Teresa Rosas faz uma distinção que vale a pena reter, não diz que não encontrou dificuldades, diz que não encontrou “bloqueios”. Pode parecer um detalhe, mas não é.
Na prática, o que descreve é um ambiente que continua a ser maioritariamente masculino, onde as mulheres nem sempre se veem representadas. E isso, por si só, condiciona escolhas. As pessoas tendem a procurar contextos onde se sentem identificadas. É humano.
O problema é que, no setor tecnológico, isso cria um ciclo difícil de quebrar. Há menos mulheres porque há menos referências, e há menos referências porque há menos mulheres.
Para quem lidera equipas ou toma decisões de contratação, isto levanta uma questão real, o que está, de facto, a ser feito para mudar o ambiente — e não apenas os números?
Outro ponto que surge na conversa é a importância de criar um contexto onde seja possível arriscar. Teresa fala da “zona de desconforto” como parte essencial do crescimento. Mas isso só funciona se houver suporte.
Na prática, significa mentoria, acompanhamento e uma cultura onde errar não é penalizado de forma desproporcional. Sem isso, pedir às pessoas que saiam da sua zona de conforto é pouco mais do que um slogan. Atrair talento é difícil, mas mantê-lo pode ser ainda mais.
IA: o risco não desapareceu — mudou de sítio
Quando o tema passa para a inteligência artificial, o tom mantém-se pragmático. O viés não é novo. Sempre existiu. A diferença é que agora pode estar “escondido” nos algoritmos.
Na Fidelidade, a abordagem passa por não aplicar tecnologia de forma cega. Um modelo treinado com dados de um país não pode simplesmente ser replicado noutro sem contexto. Parece óbvio, mas nem sempre é isso que acontece. E é aqui que muitas decisões tecnológicas falham: assume-se que a tecnologia é neutra, quando na verdade reflete os dados e as escolhas que estão por trás dela.
Um dos pontos mais interessantes da conversa é a forma como Teresa Rosas encara os dados: como um ativo das pessoas, não apenas das organizações.
Isto muda a lógica. Obriga a pensar na utilização da informação com mais cuidado, mais transparência e, sobretudo, mais responsabilidade.
Sim, existem regras e regulamentação. Mas, como é referido, isso não resolve tudo. O verdadeiro desafio está na execução do dia-a-dia — onde as decisões são feitas.
Um facto é que ainda estamos longe de perceber o verdadeiro impacto da inteligência artificial. O entusiasmo atual faz parte do ciclo. Já aconteceu antes com outras tecnologias.
Para quem está à frente de áreas de tecnologia ou investimento, isto não é apenas um tema técnico. É estratégico.

