O crescimento que os mercados oferecem não basta

Os ativos sob gestão atingiram 147 mil milhões de dólares em 2025, mas a dimensão do setor esconde uma dependência difícil de ignorar. A maior parte do aumento das receitas continua a resultar da valorização dos mercados, e não da capacidade das gestoras para captar capital, melhorar a produtividade ou construir vantagens duradouras.
13 de Julho, 2026

A indústria global de gestão de ativos nunca administrou tanto dinheiro. De acordo com o estudo “Global Asset Management Report 2026 An Imperative for Growth”, da Boston Consulting Group, os ativos sob gestão cresceram 11% em 2025 e alcançaram 147 mil milhões de dólares.

O número confirma a escala financeira do setor, mas é menos revelador sobre a sua solidez económica. Mais de 80% do crescimento bruto das receitas resultou da valorização dos mercados. Isto significa que uma parte substancial do avanço não nasceu de decisões internas, de maior eficácia comercial ou da entrada de novos clientes. Resultou, sobretudo, da subida do valor dos ativos já administrados.

As gestoras ficaram maiores, mas esse crescimento não prova que se tenham tornado mais competitivas.

Desde 2010, os ativos sob gestão quase triplicaram. As margens agregadas, porém, mantiveram-se próximas de 30%. No mesmo período, as receitas cresceram, em média, 5,1% por ano, enquanto os custos aumentaram 5,4%.

A diferença parece pequena, mas revela um problema estrutural. Numa atividade em que a escala deveria permitir diluir custos, o setor está a crescer sem transformar essa dimensão numa melhoria proporcional da rentabilidade. A abundância de ativos não está a produzir a eficiência que durante anos sustentou a consolidação da indústria.

A compressão das comissões explica parte desta erosão. O crescimento dos fundos passivos e dos ETF, fundos negociados em bolsa, reduziu os preços cobrados aos investidores e tornou mais difícil justificar prémios elevados em muitos produtos. Ao mesmo tempo, as gestoras passaram a gastar mais em tecnologia, dados, cibersegurança, conformidade e modernização de sistemas.

A indústria enfrenta, assim, uma contradição. Precisa de investir para reduzir custos futuros, mas esse investimento aumenta a despesa no presente. Precisa de diferenciar a oferta, embora muitos produtos sejam progressivamente comparáveis. E precisa de crescer num mercado em que o desempenho financeiro continua essencial, mas já não assegura, por si só, a captação de capital.

É neste contexto que a distribuição ganha importância. Nos Estados Unidos, os dez maiores fornecedores de fundos passivos e ETF captaram mais de 90% dos fluxos líquidos desde 2015. Na gestão ativa, a quota dos dez maiores operadores caiu de 63% para 56% entre 2015 e 2025.

Os dois segmentos seguem lógicas diferentes. Nos produtos passivos, a dimensão, o preço e a presença nas principais plataformas favorecem os maiores operadores. Na gestão ativa, a qualidade da estratégia mantém relevância, mas a dispersão dos fluxos mostra que o mercado continua disponível para propostas diferenciadas.

O produto continua a ser decisivo, mas o acesso ao cliente tornou-se parte do próprio produto.

As gestoras precisam de estar presentes nas plataformas, nos sistemas e nos processos onde bancos, consultores, fundos de pensões e investidores institucionais constroem carteiras. A distribuição deixou, por isso, de ser apenas uma função comercial. Tornou-se uma capacidade tecnológica, baseada em integração de dados, rapidez de resposta e presença nos momentos em que as decisões são tomadas.

Esta mudança altera também o papel dos responsáveis de tecnologia. Os sistemas de dados, as plataformas de relação com clientes e as ligações a distribuidores deixam de ser infraestrutura invisível. Passam a influenciar diretamente a entrada de capital e a capacidade de converter desempenho financeiro em crescimento efetivo.

A inteligência artificial surge neste quadro como uma possível resposta à pressão sobre os custos. A BCG estima que possa reduzi-los entre 25% e 35% nos próximos três a cinco anos. A sua aplicação poderá ainda multiplicar a cobertura de análise e aumentar o número de clientes acompanhado por cada gestor.

O interesse económico da IA não reside apenas na automação. Está na possibilidade de alterar a relação entre crescimento e estrutura. Uma gestora capaz de administrar mais ativos, acompanhar mais clientes e processar maior complexidade sem aumentar os recursos na mesma proporção muda a base económica do negócio.

A IA será relevante quando permitir crescer sem reproduzir os mesmos custos e limitações. Muitas organizações continuam, contudo, longe deste ponto. Os projetos permanecem frequentemente limitados a experiências isoladas, assistentes internos e aplicações departamentais. Sem dados coerentes, integração entre sistemas e regras claras de governação, a IA poderá aumentar a velocidade de processos defeituosos sem resolver as suas causas.

O risco está em acrescentar tecnologia a estruturas antigas. Uma ferramenta pode reduzir o tempo de uma tarefa, mas dificilmente mudará a produtividade global se a informação continuar dispersa, os processos permanecerem fragmentados e as decisões dependerem de múltiplas validações manuais.

A tokenização representa uma segunda frente de transformação. No estudo “The Future of Digital Assets”, a BCG apresenta os ativos digitais como uma mudança de infraestrutura e não como uma simples extensão do mercado de criptoativos.

A representação digital de ativos poderá alterar a liquidação, a custódia, a distribuição e a utilização de garantias. O “Global Asset Management Report 2026” aponta, num cenário intermédio, para 14 mil milhões de dólares em ativos reais tokenizados em 2030 e 55 biliões em 2035.

As projeções são expressivas, mas não eliminam a distância entre expectativa e adoção. Atualmente, a dimensão económica destes ativos continua reduzida. A tração institucional concentra-se sobretudo onde a tecnologia responde a problemas concretos, como fundos tokenizados, operações de recompra, colateral e instrumentos de rendimento fixo.

A tokenização só ganhará escala quando provar que é uma infraestrutura melhor e não apenas uma infraestrutura diferente.

Os dois estudos da Boston Consulting Group convergem numa conclusão. O próximo ciclo de crescimento dependerá menos da subida dos mercados e mais daquilo que as gestoras conseguem controlar. A captação de capital, o acesso aos canais de distribuição, a produtividade e a qualidade da infraestrutura tecnológica.

A indústria dispõe de mais ativos do que nunca. O verdadeiro teste será perceber quantas organizações conseguem transformar essa abundância numa vantagem que sobreviva quando os mercados deixarem de fazer o trabalho por elas.

Opinião