A inteligência artificial aplicada a sistemas físicos está a redefinir o papel da robótica nas empresas, permitindo que máquinas deixem de executar tarefas previamente programadas para passarem a tomar decisões autónomas em ambientes reais. Esta é uma das principais conclusões de um estudo recente do instituto de investigação da Capgemini, que analisou a colaboração entre humanos e robots em vários mercados.
Segundo o relatório, existe um consenso alargado entre executivos de setores como tecnologia, logística e agricultura quanto ao valor estratégico desta evolução tecnológica. A perceção é comum em regiões como os Estados Unidos, Europa e Ásia-Pacífico, refletindo uma convergência global em torno da adoção destas soluções.
Esta mudança resulta da maturidade simultânea de vários componentes tecnológicos. Os chamados modelos fundacionais fornecem capacidade cognitiva às máquinas, permitindo-lhes interpretar contextos complexos, enquanto os sistemas de simulação aceleram o seu processo de aprendizagem. Em paralelo, a operação no terreno gera dados reais que alimentam ciclos contínuos de melhoria. A este ecossistema juntam-se fatores como a redução dos custos de hardware, avanços nas baterias, computação no extremo da rede e a expansão de redes privadas 5G, bem como novos modelos de negócio baseados no pagamento por utilização.
A escassez de mão de obra surge como o principal motor de investimento nesta área, ultrapassando até o custo salarial como fator decisivo. Este fenómeno afeta particularmente setores como a agricultura, o retalho, a indústria automóvel e a logística. Ao mesmo tempo, as políticas de relocalização industrial têm reforçado o interesse das empresas em soluções que sustentem a produção local.
Neste contexto, uma parte significativa das organizações já considera a inteligência artificial física uma prioridade estratégica para os próximos cinco anos, com o Japão a liderar atualmente esta tendência, à frente dos Estados Unidos.
A flexibilidade operacional destes sistemas é apontada como uma das suas principais vantagens. Ao contrário da automação tradicional, permitem reconfigurar processos produtivos com maior rapidez e adaptabilidade. Os responsáveis tecnológicos destacam também ganhos relevantes em segurança laboral e na redução do esforço físico dos trabalhadores.
Entre os sistemas com maior potencial de crescimento destacam-se os robots móveis autónomos, braços industriais articulados e robots colaborativos. Estes equipamentos abrem novas possibilidades em tarefas de risco, inspeções no terreno, operações de montagem e até apoio em contextos de saúde e avaliação de danos.
Apesar do otimismo, o relatório sublinha que a adoção em larga escala ainda enfrenta obstáculos. Embora a maioria dos executivos antecipe implementações massivas num horizonte de cinco anos, apenas uma minoria das empresas opera atualmente estas soluções a grande escala. As principais limitações prendem-se com a preparação operacional e com lacunas tecnológicas ainda existentes.
Estas dificuldades são particularmente evidentes nos robots humanoides. Apesar do interesse que geram, continuam a ser vistos como uma aposta de longo prazo devido a desafios relacionados com fiabilidade, destreza física, custos elevados e complexidade de treino. Acresce a incerteza quanto ao retorno financeiro e a possibilidade de resistência social à sua adoção, que varia entre regiões.
Os responsáveis pela investigação sublinham que, ao contrário de ciclos anteriores marcados por expectativas não concretizadas, o atual momento resulta de uma convergência real entre engenharia, dados e inteligência artificial. Ainda assim, defendem que o sucesso dependerá de uma implementação progressiva e responsável, assente em princípios como segurança desde a conceção, transparência e supervisão humana contínua.







