O Plano de Draghi: Uma corrida de obstáculos

Mario Draghi apresentou um novo desafio para a União Europeia (UE): preencher o fosso crescente de investimentos face aos Estados Unidos e à China.
9 de Setembro, 2024

O diagnóstico de Draghi sobre o estado da competitividade europeia é alarmante. A UE está a crescer 30% mais lentamente do que os Estados Unidos, enquanto a China se posiciona como uma ameaça crescente, competindo diretamente com empresas da zona euro em quase 40% dos setores. Em 2002, este número era de 25%, o que evidencia a ascensão meteórica da China como potência industrial. Além disso, as tensões geopolíticas globais estão a desacelerar o crescimento do comércio, que representa cerca de 45% do PIB europeu.

Face a estes desafios, o plano de Draghi propõe que a UE invista até 800 mil milhões de euros por ano, ou cerca de 4,7% do PIB, para recuperar terreno face aos seus rivais globais. Esta número é mais do dobro do que representou o Plano Marshall em termos relativos à dimensão da economia da altura. A necessidade de acelerar a digitalização e a transição ecológica torna este investimento ainda mais urgente.

O coração do plano de Draghi reside na criação de uma estratégia industrial pan-europeia, alimentada por capital privado e público, com uma burocracia em Bruxelas mais ágil e amigável aos negócios. Uma das propostas mais sensatas é a de incentivar fusões entre os 34 operadores móveis da UE, analisando as quotas de mercado a nível europeu e não nacional. Isto ajudaria a criar gigantes tecnológicos que possam competir globalmente. Outra sugestão relevante é a harmonização dos padrões de aquisição de defesa, de modo a garantir que os orçamentos nacionais beneficiem empresas europeias, e não concorrentes de fora do bloco.

Contudo, a verdadeira dificuldade reside na mobilização de capital. Draghi reconhece que o setor privado é responsável por quatro quintos dos investimentos na UE, mas a fragmentação dos mercados de capitais e a dependência excessiva do financiamento bancário são entraves ao crescimento. O financiamento através de obrigações ou mercados de ações ainda é relativamente subdesenvolvido em comparação com os Estados Unidos, o que limita a capacidade das empresas europeias de investir em grande escala.

Se o setor privado enfrenta desafios, o público também não fica imune. Muitos estados-membros da UE, incluindo economias de peso como a França e a Itália, têm défices orçamentais superiores ao limite de 3% do PIB estabelecido pela União. Mesmo em países com posições fiscais mais favoráveis, como a Alemanha e os Países Baixos, os políticos mostram-se relutantes em sancionar mais despesas a nível europeu. O receio de ceder ainda mais soberania financeira a Bruxelas é real, sobretudo num cenário político cada vez mais polarizado.

A pandemia trouxe uma exceção com o fundo de recuperação de 800 mil milhões de euros, financiado através de dívida comum emitida pela UE. Este modelo, que Draghi defende, seria uma forma eficaz de impulsionar os investimentos necessários. Contudo, convencer os estados-membros a adotar novamente este instrumento não será fácil. A resistência à mutualização da dívida, especialmente por parte de países como a Alemanha, poderá tornar-se um obstáculo intransponível.

O timing do plano de Draghi não poderia ser mais delicado. A UE está a enfrentar um período de incerteza política nas suas duas maiores capitais, Berlim e Paris. A Alemanha está a atravessar um período de transição, com um novo governo a tentar estabelecer-se após a era Merkel. Em França, o presidente Emmanuel Macron enfrenta protestos e uma crescente pressão populista. Estes dois países são cruciais para qualquer avanço em termos de integração europeia, e a sua atual fragilidade política poderá limitar a margem de manobra para a implementação de um plano tão ambicioso.

Mario Draghi é um estratega hábil e eficiente. No entanto, o seu novo plano para revitalizar a competitividade europeia enfrenta desafios que vão além da economia: a política. A falta de consenso entre os estados-membros, a relutância em adotar dívida comum e as crises internas nos principais países da UE são os principais obstáculos que os políticos europeus não estão preparados para ultrapassar.

A Europa precisa de investimentos massivos para se manter relevante num cenário global cada vez mais competitivo. A questão é que os líderes europeus não parecem estar dispostos a agir com a mesma urgência com que enfrentaram a crise da pandemia. Draghi pode ser o arquiteto de uma nova estratégia para o crescimento europeu, mas o sucesso dessa visão dependerá de uma rara combinação de unidade política, flexibilidade económica e coragem estratégica – combinação que, até agora, não se vislumbra no horizonte temporal que seria necessário para implementar este plano.

Com informação Reuters

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