Nos Estados Unidos a IA está a varrer empregos na tecnologia

Maio ficará marcado como um ponto de viragem no mercado de trabalho tecnológico dos Estados Unidos, pela primeira vez desde agosto de 2024, o setor registou o maior número mensal de cortes de emprego, com a inteligência artificial a surgir, pela primeira vez de forma tão expressiva, como causa direta declarada pelas próprias empresas.
8 de Junho, 2026

Em maio de 2026, as empresas tecnológicas norte-americanas anunciaram 38.242 despedimentos, o valor mensal mais elevado para o setor em quase dois anos. No acumulado do ano, os cortes no setor tecnológico atingem já 123.653 postos de trabalho, um aumento de 66% face ao mesmo período de 2025 — uma aceleração que poucos analistas esperavam a esta velocidade.

Estes números inserem-se numa tendência mais ampla, maio representou o terceiro mês consecutivo de aumento de despedimentos em todos os setores. Mas o que torna estes dados, recolhidos de diversas fontes americanas, particularmente relevantes é a razão que as empresas apresentam para os cortes. A inteligência artificial foi apontada como justificação para 38.579 dos 97.006 despedimentos anunciados em todas as indústrias durante o mês passado, representando 40% do total. Em janeiro, esse rácio era de apenas 7% — uma escalada em poucos meses que não tem precedentes nos registos da empresa.

A ironia não é pequena: a indústria que construiu as ferramentas de automação é também a primeira a ser atingida por elas.

Ao longo deste ano, alguns dos nomes mais reconhecidos do setor têm protagonizado reestruturações de monta. Em março, a Hewlett Packard Enterprise (HPE) cortou 2.500 postos de trabalho, enquanto a Oracle anunciou a intenção de dispensar um número não especificado de programadores. Mais recentemente, a Meta eliminou 8.000 postos, numa decisão que abalou o mercado e alimentou o debate sobre o ritmo a que a automação está a substituir funções que, até há pouco, se consideravam relativamente imunes a esse processo.

Para os responsáveis de TI e decisores de compras tecnológicas em Portugal, estes dados merecem uma leitura cuidadosa. A tendência americana é, habitualmente, um indicador antecipado do que chega à Europa com alguns meses de desfasamento, e a pressão para justificar investimentos em IA com reduções de custos operacionais, incluindo custos de pessoal, começa a fazer-se sentir também por cá. A questão que se coloca não é apenas tecnológica: é estratégica, organizacional e, inevitavelmente, humana.

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