Miguel Ricardo, general manager do SITIO, considera que a pandemia alterou de forma estrutural a relação das empresas com os escritórios e abriu espaço a uma procura crescente por soluções flexíveis. Em entrevista ao Digital Inside, o responsável defende que o coworking deixou de ser uma solução temporária para startups e passou a responder às necessidades operacionais de empresas de diferentes dimensões e setores.
O pós-pandemia trouxe uma nova abordagem ao trabalho, com empresas a adotarem modelos híbridos e remotos. Que impacto teve essa mudança no vosso negócio?
Trouxe uma transformação muito significativa na relação das pessoas com o trabalho e na forma como as empresas olham para os escritórios. Antes da pandemia, a presença diária no escritório era praticamente obrigatória. Hoje, isso deixou de ser a regra em muitas organizações.
O crescimento do trabalho híbrido fez com que as empresas deixassem de precisar de ter espaço físico para todos os colaboradores em simultâneo. Isso levou muitas organizações a procurarem modelos mais flexíveis, capazes de se adaptar rapidamente às necessidades das equipas.
Há empresas que aumentam temporariamente a presença no escritório durante determinados projetos, outras que ajustam os dias presenciais ao longo do ano. O flex office responde precisamente a essa necessidade de adaptação constante.
Essa procura vem sobretudo de empresas tecnológicas ou já é transversal a vários setores?
Hoje temos empresas de praticamente todas as áreas. Desde escritórios de advogados até startups e grandes empresas. O que fornecemos é espaço de trabalho, por isso qualquer organização pode encontrar utilidade neste modelo.
Ainda assim, temos alguns espaços orientados para áreas específicas ligadas à inovação. É o caso dos hubs dedicados à inteligência artificial, fintech, saúde digital e smart cities. Nesses casos, acolhemos empresas que trabalham diretamente nesses setores.
O modelo flex office é utilizado apenas para soluções temporárias ou as empresas acabam por permanecer durante vários anos?
A permanência é bastante superior ao que muitas vezes se imagina. A média de permanência das empresas no SITIO ronda os três anos, apesar de os contratos serem mais flexíveis e de menor duração.
O que as empresas valorizam é a possibilidade de ajustar os espaços às suas necessidades. Uma empresa pode crescer e precisar de mais postos de trabalho, enquanto outra reduz dimensão. O modelo permite essa adaptação contínua sem obrigar a mudanças de escritório mais complexas.
Também existem casos pontuais de empresas que utilizam os nossos espaços durante obras nos seus escritórios, mas são situações menos frequentes.
O serviço muda em função da duração do contrato ou da dimensão da empresa?
Não. O serviço é igual para todos. O objetivo é que as pessoas cheguem, abram o computador e possam começar a trabalhar imediatamente.
Temos investido muito na criação dos espaços ao longo destes 11 anos para garantir conforto, produtividade e bem-estar. Trabalhamos também a componente de comunidade, organizando eventos internos, pequenos-almoços ou iniciativas de networking entre empresas residentes.
A criação de ambientes de trabalho mais colaborativos e socialmente ativos tornou-se uma parte importante da proposta de valor dos espaços de coworking.
Existe uma procura crescente por parte de empresas internacionais?
Sim, claramente. Essa procura tem vindo a aumentar desde a pandemia. Portugal continua a ser visto como um mercado interessante para startups internacionais, sobretudo tecnológicas.
A qualidade de vida, aliada à qualidade dos engenheiros e profissionais portugueses, continua a atrair empresas que procuram instalar equipas em Portugal e crescer a partir daqui para o mercado europeu. O tema da habitação começa, no entanto, a ser um fator de pressão.
O SITIO abriu recentemente em Évora. O que motivou essa aposta numa cidade fora dos principais centros urbanos?
Já estamos também em cidades como Aveiro e Guimarães. No caso de Évora, identificámos potencial semelhante.
Há projetos ligados à aeronáutica, energia e tecnologia a desenvolver-se na região. Existe universidade, proximidade a Lisboa e começa a formar-se um ecossistema empresarial interessante.
O objetivo passa por ajudar a criar um ambiente mais ligado à inovação e aproximar startups e pequenas empresas de projetos empresariais de maior dimensão.
Queremos também que o espaço funcione como ponto de encontro da comunidade local, incluindo a realização de eventos e atividades abertas.
A sustentabilidade é hoje um tema incontornável. O modelo de coworking pode também responder a essa preocupação?
Sim. O próprio conceito já é, por natureza, mais sustentável. Quando várias empresas partilham salas de reuniões, espaços comuns ou infraestruturas, estamos a aumentar a utilização desses recursos e a evitar duplicações desnecessárias.
Além disso, temos também preocupações relacionadas com os equipamentos e a gestão dos espaços, mas o próprio conceito de utilização partilhada já contribui para uma utilização mais racional dos recursos.
O SITIO mantém também uma operação de co-living. Que papel tem atualmente essa área no negócio?
Começámos com uma abordagem mais ligada ao coworking e co-living em simultâneo, mas acabámos por concentrar o crescimento sobretudo no coworking.
Continuamos interessados nessa área e gostaríamos de desenvolver no futuro um projeto maior que integre trabalho e alojamento no mesmo edifício. Neste momento, porém, é ainda uma operação paralela e de menor dimensão.







