O country manager para Portugal e Espanha, Óscar Suela Morales, destacou que o cibercrime deixou de ter fronteiras e afeta indistintamente empresas privadas, organismos públicos, PME e grandes grupos. Num país como Portugal, onde a digitalização da Administração Pública e dos serviços financeiros tem avançado de forma significativa, este enquadramento ganha particular relevância.
Um dos eixos centrais da intervenção de Óscar Suela Morales foi a crescente regulação no espaço europeu. O executivo salientou que a empresa participou, nos últimos dois anos, em mais de 13 consultas públicas sobre inteligência artificial, cibersegurança e políticas digitais em vários Estados-membros da União Europeia, incluindo Portugal.
Em fevereiro de 2025, a empresa aderiu voluntariamente ao Pacto sobre Inteligência Artificial da União Europeia, iniciativa que procura promover o desenvolvimento e utilização de sistemas de IA de forma ética, segura e transparente. Para os decisores portugueses, este alinhamento com as orientações europeias pode tornar-se um critério adicional de avaliação na escolha de fornecedores tecnológicos, sobretudo em contratos públicos e em setores regulados.
No plano das certificações, Morales enfatizou que a Kaspersky renovou em dezembro de 2025 a ISO 27001, norma internacional que define requisitos para sistemas de gestão de segurança da informação. Na prática, esta certificação significa que processos críticos, como a análise e armazenamento de ficheiros maliciosos, seguem procedimentos auditados e alinhados com padrões internacionais.
A empresa sublinhou ainda a realização de auditorias destinadas a garantir a integridade das atualizações das bases de dados dos seus produtos, assegurando que não existem alterações indevidas nem mecanismos ocultos no software. Num contexto de escrutínio acrescido sobre fornecedores internacionais, este tipo de validação técnica tende a pesar na decisão de compra, sobretudo na Administração Pública e em operadores de serviços essenciais.
Proteção de grupos vulneráveis e literacia digital
Morales abordou o fenómeno do stalkerware, aplicações que permitem a um agressor controlar remotamente um dispositivo móvel, aceder a chamadas, mensagens e localização em tempo real, e salientou o facto de Espanha ocupa a quarta posição na União Europeia em número de vítimas deste tipo de software.
Embora os dados apresentados incidam sobre Espanha, a problemática é transversal ao espaço europeu e relevante para Portugal, onde a utilização intensiva de smartphones e redes sociais amplia a superfície de ataque. A empresa defende que a violência digital é um risco real que exige resposta tecnológica e formação específica, tanto para profissionais como para utilizadores finais.
Para Morales, é muito importante que a Kaspersky, esteja ligada a projetos europeus como o TESTOR, orientado para a formação de profissionais que acompanham vítimas de violência digital, e o ICONICET, dedicado à promoção de relações seguras entre menores no ambiente online.
O executivo salientou ainda o facto da empresa ter promovido centenas de sessões de sensibilização em escolas, envolvendo mais de 21.500 alunos, incluindo ações adaptadas a linguagem gestual e a centros de educação especial.
Cooperação internacional e combate ao cibercrime
No domínio operacional, Morales destacou a participação em campanhas internacionais contra o cibercrime, como as operações Secure e Serengeti 2.0, realizadas em colaboração com autoridades de vários países.
Segundo os dados apresentados, estas ações permitiram identificar mais de 1.200 cibercriminosos, recuperar mais de 100 milhões de dólares e desmantelar infraestruturas utilizadas em ataques a organizações públicas e privadas. Para empresas portuguesas, sobretudo as que operam em cadeias de valor internacionais, a cooperação transfronteiriça é um fator crítico no combate a ameaças cada vez mais distribuídas.
Morales anunciou ainda a assinatura de um memorando de entendimento com a Smart Africa, com o objetivo de reforçar competências tecnológicas no continente africano e promover a participação feminina nas áreas das TIC e da cibersegurança, reforçando o seu posicionamento global.
18 anos na Península Ibérica
Este encontro serviu igualmente para assinalar um marco interno. A Kaspersky Iberia celebra 18 anos desde a abertura do escritório em junho de 2008, consolidando a presença na região ao longo de um período marcado por transformações profundas no panorama da segurança digital.
Para o mercado português, onde a pressão regulatória europeia se cruza com investimentos em modernização tecnológica financiados por fundos comunitários, o discurso da empresa centra-se em três pilares: tecnologia, transparência mensurável e colaboração institucional.
É um facto que o cibercrime já não distingue dimensão, setor ou geografia, a decisão de investimento em cibersegurança é cada vez mais estratégica. Para os responsáveis de TI em Portugal, a avaliação de fornecedores passa não apenas pela eficácia técnica das soluções, mas também pelo enquadramento regulatório, pela capacidade de auditoria e pela integração em iniciativas europeias.







