudes, antecipar comportamentos e mitigar fraquezas de plataformas e títulos. Por último, em equipas de resposta a incidentes, a experiência em cooperação multijogador prepara para trabalhar de forma coordenada, comunicar com clareza e priorizar tarefas sob pressão.
O artigo cita um potencial de mais de três mil milhões de gamers existentes no mundo (aproximadamente um terço de toda a humanidade), que constituem um potencial caldeirão de profissionais a que as organizações podem recorrer para reforçar equipas e cobrir cargos críticos.
O interesse por esse perfil não é novo: o setor militar foi um dos primeiros a reconhecer o valor das habilidades dos jogadores, seja para suas forças convencionais (lembremos iniciativas como o videogame America’s Army), seja para suas forças no ciberespaço.







