Nokia transforma capacidade de rede em software

A nova plataforma AI-RAN da Nokia promete aumentar a capacidade das redes móveis sem obrigar os operadores a substituir de imediato a infraestrutura instalada. A proposta combina inteligência artificial, computação acelerada e um modelo de subscrição que transfere parte do investimento do hardware para o software.
20 de Julho, 2026

A Nokia apresentou uma plataforma comercial de AI-RAN desenvolvida sobre o software anyRAN e a tecnologia de computação acelerada da NVIDIA. A solução aplica algoritmos de inteligência artificial ao processamento dos sinais de rádio, procurando retirar mais capacidade do espectro e dos equipamentos que os operadores já possuem.

Para os operadores, o argumento central não é apenas tecnológico, mas económico: transportar mais tráfego sem depender exclusivamente da compra de frequências ou da substituição de hardware.

A empresa afirma ter demonstrado ganhos superiores a 20% na eficiência espectral, indicador que mede a quantidade de dados transmitida numa determinada faixa de frequências. O objetivo é alcançar 50% em 2027 e mais de 100% em 2028, o que, segundo a Nokia, permitiria duplicar a capacidade dos ativos de espectro existentes.

Estas projeções terão ainda de ser confirmadas em redes comerciais. Os primeiros projetos-piloto estão previstos para o final de 2026 e a disponibilidade comercial deverá começar em 2027.

A plataforma poderá ser adotada através de uma expansão equipada com GPU para sistemas AirScale já instalados, de um nó AI-RAN autónomo ou de servidores comerciais destinados a arquiteturas cloud-native. As opções suportam redes 4G e 5G e foram concebidas para acompanhar a futura evolução para o 6G.

A existência de diferentes configurações procura evitar que a adoção de inteligência artificial obrigue a uma modernização integral da rede num único ciclo de investimento.

Para as áreas de procurement, esta flexibilidade pode facilitar uma migração gradual, mas torna a decisão de compra mais complexa. O operador terá de comparar o custo de prolongar a infraestrutura existente com o investimento em novos nós dedicados ou em plataformas cloud, considerando também consumo energético, integração, segurança, interoperabilidade e capacidade de expansão.

A Nokia afirma que o seu portefólio será compatível com as especificações Open RAN, permitindo a utilização de componentes de diferentes fornecedores. Essa abertura poderá reduzir a dependência de um único fabricante, embora a interoperabilidade técnica não elimine a dependência do software, dos algoritmos e do roteiro de evolução da plataforma.

O modelo comercial também muda. Através de uma subscrição, os operadores poderão receber novos algoritmos, melhorias de eficiência e funcionalidades de otimização sem esperar pelo ciclo seguinte de substituição de equipamentos.

Parte do investimento deixa, assim, de ser uma compra pontual de infraestrutura e passa a assumir a forma de um custo recorrente de software.

Esta alteração exige novas métricas de avaliação. Além do preço inicial, os compradores terão de analisar a duração dos contratos, as condições de atualização, os níveis de serviço, a portabilidade dos dados e das configurações, os custos de saída e a capacidade de demonstrar ganhos de desempenho ao longo do tempo.

A proposta da Nokia procura transformar a rede de acesso rádio numa plataforma programável, atualizada de forma contínua. Para os operadores, o valor dependerá menos da existência da inteligência artificial e mais da sua capacidade para reduzir o custo por bit, adiar investimentos de expansão e melhorar a qualidade do serviço.

O teste decisivo será verificar se os ganhos apresentados em laboratório se traduzem em capacidade adicional mensurável e num custo total de propriedade inferior nas redes comerciais.

Opinião