O maior desafio da IA continua a ser humano

A Kyndryl alerta para um desfasamento crescente entre a ambição das empresas na inteligência artificial e a preparação real das suas pessoas, processos e modelos de governação. O “People Readiness Report” mostra que a adoção da tecnologia está a acelerar, mas que muitas organizações ainda não conseguiram transformar esse investimento em resultados concretos.
29 de Junho, 2026

A Kyndryl apresentou o seu segundo o “People Readiness Report”, um estudo global realizado junto de 1.100 líderes empresariais de diferentes países. O relatório aponta para uma redução na preparação da força de trabalho para a inteligência artificial e para um fosso cada vez mais evidente entre as expectativas criadas em torno da tecnologia e a sua implementação nas organizações.

Segundo o estudo, o sucesso da IA depende menos da tecnologia isolada e mais da capacidade das empresas para redesenhar o trabalho, requalificar equipas e gerir a mudança. A análise defende que a confiança na IA pode ser reforçada através de alterações deliberadas ao modelo operacional e de estruturas de governação mais claras.

As conclusões surgem num momento em que as empresas continuam a acelerar a adoção da IA e a aumentar o investimento nesta área. De acordo com a Gartner, a despesa global com IA deverá atingir 2,52 mil milhões de dólares em 2026, o que representa um crescimento de 44% face ao ano anterior.

O relatório mostra que 57% das organizações dizem ter a IA integrada nos processos essenciais do negócio ou implementada de forma generalizada. No ano passado, 35% afirmavam que a tecnologia estava totalmente integrada nas suas empresas. Ainda assim, os resultados continuam aquém das expectativas: apenas 32% das organizações atingiram pelo menos um dos seus dois principais objetivos em IA, e só 11% alcançaram ambos.

A Kyndryl identifica um grupo de organizações designadas como “Pacesetters”, que representam cerca de 9% da amostra. Estas empresas distinguem-se por terem redesenhado funções em torno da IA, criado mecanismos de gestão da mudança e preparado os colaboradores para a transição. À medida que avançam nestas etapas, vão também desenvolvendo modelos de governação mais robustos.

De acordo com o estudo, estas organizações têm aproximadamente o dobro da probabilidade de já terem implementado integralmente as várias dimensões de governação avaliadas. Os resultados também se refletem no negócio: apresentam 1,5 vezes mais probabilidade de gerar crescimento de receitas com IA e 1,6 vezes mais propensão para registar maior inovação em produtos e serviços.

A preparação das equipas surge, porém, como um dos maiores obstáculos. Apenas 23% das organizações consideram os seus colaboradores totalmente preparados para a IA, menos seis pontos percentuais do que no ano anterior. Ao mesmo tempo, 79% dos líderes acreditam que a evolução da tecnologia poderá ultrapassar a capacidade de adaptação das equipas, dos modelos operacionais e das estruturas de governação.

Este risco torna-se mais visível com a adoção crescente de agentes autónomos de IA. O relatório indica que 81% das organizações esperam que estes sistemas venham a tomar decisões com impacto no próximo ano. No entanto, só 25% dizem confiar plenamente em sistemas que operam sem supervisão humana.

Para responder a este desafio, algumas empresas estão a redefinir funções e a criar novos cargos ligados à gestão da IA. O estudo indica que 61% das organizações já redefiniram funções e 24% estão a desenvolver posições centradas na gestão desta tecnologia.

A falta de competências também continua a pesar. Mais de metade dos líderes, 52%, reconhece que é cada vez mais difícil encontrar talento com as capacidades necessárias para executar a estratégia de IA. Um terço das organizações já implementou programas de formação focados na colaboração entre pessoas e ferramentas de IA.

A governação aparece como outro ponto crítico. Apenas 33% das organizações dizem ter políticas claras sobre que decisões a IA pode ou não tomar, enquanto 27% utilizam registos e mecanismos de monitorização para todos os seus sistemas de IA.

As empresas com modelos de governação mais sólidos afirmam que os seus colaboradores confiam mais na estratégia e na execução da IA. Segundo o relatório, as organizações com níveis elevados de confiança são também mais propensas a relatar resultados transformadores decorrentes dos seus investimentos nesta tecnologia.

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