Conforme o relatório State of Cybersecurity 2024 da ISACA, 60% dos profissionais de cibersegurança agora julgam o seu trabalho ser fonte maior de stresse, comparado ao de cinco anos atrás. Qual é o motivo? Um cenário das ameaças para as empresas é ainda maior, aliado ao orçamento cortado, à falta de talentos e às dificuldades na retenção.
Para neurocientista Lila Landowski, relatada pelo Computerworld, trabalhar na cibersegurança é para o organismo humano o equivalente ao ser socorrista. A constante ameaça, a pressão imposta sobre o momento da resposta, a redução ao máximo do espaço de erro — tudo isto acende o cérebro no famoso “luta ou fuga.” No curto prazo, torna aguda a performance. No longo prazo, redireciona o cérebro com potencialmente resultados destruidores.
A ciência é inconfundível: o stress crónico reduz o hipocampo (básico para memória e aprendizagem), hiperativa a amígdala (o centro da emocionalidade reativa) e corta o acesso ao córtex pré-frontal – o centro da tomada de decisões. De forma simples: decisões piores, menos foco e comportamentos egocêntricos. Em uma ocorrência de segurança, isto poderá ser tão letal quanto uma firewall desativada.
Hackear o cérebro torna-o melhor
É aqui que entramos com “neurohacks” — práticas respaldadas pela neurociência para ajudar o cérebro a manter-se funcional sob pressão. Lila Landowski apoia um básico mas poderoso trio: socializar, nomear as emoções e mover o corpo.
Conversas presenciais também induzem a libertação de oxitocina, harmónio responsável por anular o cortisol, enquanto rotinas de meditação, exposição ao exterior e esforço físico restabelecem circuitos danificados pelo stresse. Surpreendentemente, até mesmo o uso do nome para designar a sensação experimentada ajuda a controlar o nível de atividade da amígdala.
Mas esse biohacking não é somente pessoal — ele pode e deve ser organizacional.
Liderança baseada no cérebro
Especialistas universitários orientam os CISO e chefes de equipas a ajustar tarefas ao estado ideal emocional de qualquer colaborador – quem trabalha melhor sozinho, quem brilha nos momentos finais, quem requer antecipação.
A ameaça real não é o stress, mas a ilusão da racionalidade. O maior erro é acreditar que, sob pressão, tomamos decisões racionais. Para os especialistas, a prática deve ser quase contraintuitiva: partir da suposição de que estamos errados, para ampliar a perspetiva e criar espaço para estratégias mais eficazes.
A recomendação desses cientistas não faz com que o stress cibernético seja eliminado. Aceita-o como algo normal — mas algo que pode ser gerido, ajustado, até explorado. É uma mudança de mentalidade: da resistência ao stress para a engenharia de condições ideais para o cérebro.
Num campo onde ataques são inevitáveis, o próximo grande salto não virá de uma nova tecnologia – mas de uma compreensão mais profunda do cérebro humano.







