O espaço como parte da rede

No 5G Forum, em Sevilha, a integração entre redes terrestres e os satélites em órbita surgiu como uma das principais linhas de evolução das telecomunicações. A proposta apresentada pelo Grupo Indra procura responder a exigências crescentes de resiliência, cobertura e automatização, ao mesmo tempo que acompanha o reforço da aposta europeia na soberania tecnológica através de infraestruturas espaciais próprias.
2 de Junho, 2026

O 5G Forum, que decorre em Sevilha, voltou a colocar em evidência um dos temas que mais marcará a evolução das telecomunicações na próxima década: a convergência entre redes móveis terrestres e infraestruturas espaciais. Entre as várias apresentações realizadas no evento, o Grupo Indra destacou uma proposta de conectividade híbrida que combina redes terrestres e satélites, numa abordagem que reflete a crescente necessidade de criar infraestruturas mais resilientes, seguras e capazes de responder a novos cenários de utilização.

A integração do satélite nos padrões 5G representa uma mudança estrutural na forma como as redes são concebidas e operadas. Em vez de uma infraestrutura assente exclusivamente em antenas e equipamentos instalados no terreno, começa a desenhar-se um modelo distribuído entre a Terra e o espaço, onde os satélites complementam a cobertura das redes móveis atuais e preparam o caminho para futuras gerações de conectividade, incluindo o 6G.

A principal transformação não está apenas na tecnologia de acesso, mas na capacidade de gerir uma rede híbrida como um único sistema operacional. É precisamente neste ponto que ganham relevância os sistemas OSS (Operations Support Systems), responsáveis pela monitorização, gestão e garantia de funcionamento das infraestruturas de telecomunicações. À medida que as redes se tornam mais distribuídas e complexas, a sua operação exige novos níveis de automatização e coordenação entre diferentes camadas tecnológicas.

Durante o evento, a Minsait, empresa do Grupo Indra, defendeu que o desafio já não passa apenas por integrar o satélite no ecossistema 5G, mas por garantir que toda a infraestrutura funciona com os mesmos níveis de fiabilidade, qualidade de serviço e capacidade de resposta que os utilizadores associam às redes terrestres.

Outro dos aspetos em destaque foi a evolução para redes cada vez mais autónomas. Através de demonstrações suportadas por interfaces de linguagem natural, foi apresentada a possibilidade de configurar e implementar redes 5G de forma mais rápida e adaptada a diferentes contextos operacionais. Uma vez em funcionamento, essas infraestruturas podem monitorizar automaticamente o seu desempenho, identificar anomalias e desencadear processos de correção sem intervenção humana direta.

O conceito de operações “zero touch” surge como um dos pilares desta evolução, reduzindo a dependência de processos manuais e acelerando a resolução de incidentes. Para operadores de telecomunicações, esta abordagem representa uma oportunidade para aumentar a eficiência operacional, reduzir custos de gestão e responder mais rapidamente a falhas ou alterações nas condições da rede.

A discussão em Sevilha não ficou limitada aos aspetos técnicos. O debate sobre soberania tecnológica e autonomia estratégica europeia teve igualmente um papel central, refletindo uma tendência que se tem vindo a consolidar nos últimos anos em várias áreas da economia digital.

Neste contexto, ganhou destaque o projeto IRIS², a futura constelação de satélites da União Europeia destinada a assegurar comunicações governamentais seguras e reforçar a independência tecnológica europeia em matéria de conectividade espacial. O programa está a ser desenvolvido pelo consórcio europeu SpaceRISE, que integra operadores como a Hispasat, a SES e a Eutelsat.

As previsões apontam para uma constelação com cerca de 290 satélites operacionais até 2030, suportada por um investimento de 10,6 mil milhões de euros. A infraestrutura será baseada numa arquitetura multiórbita, combinando satélites em órbitas baixas e médias, e deverá tornar-se a primeira rede espacial a integrar tecnologia 5G NTN de banda larga à escala europeia.

Para os decisores de tecnologia e telecomunicações, a mensagem que emerge do 5G Forum é clara. O satélite está a deixar de ser uma solução complementar reservada a nichos específicos para assumir um papel estrutural na arquitetura das futuras redes. Paralelamente, a automatização das operações e a capacidade de gerir infraestruturas cada vez mais distribuídas surgem como fatores determinantes para a competitividade dos operadores e para a sustentabilidade dos investimentos.

Mais do que uma evolução tecnológica, a convergência entre telecomunicações terrestres e espaciais reflete uma mudança estratégica que poderá redefinir a forma como a Europa encara a conectividade, a segurança das comunicações e a sua autonomia digital na próxima década.

Opinião