Lixo dos data centers pode transformar-se num novo negócio

O fim de vida dos equipamentos de servidores instalados em data centers tem sido tradicionalmente tratado como um custo inevitável de reciclagem e conformidade. No entanto, novas iniciativas industriais sugerem que esse fluxo crescente de hardware obsoleto pode tornar-se uma fonte relevante de matérias-primas estratégicas e até gerar receitas para as empresas.
16 de Março, 2026

Durante décadas, a retirada de servidores e outros equipamentos de infraestrutura de centros de dados foi encarada sobretudo como um processo administrativo e de segurança. As organizações concentravam-se em desativar sistemas, assegurar a destruição de dados e encaminhar o hardware para reciclagem certificada. Uma vez removidos do ambiente de produção, estes equipamentos eram geralmente considerados economicamente esgotados.

Esse pressuposto começa agora a mudar. O hardware utilizado em data centers modernos contém uma variedade significativa de metais e minerais considerados críticos para a indústria tecnológica, incluindo cobre, alumínio, prata e ouro, bem como pequenas quantidades de terras raras utilizadas em componentes eletrónicos mais avançados.

Nos últimos meses começaram a surgir sinais de que a indústria está a olhar para estes equipamentos de forma diferente. No ano passado, a Western Digital revelou que estava a testar novos métodos para extrair metais e elementos de terras raras de servidores obsoletos provenientes de centros de dados da Microsoft nos Estados Unidos, numa colaboração com as empresas Critical Materials Recycling e PedalPoint Recycling.

Mais recentemente, a agência Reuters avançou que a Korea Zinc, um dos maiores operadores de fundição de metais a nível mundial, mantém conversações com grandes empresas tecnológicas norte-americanas para reciclar resíduos provenientes de data centers e recuperar materiais raros.

A crescente atenção a este tipo de reciclagem surge num momento em que o acesso global a terras raras se tornou mais sensível do ponto de vista estratégico. Há cerca de um ano, a China anunciou novos controlos de exportação sobre sete elementos fundamentais para a produção de hardware tecnológico. Entre os materiais abrangidos estão samário, gadolínio, térbio, disprósio, lutécio, escândio e ítrio, bem como as respetivas ligas e compostos.

Estes elementos são utilizados na fabricação de sistemas de armazenamento, equipamentos de rede e semicondutores, componentes essenciais para infraestruturas de computação e para a expansão global dos centros de dados.

Atualmente, a China continua a dominar este mercado, sendo responsável por cerca de 90% da produção mundial de terras raras. Nos Estados Unidos existe apenas uma mina em operação dedicada a estes materiais, explorada pela MP Materials. Iniciativas de reciclagem industrial, como a que está a ser discutida pela Korea Zinc, podem criar fontes adicionais de matérias-primas fora das cadeias de abastecimento tradicionais.

Segundo alguns analistas, esta mudança reflete uma transformação estrutural mais ampla na economia global da infraestrutura tecnológica. À medida que o volume de infraestruturas digitais cresce, também aumenta rapidamente a quantidade de equipamentos que atingem o fim do seu ciclo operacional.

O fenómeno insere-se num contexto mais amplo. O lixo eletrónico tornou-se um dos fluxos de resíduos com crescimento mais rápido a nível mundial. Estima-se que a produção global de resíduos eletrónicos já ultrapasse 60 milhões de toneladas por ano e possa aproximar-se das 80 milhões até ao final da década se a tendência atual continuar.

Os data centers representam apenas uma parte desse total, mas têm uma particularidade relevante para a indústria de reciclagem. Ao contrário dos dispositivos de consumo, como smartphones ou computadores pessoais, o hardware empresarial é substituído em grandes lotes e segue processos formais de gestão de ativos.

Esta previsibilidade facilita o desenvolvimento de processos industriais de reciclagem capazes de recuperar materiais específicos a partir de componentes concretos, como placas eletrónicas, sistemas de armazenamento ou módulos de alimentação elétrica.

Para os operadores de centros de dados e para as empresas que utilizam este tipo de infraestrutura, o impacto desta evolução é sobretudo operacional e económico. A capacidade de recuperar valor depende, em grande medida, da forma como as organizações gerem a fase final do ciclo de vida dos equipamentos.

Muitas empresas continuam a tratar o desmantelamento de hardware apenas como um processo de eliminação. Equipamentos de diferentes tipos são frequentemente enviados para reciclagem sem separação prévia de componentes, o que reduz significativamente a quantidade de materiais que podem ser recuperados.

Uma abordagem mais estruturada pode alterar esse cenário. A separação de dispositivos de armazenamento, placas eletrónicas e componentes de energia permite processos de reciclagem mais eficientes e aumenta a probabilidade de recuperar metais valiosos. Em paralelo, o registo rigoroso da cadeia de custódia dos equipamentos garante o controlo de segurança exigido por muitas políticas de conformidade.

Tradicionalmente, os centros de dados são vistos como infraestruturas com elevado consumo energético e grande utilização de recursos. No entanto, a expansão global da computação está também a criar um fluxo industrial de materiais recuperáveis quando os equipamentos atingem o fim da sua vida útil.

À medida que o parque mundial de infraestruturas digitais continua a crescer, o hardware retirado de operação pode começar a ser tratado menos como resíduo e mais como uma fonte relevante de matérias-primas para a própria indústria tecnológica.

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