Manuel Ferreira

O desafio da transição digital nas famílias

"Detectamos que as famílias enfrentam um vazio operacional quando dão o primeiro passo na entrega de tecnologia aos mais novos."
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A introdução das crianças e jovens no ecossistema tecnológico deixou de ser uma questão de “se” para passar a ser um debate focado no “quando” e no “como”. Num panorama dominado por fluxos globais de dados e preocupações crescentes com a segurança digital e a privacidade dos menores, os decisores de compras e as famílias enfrentam a complexidade de gerir e monitorizar o acesso à rede de forma equilibrada, sem cair em mensagens puramente alarmistas. É neste cenário de transição digital que a consultora tecnológica europeia SPC apresenta uma abordagem assente no desenvolvimento de software de proximidade e na criação de um ecossistema integrado que substitui o controlo parental punitivo pelo acompanhamento familiar progressivo. Para analisar a estratégia técnica e de mercado por trás deste lançamento, bem como a expansão internacional da marca, conversámos com Manuel Ferreira, responsável máximo pelo negócio da empresa em Portugal e França.

A SPC tem um historial de forte presença no mercado ibérico. Como se posiciona atualmente a empresa ao nível da sua estrutura internacional e qual é a vossa estratégia de desenvolvimento de hardware e software?

O pelouro internacional que lidero abrange de forma direta os mercados de Portugal e de França. No mercado francês, em particular, mantemos uma operação regular há cerca de três anos, o que constitui um passo importante no objetivo de posicionar a organização como a marca de referência em tecnologia para as famílias no espaço europeu. Historicamente, consolidámos uma posição de liderança no segmento sénior em Portugal e em Espanha, tanto na área dos telemóveis básicos como na dos smartphones adaptados para a terceira idade. A nossa consolidação europeia assenta no desenvolvimento tecnológico próprio, o que significa que toda a nossa aplicação e o desenho das soluções digitais são concebidos por engenheiros do nosso centro de desenvolvimento em Espanha. O hardware, por seu turno, segue o modelo global da indústria, sendo inteiramente fabricado na China, mas a propriedade intelectual e o cérebro das nossas soluções mantêm-se em território europeu. Esta autonomia tem gerado um elevado interesse por parte de múltiplos parceiros no continente, embora nesta fase o ecossistema permaneça de utilização exclusiva para os produtos da nossa marca.

O lançamento deste novo ecossistema para o público infantojuvenil foi acompanhado pela participação de especialistas da área da saúde e psicologia. Qual é o fundamento teórico e o propósito prático desta nova linha de produtos?

Detectamos que as famílias enfrentam um vazio operacional quando dão o primeiro passo na entrega de tecnologia aos mais novos. Muitas vezes, passa-se de um isolamento total para a entrega de um smartphone que representa uma janela aberta e sem filtros para o mundo inteiro. Contámos com o contributo do psicólogo e professor Eduardo Sá neste processo, que reforçou que as ferramentas digitais são hoje indispensáveis e tornam os jovens mais plurais e astutos, desde que essa evolução seja regulada pelo bom senso dos adultos. A resposta assenta numa plataforma que substitui o controlo parental tradicional por um modelo de acompanhamento mútuo, promovendo o estabelecimento de regras claras e negociadas em conjunto no seio familiar. Em termos práticos, este ecossistema arranca com a marca WUUM, introduzindo o dispositivo móvel evolutivo WUUM ONE e o tablet WUUM TAB, ambos equipados com a nossa plataforma integrada. A estratégia prevê ainda o alargamento do catálogo no terceiro e quarto trimestres do ano com o lançamento de relógios inteligentes e novos telemóveis básicos para completar a oferta.

Entrando nas especificações técnicas da solução, o que diferencia a vossa plataforma de comunicação ao nível da privacidade e conformidade legal face a outras alternativas globais?

A plataforma central designa-se SPC Circles e foi integralmente desenvolvida no espaço da União Europeia, o que se traduz no facto de os servidores, as equipas técnicas e as bases de dados estarem localizados em solo comunitário, assegurando o cumprimento estrito do Regulamento Geral de Proteção de Dados. O sistema opera através de redes fechadas de transmissão e círculos de confiança estritos. Para que uma ligação seja estabelecida, o administrador do primeiro perfil tem de validar o envio do convite e o responsável pelo segundo perfil tem de autorizar formalmente a receção. A segurança técnica estende-se aos conteúdos, impedindo que as fotografias partilhadas saiam da aplicação ou sejam capturadas através do ecrã no telemóvel. O software adapta-se à maturidade do utilizador, gerindo desde o envio de emojis simples até formatos mais complexos, e é multiplataforma, apresentando total compatibilidade com sistemas operativos Android e iOS, o que facilita a inclusão de pais, avós ou tutores que utilizem marcas distintas de hardware.

Um dos pontos mais críticos na gestão de parques de equipamentos e dispositivos domésticos é a política de perfis de utilizador. Como aborda a SPC a gestão de restrições e regras neste ecossistema?

A diferenciação reside no facto de as regras serem aplicadas por dispositivo e não por utilizador. O mercado habituou-se a aplicar restrições genéricas a uma conta, mas nós consideramos que a mesma criança deve ter horários e níveis de acesso distintos se estiver a utilizar um relógio inteligente na rua ou um tablet em casa. Cada equipamento passa a ter regras específicas de horários, tempos de ligação e aplicações autorizadas de acordo com o propósito com que foi comprado. No momento da configuração inicial, o sistema obriga a uma interação familiar através de perguntas sobre rotinas, gerando um compromisso digital partilhado. Contamos com definições orientadoras desenhadas por peritos em bem-estar digital que sugerem perfis de gestão automáticos. O hardware do modelo evolutivo tira partido direto desta arquitetura, iniciando o seu ciclo de vida configurado apenas como um leitor de música e libertando gradualmente funcionalidades como chamadas, câmara, internet e aplicações de terceiros à medida que o jovem atinge a maturidade necessária.

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