Na Floresta Negra os robôs já constroem supermercados

Entre montanhas, bosques densos e pequenas localidades, a Floresta Negra tornou-se cenário de uma experiência pouco tradicional. Em Neubulach, no sudoeste da Alemanha, dois robôs estão a imprimir as paredes de um supermercado com betão, num projeto que procura demonstrar que a construção automatizada já pode ser aplicada a edifícios comerciais de grande dimensão.
29 de Julho, 2026
Foto: @instatiq.com

Na vasta região montanhosa e arborizada da Floresta Negra, conhecida pela sucessão de florestas, vales e pequenas povoações, a localidade de Neubulach está a acolher uma obra que contrasta com a paisagem envolvente. Em vez de pedreiros a levantar paredes através de processos convencionais, dois equipamentos robotizados depositam sucessivas camadas de betão segundo instruções definidas digitalmente.

O edifício, que será ocupado pela cadeia de supermercados Netto Marken-Discount, terá aproximadamente 1.700 metros quadrados. Mais de 1.300 metros quadrados de paredes estão a ser executados através de impressão 3D, num projeto que procura transferir esta tecnologia do domínio dos protótipos e das pequenas construções residenciais para a escala da construção comercial.

A importância do projeto não reside apenas na impressão das paredes, mas na tentativa de demonstrar que a automatização pode responder às exigências de dimensão, prazo e integração estrutural de um edifício destinado ao retalho.

A obra utiliza dois robôs móveis Instatiq P1, também designados Progress One. Os equipamentos aplicam o betão camada após camada, seguindo trajetórias previamente programadas, e conseguem construir paredes com até sete metros de altura.

Ao contrário dos sistemas de impressão instalados numa estrutura fixa, estes robôs podem ser deslocados e reposicionados no estaleiro. Esta flexibilidade permite-lhes trabalhar sucessivamente em diferentes áreas do edifício, uma característica decisiva quando a tecnologia é aplicada a projetos comerciais com dimensões superiores às de uma habitação ou de uma instalação experimental.

A totalidade da estrutura das paredes, incluindo as interfaces necessárias para a ligação aos restantes elementos da construção, foi concluída em quatro semanas. O prazo constitui um dos indicadores mais relevantes do projeto, uma vez que a redução do tempo de execução pode ter impacto direto nos custos de obra, na mobilização das equipas e no período necessário para colocar o imóvel em exploração.

No entanto, a rapidez demonstrada na construção das paredes não permite concluir que a impressão 3D elimina a necessidade de métodos convencionais. O supermercado integra pilares, vigas de amarração e outros componentes executados através de técnicas tradicionais.

O edifício confirma que a impressão 3D funciona, nesta fase, como parte de um modelo híbrido de construção e não como substituto integral da engenharia e dos processos já existentes.

Esta dependência coloca o foco menos na máquina isolada e mais na coordenação de todo o projeto. A preparação digital da obra tem de ser compatibilizada com os cálculos estruturais, com os materiais utilizados, com a construção convencional e com as tolerâncias exigidas nas ligações entre os diferentes elementos.

A colaboração entre a Instatiq, a Nelcon, a construtora Köhler e a Heidelberg Materials revela precisamente esta complexidade. A adoção de sistemas robotizados não se resume à contratação de um fornecedor de tecnologia. Exige um ecossistema capaz de integrar software, robótica, engenharia, produção de materiais e execução física no estaleiro.

Para os promotores imobiliários e responsáveis pela contratação, este é um dos principais ensinamentos da experiência alemã. A promessa de automatização só se traduz em ganhos reais quando todas as partes trabalham sobre um projeto coordenado e quando as interfaces entre as paredes impressas e a restante estrutura são previstas antes do início da execução.

A dimensão ambiental acrescenta uma segunda camada de experimentação. O betão utilizado incorpora cimento evoZero, produzido pela Heidelberg Materials através de um processo associado à captura e armazenamento de carbono.

O dióxido de carbono resultante da produção é capturado diretamente numa fábrica situada em Brevik, na Noruega, e armazenado permanentemente no fundo do mar. Segundo a informação divulgada sobre a obra, este processo permite reduzir de forma significativa as emissões associadas ao cimento sem modificar a composição funcional necessária para a impressão.

Esta condição é relevante porque a impressão 3D exige um material com propriedades específicas. O betão tem de ser suficientemente fluido para circular pelo sistema de bombagem, mas também deve conservar a forma depois de aplicado e suportar o peso das camadas seguintes.

O projeto procura, assim, validar simultaneamente um novo método de construção e um cimento produzido com recurso à captura de carbono, sem comprometer os requisitos técnicos do processo de impressão.

A combinação destas duas abordagens reforça o caráter experimental da obra, mas também dificulta a análise isolada dos benefícios. A eventual redução das emissões depende do material utilizado, enquanto os ganhos de produtividade estão associados à automatização e ao desenho digital. Para avaliar a viabilidade económica do modelo será necessário considerar o custo dos equipamentos, a disponibilidade de operadores especializados, a logística do cimento e a integração com os restantes trabalhos de construção.

A promotora do projeto é a empresa de panificação Sehne, que arrendará o imóvel à Netto após a conclusão. Para a cadeia de supermercados, o edifício constitui uma demonstração da utilização de novos métodos na expansão e modernização da sua rede de lojas.

A experiência de Neubulach poderá ter particular interesse para empresas com formatos imobiliários repetitivos, como supermercados, armazéns ou unidades comerciais. Nestes casos, a normalização do desenho e a repetição de elementos podem favorecer processos automatizados. No entanto, o projeto fornecido não apresenta dados que permitam comparar os custos da obra com os de uma construção convencional, nem demonstra ainda que o método possa ser replicado de forma sistemática.

Segundo a Instatiq, os aproximadamente 292 metros cúbicos de betão impresso fazem deste o maior edifício produzido com esta tecnologia até ao momento. A escala alcançada constitui um avanço face aos pequenos projetos que marcaram as primeiras aplicações da impressão 3D na construção, mas não elimina questões relacionadas com custo, certificação, manutenção dos equipamentos e disponibilidade dos materiais.

Mais do que anunciar o fim da construção tradicional, o supermercado da Floresta Negra demonstra que a robótica começa a encontrar um lugar concreto dentro dela.

O resultado é menos uma rutura imediata do que uma tentativa de reorganizar o estaleiro. Os robôs assumem as tarefas repetitivas de deposição do betão, enquanto a engenharia, os componentes convencionais e as equipas humanas continuam a assegurar a integração e a estabilidade da estrutura.

Na paisagem da Floresta Negra, a imagem de máquinas a erguer paredes camada após camada pode recordar uma narrativa futurista. Contudo, a relevância empresarial da obra é bastante mais pragmática. A Neubulach está a testar se a construção robotizada consegue transformar rapidez, precisão digital e materiais com menor impacto carbónico numa solução tecnicamente fiável e economicamente repetível para o mercado comercial.

Opinião