Memória e o armazenamento tornam-se o novo gargalo da infraestrutura de TI em 2026

As previsões para 2026 apontam para um aumento significativo dos custos de memória e armazenamento empresarial, impulsionado pela pressão da IA sobre a cadeia de abastecimento, o que levará os responsáveis pela infraestrutura a enfrentar o dilema de antecipar compras ou aproveitar ao máximo os recursos existentes através de uma gestão mais eficiente dos dados, especialmente os não estruturados.
30 de Janeiro, 2026

O início de 2026 surge como um ponto de inflexão para os orçamentos de infraestrutura de TI nas empresas, afirma Darren Cunningham (vice-presidente da Komprise) na Intelligent CIO. Se há um ano a conversa girava em torno das tarifas como principal fator de risco, agora a pressão desloca-se para uma frente mais tangível para as equipas de sistemas: a combinação da escassez de componentes, por um lado, e as tensões de preço em memória e armazenamento, por outro, num contexto marcado pelo grande consumo desses componentes pelos centros de dados para cargas de trabalho de inteligência artificial.

A crescente procura por memória de alta largura de banda (HBM) e armazenamento flash de alta capacidade (NAND/SSD) está a aumentar a pressão sobre a disponibilidade de equipamentos e os preços, um cenário que algumas previsões indicam que terá um impacto significativo: em determinados segmentos, os preços de DRAM e SSD podem aumentar mais de 50%, num contexto em que o inventário de memória diminuiu acentuadamente durante o último ano, afirma Cunningham.

A tensão não se limita ao equipamento para as instalações do cliente, uma vez que os preços do armazenamento na cloud devem subir paralelamente, devido à dependência dos fornecedores de nuvem desses componentes e a um possível aumento da procura associado a estratégias de cópia de capacidade. Na prática, isso introduz mais atrito no planeamento, ao transferir para os modelos de consumo parte do mesmo problema básico: os custos dos componentes e sua disponibilidade condicionam a oferta, os preços e, previsivelmente, os orçamentos.

Diante desse cenário, e conforme detalha Cunningham, a resposta intuitiva é antecipar as compras para evitar o impacto do aumento dos preços. No entanto, o próprio cenário impõe limites: a acumulação preventiva de computadores, armazenamento e memória só pode ser viável quando existe margem orçamental para flexibilizar as despesas e quando a organização está preparada para absorver o inventário. Portanto, neste ano, o foco não se resume a comprar antes, mas a comprar melhor e a reduzir as dependências do crescimento linear da capacidade.

Em 2026, melhorar a eficiência da infraestrutura e do armazenamento de dados passa de uma opção operacional para uma tática crítica para mitigar riscos de fornecimento e sustentar a competitividade. Isso afeta diretamente os responsáveis pela infraestrutura, operações e armazenamento, que enfrentam um ambiente em que a estratégia de “adicionar mais capacidade” deixa de funcionar como resposta automática.

A origem deste ajuste é explicada pela confluência de vários fatores; por um lado, a aceleração da IA está a absorver a capacidade produtiva de memória, uma vez que os fabricantes redirecionam a oferta para HBM destinada a GPU e outros processadores de IA. Essa mudança deixa uma menor disponibilidade para DRAM e NAND convencionais que são usados em servidores e sistemas de armazenamento corporativos.

Por outro lado, mesmo com a expansão da capacidade de fabricação, o crescimento não acompanha o ritmo da demanda global, o que resulta em escassez persistente e prazos de entrega prolongados.

A tudo isso se soma um efeito de arrastamento sobre o custo total da infraestrutura. Uma análise atribuída à IDC associa o aumento do preço da memória e do flash a aumentos no custo global de servidores, gabinetes de armazenamento e infraestrutura na cloud, o que restringe os orçamentos e complica o planeamento a médio e longo prazo. Com essas condições, a compra recorrente de capacidade como solução geral torna-se menos viável: não apenas pelo preço, mas pelo risco de depender de uma cadeia de abastecimento que pode ficar tensa a qualquer momento.

Neste ponto, o foco muda para a gestão do ciclo de vida dos dados e para a otimização do parque existente. O texto sugere que as equipas de TI podem extrair mais valor dos recursos atuais com ajustes de configuração, dimensionamento mais preciso do hardware e automação para supervisionar o desempenho e a eficiência.

Paralelamente, torna-se importante rever as relações com os fornecedores do ponto de vista do preço e do suporte, bem como avaliar com cautela a acumulação preventiva de equipamentos ou o uso da cloud como backup de capacidade, idealmente com o apoio de análises para evitar decisões baseadas em urgências.

Os dados não estruturados como fator de pressão orçamental

O problema agrava-se porque, enquanto a memória e o armazenamento ficam mais caros e difíceis de obter, o volume de dados nas organizações continua a crescer. A pressão é especialmente visível nos dados não estruturados, que englobam elementos como ficheiros de utilizador, e-mail e chats, registos, conteúdos multimédia, cópias de segurança, artefactos de aplicações e resultados de investigação. No relatório Komprise 2026 State of Unstructured Data Management Report, 74% declaram ter mais de 5 PB de dados e 40% armazenam mais de 10 PB.

Os dados não estruturados representam normalmente entre 70% e 90% da pegada de dados empresarial e, além disso, estão distribuídos por vários repositórios com visibilidade e governação limitadas. Essa dispersão (entre sistemas de ficheiros distribuídos, armazenamento de objetos, aplicações SaaS, nuvem e ambientes locais) dificulta a resposta a perguntas básicas para a eficiência, como quais os dados necessários, quais são usados ativamente, onde existem duplicados e qual o conteúdo que agrega pouco valor.

Sem essa visibilidade, os dados consomem as camadas de armazenamento mais caras, levando a ampliações de capacidade que, no contexto atual, são mais dispendiosas, com prazos mais longos e sem resolver a origem do problema. Cunningham sublinha que reagir comprando mais armazenamento aumenta os custos e os prazos de entrega, mas não corrige o crescimento descontrolado e a acumulação de dados de pouca utilidade.

Neste contexto, uma estratégia moderna de gestão de dados não estruturados apresenta-se como uma ferramenta para agir com critério, em vez de agir defensivamente. A abordagem proposta baseia-se na análise para compreender os padrões de utilização e as necessidades do ciclo de vida, com o objetivo de colocar os dados no lugar que lhes corresponde de acordo com a sua utilização e valor, e eliminar o que já não é necessário, como conteúdo órfão, duplicado ou desatualizado. Também contempla a capacidade de mover de forma automatizada dados frios ou inativos para níveis de armazenamento de menor custo, como o armazenamento de objetos na cloud, reduzindo a pressão para adquirir novo hardware num momento de preços elevados e atrasos nas entregas.

O argumento económico é reforçado pela própria pesquisa da Komprise: 85% das organizações esperam gastar mais em armazenamento de dados e cópias de segurança este ano, e a otimização de custos está entre as prioridades. Paralelamente, a gestão mais precisa dos dados permite priorizar investimentos onde eles agregam valor, uma vez que nem todos os conjuntos de dados requerem o mesmo desempenho ou a mesma localização.

A visibilidade transversal do armazenamento, incluindo a cloud, facilita reservar o armazenamento de alto desempenho para dados críticos, como aqueles que suportam análises ou canais de dados para IA, e derivar o restante para camadas secundárias ou de arquivo. O resultado almejado é esticar os investimentos já realizados e liberar orçamento para iniciativas de IA e transformação digital, em vez de dedicá-lo à manutenção e ampliações constantes da infraestrutura.

Na sua análise, Cunningham também associa esta disciplina à cibersegurança, uma vez que os silos de dados não estruturados estão entre os alvos habituais de ataques de ransomware e violações de dados, em parte devido à falta de governança homogénea ou visibilidade consistente.

Uma estratégia abrangente ajuda a identificar conteúdo obsoleto, sem controlo ou duplicado e, com isso, a remover, proteger ou garantir dados que ampliam desnecessariamente a superfície de ataque. A limpeza e a proteção proativas, nesta abordagem, reduzem os riscos e apoiam a conformidade, uma questão recorrente na agenda dos CIO.

Os analistas não esperam um retorno próximo às condições «normais» de preço e disponibilidade de memória e armazenamento, enquanto o volume de dados não estruturados continuará a crescer. Com essa perspetiva, os responsáveis pela infraestrutura e operações se deparam com uma escolha: manter táticas reativas de compras pontuais de armazenamento e sistemas de backup, condicionadas por custo e prazos, ou recentrar a estratégia nos dados e em uma gestão diferente baseada em requisitos de negócio, risco, valor e antiguidade.

O texto de Cunningham reconhece que estas decisões tendem a colidir com inércias reais, como relações de longo prazo com fornecedores, preferências da gestão de TI e limites orçamentais. Ainda assim, ele argumenta que adotar uma perspectiva centrada nos dados dentro da estratégia de aprovisionamento de infraestrutura pode trazer benefícios sustentáveis durante anos, independentemente da situação pontual da cadeia de abastecimento.

Opinião