A transformação tecnológica das empresas está a entrar numa nova fase. Se durante a última década, o foco esteve na digitalização de processos e na introdução de automação para ganhar eficiência, hoje esse percurso começa a revelar-se insuficiente. Num contexto de crescente complexidade, pressão competitiva e necessidade de adaptação contínua, o desafio já não é apenas o de otimizar os processos existentes, mas transformar a forma como a tecnologia suporta o negócio.
É neste enquadramento que a combinação entre plataformas de low-code e de inteligência artificial (IA) está a ganhar uma relevância estrutural. Este movimento reflete a evolução do mercado, com analistas como a Gartner a destacarem a importância de modelos tecnológicos mais adaptativos e composable, onde a IA assume um papel transversal na operação das organizações. Não se trata de uma tendência conjuntural, ou de mais uma vaga tecnológica, mas sim de uma mudança de paradigma na forma como as organizações concebem, constroem e operam os seus sistemas digitais.
Durante anos, o software era construído para suportar processos, muitas vezes obrigando o negócio a adaptar-se à tecnologia. Hoje, o modelo inverteu-se, com o software a evoluir com o negócio. A combinação de low-code com IA permite passar de sistemas estáticos para sistemas vivos, que se adaptam continuamente, passando esta a ser a verdadeira vantagem competitiva.
As primeiras iniciativas de transformação digital centraram-se na digitalização de processos e na introdução de soluções como Robotic Process Automation para aumentar eficiência. Numa fase seguinte, o low-code ganhou tração como forma de acelerar o desenvolvimento e de reduzir a dependência de equipas técnicas especializadas. O negócio foi assim aproximando-se da tecnologia, um primeiro passo relevante. Mas é com a entrada da inteligência artificial que este modelo ganha uma nova dimensão.
O low-code resolveu o problema da velocidade. A inteligência artificial resolve o problema da adaptação. Juntas, criam uma base tecnológica que permite evolução contínua, além de uma entrega mais rápida, permitindo passar de aplicações estáticas para sistemas que evoluem com base em dados, contexto e interação.
Mais do que uma ferramenta de desenvolvimento rápido, o low-code está a assumir um papel central na arquitetura tecnológica das organizações, funcionando como uma camada de abstração que permite integrar sistemas, orquestrar processos e criar aplicações de forma ágil e controlada.
O verdadeiro valor do low-code não está apenas na produtividade, mas na capacidade de criar uma base tecnológica que permite evoluir sem fricção, mesmo em ambientes complexos e com legado.
Se, numa fase inicial, a IA era introduzida como funcionalidade isolada, hoje está a tornar-se numa camada transversal à operação. A sua integração com plataformas low-code permite incorporar capacidades de análise, recomendação e decisão diretamente nos processos e aplicações. Mais do que automatizar tarefas, os sistemas passam a adaptar-se em tempo real e a influenciar decisões operacionais de forma contínua. Desta forma, a IA deixa de ser um add-on, passando a estar embebida na forma como os sistemas funcionam, evoluem e suportam decisões. Esta mudança abre caminho para modelos mais avançados, como Intelligent Process Automation e Agentic Process Automation, mas o impacto vai além da automação, pois está na forma como as organizações operam no seu todo.
Apesar da evolução tecnológica, muitas organizações continuam a acumular soluções de forma fragmentada, criando complexidade e limitando o impacto da transformação. No entanto, a prioridade das organizações deve ser a de garantir que a evolução tecnológica aconteça sobre uma base consistente e integrada. Sem uma arquitetura clara, o risco não é apenas o da ineficiência, mas o da perda de controlo, aumento de complexidade e dificuldade em escalar. Mais do que implementar novas soluções, é essencial garantir que estas se integram, de forma coerente, com os sistemas existentes e que suportam decisões críticas do negócio. É essa capacidade que distingue iniciativas isoladas de uma verdadeira transformação tecnológica. A integração entre dados, processos e sistemas torna-se, assim, o principal fator de sucesso.
A convergência entre low-code e inteligência artificial está a redefinir o que significa estar tecnologicamente preparado. Num ambiente onde a mudança é constante, a vantagem competitiva deixa de estar apenas na eficiência operacional e passa a estar na capacidade de adaptação. As organizações mais competitivas, serão as que conseguirem transformar tecnologia numa capacidade contínua de adaptação, e não necessariamente as mais digitalizadas.
Miguel Bernardino é Head of Low-Code na Minsait em Portugal, Indra Group







