Em 2015, num dos mais importantes eventos de tecnologia do Brasil, promovido pelo setor bancário, um executivo de uma prestigiada empresa tecnológica ficou escandalizado com as minhas reticências quanto ao futuro do blockchain. Na altura, defendia que a eficácia e o nível de controlo desta tecnologia eram exagerados para o ser humano e que, embora pudesse servir para algumas aplicações específicas, nunca atingiria a dimensão revolucionária que os seus promotores desejavam. A reação não se fez esperar: o facto de ser português e discordar do consenso dominante tornou-me alvo de escárnio durante dias. Mas a experiência ensina-nos que, quando fundamentamos uma posição e os outros não a compreendem, a paciência torna-se uma aliada. Não se trata de ter razão, mas de esperar pelo momento certo em que as previsões se confirmam.
Os anos passaram e, como esperado, a bolha do blockchain esvaziou-se. O entusiasmo frenético do final da década de 2010 deu lugar ao pragmatismo e à desilusão. Como mencionado pela CIO, o mais recente “hype cycle” da Gartner, publicado em julho de 2024, revela um panorama desolador: a maioria das tecnologias associadas ao blockchain já ultrapassou o pico das expectativas inflacionadas e mergulhou na fase da desilusão. NFTs, Web3, exchanges descentralizadas e aplicações de blockchain para IoT enfrentam agora a dura realidade do mercado. A excitação esfriou tanto que a própria Gartner poderá deixar de publicar este ciclo específico, segundo Adrian Leow, vice-presidente da empresa, citado pela CIO.
A promessa de uma revolução financeira e tecnológica deu lugar a um conjunto limitado de sucessos em nichos específicos, como o uso de NFTs pelo Vaticano para digitalizar os seus arquivos. Mas, segundo Leow, a verdadeira criação de valor com blockchain só acontecerá dentro de cinco anos ou mais, e apenas se combinada com outras tecnologias emergentes, como inteligência artificial e computação quântica. O blockchain isolado, como conceito, falhou.
Este desfecho não surpreende. Para além da bolha especulativa dos NFTs e dos escândalos no setor das criptomoedas, os problemas estruturais do blockchain sempre foram evidentes. A tecnologia enfrenta desafios críticos de escalabilidade e interoperabilidade, que limitam a sua adoção em larga escala. Paralelamente, a atenção do C-level e dos conselhos de administração mudou radicalmente: o foco agora está na inteligência artificial, enquanto o blockchain se tornou uma mera experiência de laboratório, sustentada por orçamentos experimentais.
Ironicamente, o blockchain tornou-se vítima do próprio exagero que o promoveu. Ao longo dos anos, foi apresentado como a solução para quase tudo, desde cadeias de abastecimento até registos de saúde, passando por sistemas de votação e contratos inteligentes. No entanto, a realidade demonstrou que os problemas empresariais não se resolvem apenas com descentralização e criptografia. As empresas querem eficiência, rapidez e integração com os sistemas existentes – algo que o blockchain, por si só, nunca conseguiu oferecer.
Resta a esta tecnologia encontrar o seu nicho em aplicações altamente especializadas, desde que integrada com outras soluções emergentes. Mas a ideia de que substituiria infraestruturas financeiras globais, revolucionaria a internet e tornaria os intermediários obsoletos revelou-se um delírio tecnológico. Como tantas outras promessas exageradas na história da tecnologia, o blockchain teve o seu momento de glória – e agora enfrenta o inevitável ajuste de expectativas.
O fim do hype do blockchain não é o fim da inovação. Pelo contrário, é um lembrete poderoso de que a disrupção tecnológica não acontece por decreto, mas sim pela conjugação de fatores económicos, técnicos e humanos. Quem apostou cegamente na revolução prometida pelo blockchain enfrenta agora a dura realidade do mercado. Quem, como eu, preferiu esperar e observar, vê agora as previsões de há mais de uma década a tornarem-se factos incontestáveis.







