Neuraspace capta 15,6 milhões para reforçar a vigilância espacial europeia

O financiamento combina verbas do Plano de Recuperação e Resiliência com investimento privado e será aplicado na expansão internacional, no desenvolvimento de operações espaciais autónomas e na criação de capacidades europeias de deteção. A empresa portuguesa pretende responder a um ambiente orbital mais congestionado, onde o risco de colisão passou a coexistir com ciberataques, interferências e outras ameaças deliberadas.
6 de Agosto, 2026

A Neuraspace garantiu uma ronda de financiamento de 15,6 milhões de euros para acelerar a expansão internacional das suas soluções de Vigilância Espacial e Gestão de Tráfego Espacial, utilizadas em operações comerciais, institucionais e de defesa.

Do montante total, 9,6 milhões de euros foram atribuídos no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência, enquanto os restantes seis milhões resultam de investimento privado liderado pela Lince Capital, Explorer Investments e Armilar Venture Partners.

A nova ronda será canalizada para o reforço da plataforma de inteligência artificial, para a expansão da rede própria de sensores óticos e para o desenvolvimento de serviços destinados ao setor da defesa.

Fundada em 2020, a empresa desenvolve tecnologia para acompanhar objetos em órbita, calcular trajetórias e avaliar riscos que possam afetar satélites. Na prática, os sistemas de Vigilância Espacial, conhecidos pela sigla inglesa SDA, procuram oferecer uma visão atualizada da atividade no espaço. Já a Gestão de Tráfego Espacial, ou STM, apoia os operadores na tomada de decisões relacionadas com manobras, prevenção de colisões e continuidade das missões.

A Neuraspace pretende agora aprofundar as capacidades associadas às operações espaciais autónomas, nas quais parte da análise e da decisão pode ser efetuada por sistemas de software sem depender permanentemente de intervenção humana. O investimento será igualmente utilizado para desenvolver infraestruturas soberanas de deteção, controladas a partir da Europa e menos dependentes de fornecedores externos.

Entre as prioridades encontra-se a NeuraspaceDEF, uma oferta de utilização dual, ou seja, concebida para responder tanto a necessidades civis como militares. A solução destina-se a organismos governamentais e entidades de defesa que necessitem de serviços permanentes de monitorização e avaliação da atividade orbital.

A aposta em sensores próprios é particularmente relevante porque permite à empresa controlar uma parte maior da cadeia de recolha e tratamento de dados, reduzindo a dependência de informação obtida através de terceiros.

Desde a sua criação, a Neuraspace registou um aumento superior a 350% das receitas no último ano. A empresa monitoriza atualmente mais de 600 satélites operados por clientes comerciais e institucionais, incluindo a Spire Global, GEOSAT, NanoAvionics, Sidus Space, U-Space e a Agência Espacial Europeia.

Os serviços prestados procuram ajudar os operadores a antecipar aproximações perigosas entre objetos espaciais, avaliar a necessidade de manobras e aumentar a resiliência das missões. A automatização destes processos ganha importância à medida que cresce o número de satélites e diminui o tempo disponível para analisar cada alerta.

A presença da empresa no setor da defesa tem também vindo a aumentar. A Neuraspace mantém contratos com a Força Aérea Portuguesa e com a NATO e foi recentemente selecionada como parceiro principal por um Ministério da Defesa europeu.

Esta evolução acompanha uma transformação mais ampla do ambiente orbital. A segurança dos satélites deixou de estar limitada à possibilidade de colisões acidentais ou a falhas técnicas. Os operadores enfrentam igualmente ataques informáticos, interferências de radiofrequência e tentativas de manipulação ou bloqueio dos sinais dos sistemas globais de navegação por satélite.

O spoofing consiste na emissão de sinais falsos para induzir equipamentos a calcular uma localização incorreta. O jamming, por sua vez, procura impedir a receção dos sinais legítimos através de interferências. Ambos podem comprometer comunicações, operações de navegação e o funcionamento de infraestruturas dependentes de dados espaciais.

A vigilância orbital está, por isso, a evoluir de uma função essencialmente técnica para uma componente da segurança económica, digital e militar.

Para responder a este cenário, a plataforma da Neuraspace agrega dados provenientes de sensores comerciais e soberanos, recorrendo depois a modelos de inteligência artificial para calcular órbitas, avaliar riscos e identificar potenciais ameaças. O sistema disponibiliza ainda apoio automatizado à decisão, permitindo reduzir o tempo entre a deteção de um incidente e a definição de uma resposta.

A combinação de diferentes fontes de informação é conhecida como fusão de dados. O objetivo é obter uma imagem mais completa e fiável do que está a acontecer em órbita, evitando que uma decisão dependa exclusivamente de um único sensor ou fornecedor.

Para os operadores comerciais, esta capacidade pode significar menos interrupções, maior proteção dos ativos e uma utilização mais eficiente das equipas de controlo. Para governos e organizações de defesa, acrescenta uma dimensão de autonomia tecnológica, sobretudo quando a informação recolhida envolve infraestruturas críticas ou missões consideradas estratégicas.

A empresa considera que os riscos acidentais e as ameaças intencionais deixaram de poder ser tratados como problemas separados. Essa convergência está a aproximar as áreas tradicionais de operação de satélites, cibersegurança, análise de dados e defesa.

O financiamento representa, assim, não apenas uma operação de crescimento empresarial, mas também um investimento em capacidades europeias para observar, interpretar e proteger a atividade espacial.

A próxima fase da Neuraspace ficará dependente da capacidade de transformar o investimento em maior cobertura de sensores, novos contratos e serviços capazes de funcionar de forma contínua em ambientes operacionais exigentes. Num mercado em que os ativos espaciais suportam comunicações, navegação, observação terrestre e infraestruturas digitais, a qualidade da informação e a rapidez da decisão tornam-se tão importantes como o próprio satélite.

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