Luís Martins, diretor-geral da Cipher em Portugal

O CISO já não protege apenas sistemas. Protege o negócio

“A cibersegurança deve ser vista como uma vantagem competitiva.”
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A cibersegurança deixou de ser um tema restrito às equipas técnicas. Hoje, é uma questão  de continuidade operacional, reputação e gestão de risco. Esta é uma das principais  conclusões do novo “Guia de Sobrevivência do CISO”, lançado pela Prosegur Cybersecurity (Cipher). O documento procura refletir a evolução de uma  função que, durante anos, esteve focada na proteção de infraestruturas tecnológicas, mas  que agora assume um papel central na estratégia das organizações. 

A mudança de paradigma é impulsionada por vários fatores. As ameaças tornaram-se  mais sofisticadas, os ataques afetam cadeias de fornecimento inteiras e a entrada em vigor  da diretiva NIS2 veio reforçar as responsabilidades das empresas e dos seus órgãos de  gestão. Neste contexto, o Chief Information Security Officer (CISO) passou a ser um  interlocutor direto das administrações, chamado a traduzir riscos tecnológicos em  impactos de negócio. 

Em conversa com o Digital Inside, Luís Martins, Diretor-geral da Prosegur Cibersecurity em  Portugal, analisa o estado da cibersegurança no mercado nacional, o impacto da NIS2, a  crescente adoção de serviços geridos, o papel da inteligência artificial nos centros de  operações de segurança e os desafios que as organizações enfrentam para justificar  investimentos numa área que continua, em muitos casos, a ser vista como um centro de  custos.

A nova legislação de cibersegurança entrou em vigor em abril. O que mudou na  prática para as empresas portuguesas? 

A realidade é que as grandes organizações, sobretudo aquelas que já estavam abrangidas  pela primeira versão da diretiva NIS, prepararam-se atempadamente e estão hoje muito  próximas de cumprir os requisitos exigidos. No entanto, a grande maioria das restantes  empresas começou apenas agora a olhar de forma séria para as suas obrigações. 

Não é um fenómeno exclusivo de Portugal. Em toda a Europa, a transposição da diretiva  avançou a ritmos diferentes e isso criou cenários distintos entre países. Temos clientes  multinacionais presentes em vários mercados europeus onde as exigências concretas  variam consoante a legislação nacional já aprovada. 

Existem setores mais pressionados para investir em cibersegurança do que outros? 

Os setores considerados críticos já tinham percorrido uma parte significativa deste  caminho e, por isso, necessitam de um esforço adicional menor. O maior impacto será  sentido por atividades que não estavam abrangidas pela legislação anterior e que agora  passam a integrar o perímetro regulatório. 

Mais do que uma questão setorial, é também uma questão de maturidade. Há empresas de  média dimensão que terão de fazer investimentos relevantes para responder aos novos  requisitos, independentemente da área onde operam. 

Durante muitos anos a cibersegurança foi encarada como um centro de custos. A  NIS2 está a mudar essa percepção? 

Algumas organizações sempre olharam para a cibersegurança como uma vantagem  competitiva e essas têm uma abordagem diferente ao investimento. Mas continuam a ser  uma minoria. 

Se analisarmos os orçamentos médios das empresas, percebemos que a tecnologia  representa normalmente entre 7% a 15% do orçamento global. Dentro desse valor, a fatia  destinada à cibersegurança continua a ser reduzida, frequentemente inferior a 1%. 

A NIS2 introduz um novo elemento importante: a responsabilização direta das  administrações. No entanto, mais do que o receio de sanções, as organizações devem  compreender que investir em cibersegurança gera valor. Protege a operação, reforça a  confiança dos clientes e diferencia a empresa da concorrência.

A Cipher nasceu dentro do universo Prosegur. Como evoluiu este negócio e que  novidades estão previstas? 

A Cipher foi criada a partir de várias aquisições realizadas pelo Grupo Prosegur,  inicialmente no Brasil, e acabou por se transformar na marca global de cibersegurança da  organização. 

Em Portugal temos registado um crescimento sustentado ao longo dos anos. Agora  chegámos a um novo momento estratégico: a integração total da Cipher na Prosegur  Security. 

Esta integração permite combinar segurança física e segurança digital numa única oferta.  Existem muito poucas empresas a nível mundial com capacidade para fornecer este ciclo  completo de proteção. Acreditamos que isso representa uma oportunidade significativa de  crescimento e diferenciação. 

Portugal é apenas um mercado local ou também exporta competências? 

Continuamos a servir sobretudo clientes portugueses, mas temos igualmente operações  em mercados africanos de língua portuguesa e também em Marrocos. 

O mercado europeu continua a fazer parte das nossas ambições, embora seja mais  competitivo e, em alguns países, mais difícil de penetrar. Acreditamos que a integração  na Prosegur Security poderá reforçar a nossa capacidade para expandir essa presença. 

Como estão os responsáveis de tecnologia a comprar cibersegurança atualmente? 

A nossa experiência mostra que os serviços geridos continuam a ser o modelo mais  procurado. As organizações enfrentam duas dificuldades principais: restrições  orçamentais e escassez de talento especializado. 

Na maioria dos casos, a cibersegurança não faz parte do negócio principal da empresa.  Um hospital existe para prestar cuidados de saúde, não para operar um centro de  operações de segurança. No entanto, precisa de proteger equipamentos médicos, sistemas  clínicos e dados de pacientes. 

Criar equipas internas capazes de garantir monitorização contínua, resposta a incidentes e  operação de plataformas de segurança é financeiramente difícil para muitas organizações.  Os serviços geridos permitem responder a essas necessidades de forma mais eficiente. 

A Cipher lançou recentemente o AI Hunter. Os ganhos prometidos dependem da  maturidade dos dados dos clientes?

A qualidade dos dados continua a ser importante, mas o nosso foco está sobretudo na  capacidade de contextualizar informação já existente. 

Muitas organizações possuem sinais de alerta dispersos pelos seus sistemas. O desafio é  processar rapidamente grandes volumes de informação, correlacionar eventos e  identificar indicadores relevantes antes que se transformem em incidentes. 

A inteligência artificial permite acelerar este processo, enriquecendo os dados e  identificando padrões que seriam difíceis de detectar manualmente. 

O AI Hunter é apenas um acelerador de análise ou já está a alterar o modelo  operacional dos SOC? 

Está claramente a alterar o modelo operacional. 

Quando desenvolvemos a nossa plataforma xMDR, o objetivo foi automatizar grande  parte das atividades tradicionalmente executadas pelos analistas de primeira linha. Esses  profissionais dedicavam a maior parte do tempo a tarefas repetitivas de triagem e  validação de alertas. 

Ao automatizar essas funções, conseguimos analisar 100% dos alertas recebidos,  independentemente do volume. Isso melhora a capacidade de detecção e reduz  significativamente o risco de ignorar incidentes relevantes. 

A IA está a resolver a escassez de talento? 

Não diria que a resolve, mas ajuda a transformá-la. 

Na prática, permite libertar profissionais de tarefas repetitivas e colocá-los em funções  mais avançadas, como análise aprofundada, investigação e resposta a incidentes. 

Continuaremos a precisar de pessoas durante muito tempo. Os modelos de IA necessitam  de supervisão, validação e contexto humano. O que muda é o tipo de trabalho realizado.  Em vez de executar tarefas mecânicas, os profissionais passam a concentrar-se em  atividades de maior valor. 

Como pode um CISO justificar investimentos em áreas como xMDR, Zero Trust ou  segurança da cadeia de fornecimento perante um CFO? 

A linguagem certa é a linguagem do risco. 

Os CFO estão habituados a avaliar riscos financeiros e operacionais. Quando um  responsável de cibersegurança consegue explicar claramente que risco está a ser mitigado  e qual o impacto potencial de não agir, a conversa torna-se muito mais simples.

O problema é que muitas vezes continuamos a comunicar em linguagem técnica.  Enquanto os responsáveis de segurança não traduzirem necessidades tecnológicas em  riscos de negócio, será difícil obter alinhamento ao nível da gestão de topo. 

Além disso, existe frequentemente um conflito estrutural. Em muitas organizações, os  responsáveis de cibersegurança dependem hierarquicamente dos CIO. Naturalmente, o  CIO tende a priorizar disponibilidade de serviço e projetos de negócio, enquanto a  cibersegurança procura reduzir exposição ao risco. Nem sempre estas prioridades  coincidem. 

Os ataques à cadeia de fornecimento tornaram-se uma preocupação crescente.  Porquê? 

Os atacantes procuram sempre o caminho de menor resistência. 

À medida que as organizações reforçaram os seus controlos de segurança, os  cibercriminosos começaram a explorar fornecedores e parceiros com níveis de proteção  mais baixos. Conseguem assim atingir o mesmo objetivo com menos esforço. 

É uma evolução natural. Quando um caminho se torna mais difícil, procuram outro. 

As empresas estão a avaliar corretamente os seus fornecedores? Ainda existem limitações significativas. 

Grande parte das avaliações continua a basear-se em questionários extensos. Muitas  vezes, as respostas fornecidas não são verificadas através de auditorias ou evidências  concretas. 

O problema é que auditorias completas representam custos elevados, seja para o  fornecedor, seja para o cliente. Por isso, existe ainda um desequilíbrio entre aquilo que é  declarado e aquilo que pode efetivamente ser comprovado. 

A pressão regulatória poderá alterar este cenário? 

Penso que sim. Aliás, já está a acontecer. 

As grandes organizações começaram a exigir níveis mínimos de maturidade em  cibersegurança aos seus fornecedores. Com o tempo, isso tornar-se-á um requisito  competitivo. As empresas que não cumprirem determinados padrões terão cada vez mais  dificuldade em participar em processos de contratação.

“A NIS2 vai provocar uma mudança real” 

A NIS2 vai alterar a forma como as empresas compram cibersegurança ou apenas  acelerar decisões que já eram inevitáveis? 

Acredito que vai provocar uma mudança real. 

O objetivo principal da diretiva é reforçar a ciber-resiliência das organizações e das suas  cadeias de fornecimento. Muitas das exigências parecem simples: conhecer os ativos  existentes, definir responsáveis, implementar processos de gestão e preparar planos de  recuperação. 

Mas precisamente por serem tão básicas revelam uma realidade preocupante: muitas  organizações ainda não possuem estas fundações devidamente estabelecidas. 

Se uma empresa não sabe que ativos possui, dificilmente conseguirá protegê-los. Se não  tem um plano de recuperação, terá mais dificuldades em responder a um incidente grave. 

No fundo, a NIS2 pretende garantir que as organizações estão preparadas não apenas para  prevenir ataques, mas também para recuperar rapidamente quando eles acontecem. E isso  traduz-se numa melhoria efetiva da resiliência empresarial.

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