O desafio da maturidade tecnológica

Um estudo recente da Boston Consulting Group (BCG) revela que, embora a grande maioria das empresas planeie aumentar o investimento em ferramentas digitais para mitigar ameaças, a integração prática de inovações como a inteligência artificial generativa ainda se encontra numa fase embrionária, limitando a capacidade de resposta perante quadros regulatórios cada vez mais complexos e fragmentados.
16 de Junho, 2026

As funções de gestão de risco e conformidade regulatória estão a passar por uma mutação estrutural, deixando de funcionar como meros centros de controlo interno para assumirem um papel central na resiliência das empresas. Os processos tradicionais, fortemente dependentes da intervenção humana e de ajustes graduais, mostram-se obsoletos face à rapidez dos acontecimentos atuais. Os dados recolhidos pela Boston Consulting Group, que servem de base ao relatório “Risk and Compliance 2026: Refining Oversight for a Volatile, AI-Driven World”, baseiam-se nas perspetivas de mais de uma centena de responsáveis seniores do setor, abrangendo seis segmentos de atividade e sete regiões geográficas.

O diagnóstico aponta para uma tripla pressão sobre o tecido empresarial. Em primeiro lugar, destaca-se a instabilidade geopolítica acompanhada por orientações legislativas divergentes entre mercados. Adicionalmente, verificam-se vulnerabilidades acrescidas nas cadeias de abastecimento e uma intensificação dos desafios associados à cibersegurança e à privacidade de dados. De acordo com a análise, a quase totalidade dos gestores inquiridos identifica a celeridade e a imprevisibilidade das alterações nas normas legais como uma das maiores fontes de pressão externa, manifestando dificuldades em conciliar regras contraditórias vigentes em jurisdições distintas.

No que diz respeito à visibilidade e controlo das cadeias de suprimentos, esta é apontada como uma das vertentes onde as organizações demonstram menor preparação, muito embora seja classificada como uma prioridade imediata. Paralelamente, as competências em segurança informática e salvaguarda de dados continuam sob forte escrutínio, existindo apenas uma percentagem reduzida de empresas que classifica as suas capacidades nestas áreas como totalmente desenvolvidas.

A resposta a este panorama reflete-se na vertente orçamental. Mais de 90% das organizações planeiam reforçar o investimento em ferramentas digitais e analíticas dedicadas à gestão de risco. Contudo, o levantamento indica um desfasamento na execução prática destas intenções. A utilização de IA generativa nesta função permanece limitada a projetos-piloto, sem escala transversal ou incorporação definitiva nas estruturas de governação e nos processos diários.

Face a este cenário, a transição para metodologias operacionais concebidas de raiz para o ambiente digital surge como uma rota incontornável para assegurar a continuidade dos negócios. Os peritos da consultora em Lisboa sublinham que a administração do risco já não pode ser encarada de forma isolada através do mero cumprimento normativo, dada a forte dependência tecnológica e a fricção geográfica atual. Para o mercado ibérico e europeu, a antecipação sistemática de cenários evoluiu de um fator de diferenciação para um requisito fundamental de viabilidade comercial.

O contexto europeu, reconhecido pela rigidez e exigência das suas leis de proteção de dados e de inteligência artificial, impõe pressões acrescidas. Aspetos relacionados com a ética, a supervisão humana e a transparência dos algoritmos passam a ser críticos para sustentar a confiança e a competitividade. Para as entidades que operam em Portugal, a incorporação destas variáveis na estratégia corporativa global consolida-se como uma exigência imediata e inadiável.

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