Um dos destaques mais alarmantes do relatório é o aumento de 400% nas fraudes de suporte técnico em comparação com 2022. Estas fraudes, que consistem em tentativas de enganar as vítimas para que forneçam acesso remoto aos seus dispositivos ou paguem por serviços falsos, passaram de 7 mil para 100 mil ocorrências diárias em 2024. A rápida mudança e volatilidade das infraestruturas maliciosas – com mais de 70% delas ativas por menos de duas horas – tornam a sua deteção e neutralização especialmente desafiantes.
Este aumento reflete uma evolução nas táticas de cibercrime, que estão cada vez mais sofisticadas e difíceis de rastrear. A rapidez com que os atacantes alteram a infraestrutura utilizada nas fraudes demonstra uma agilidade operacional que coloca uma pressão significativa sobre as equipas de cibersegurança.
Ransomware: Ameaça persistente e mudança de táticas
Embora o ransomware continue a ser uma ameaça significativa, com um aumento de 2,75 vezes nos ataques em relação ao ano anterior, o relatório revela uma redução de três vezes nos incidentes que chegam à fase de encriptação de dados. Essa mudança pode ser atribuída a medidas de defesa mais eficazes, como a implementação de backups robustos e a rápida resposta a incidentes.
Ainda assim, as técnicas de acesso inicial mais comuns permanecem centradas na engenharia social, especialmente o phishing via email, SMS e chamadas telefónicas (vishing). As vulnerabilidades em sistemas operativos desatualizados e aplicações públicas são também frequentemente exploradas. A necessidade de manter os sistemas atualizados e educar os utilizadores sobre práticas seguras de cibersegurança continua a ser um pilar essencial na defesa contra ransomware.
Atores de Estados-nação e Cibercrime: Uma aliança estratégica
O relatório evidencia uma crescente colaboração entre atores de Estados-nação e cibercriminosos, com as ferramentas e táticas a serem cada vez mais partilhadas entre estes grupos. Atores russos, por exemplo, terceirizaram algumas operações de ciberespionagem, visando a Ucrânia com malware comum utilizado por cibercriminosos. Esta fusão de interesses entre operações de cibercrime e ciberespionagem representa um desafio complexo para as defesas de cibersegurança, pois os objetivos variam entre o ganho financeiro e a obtenção de informações estratégicas.
Casos como o uso de ransomware por atores iranianos para influenciar operações de ciberpropaganda e a criação de variantes de ransomware por atores norte-coreanos mostram que as motivações dos Estados-nação estão a evoluir para além das tradicionais operações de espionagem, incluindo também a monetização e operações de influência.
A utilização de IA: Uma nova fronteira para os cibercriminosos
A Inteligência Artificial (IA) tem se mostrado uma ferramenta poderosa para otimizar operações, mas o relatório da Microsoft destaca que os atores de ameaça também estão a adotar esta tecnologia. Atores afiliados à China e à Rússia já utilizam IA para criar conteúdos de manipulação, como imagens geradas por IA para campanhas de desinformação ou áudio manipulado para imitar vozes em operações de influência. Embora o impacto dessas campanhas ainda não seja significativo na persuasão das audiências, a tendência aponta para um uso crescente da IA por parte dos cibercriminosos, o que exige uma preparação proativa das equipas de defesa cibernética.
Conflitos geopolíticos e o papel crescente dos ciberataques
O relatório sublinha uma forte concentração de atividades de ciberameaças em regiões com conflitos militares ativos ou tensões geopolíticas, nomeadamente na Ucrânia, Taiwan, Israel, e países do Golfo Pérsico. A guerra entre a Rússia e a Ucrânia, e o conflito entre Israel e Hamas, têm sido usados por atores como a Rússia e o Irão para espalhar desinformação e propaganda, procurando moldar perceções e influenciar políticas fora das zonas de conflito.
Também as eleições nos EUA continuam a ser um alvo de interesse para os cibercriminosos, com Rússia, Irão e China a procurarem explorar questões internas para gerar discórdia. O uso de técnicas como domínios homóglifos (imitações de sites legítimos) para phishing e disseminação de malware mostra que os ciberataques são uma extensão das disputas políticas e diplomáticas.
Desafios e recomendações para fortalecer a cibersegurança
A Microsoft destaca que, com mais de 600 milhões de ataques diários direcionados aos seus clientes, a colaboração entre o setor público e privado é crucial para reduzir a prevalência de ciberataques. A dissuasão eficaz deve combinar a melhoria da cibersegurança com a imposição de consequências para os agressores, o que requer uma atuação coordenada para desenvolver normas internacionais e medidas legais que desencorajem comportamentos maliciosos.
O relatório também sugere a necessidade de reforçar a deteção de ataques através de tecnologias avançadas e IA, além de continuar a educar os utilizadores para reconhecerem e evitarem tentativas de phishing e outras técnicas de engenharia social.
O Relatório de Defesa Digital da Microsoft pinta um quadro desafiador, mas não sem esperança, para a cibersegurança global. As tendências apontam para um aumento na sofisticação dos ciberataques, seja por parte de cibercriminosos ou de Estados-nação. O crescimento das fraudes, o uso de ransomware com novas finalidades, e a adoção de IA por cibercriminosos representam ameaças emergentes que exigem uma resposta ágil e adaptativa.







