Tiago Machado, Sales Director da Salesforce Portugal

“O problema não é a tecnologia. É a dificuldade em olhar para a IA como investimento”

Conversámos com Tiago Machado, Sales Director da Salesforce Portugal, sobre a adoção da IA agêntica no mercado nacional, o papel das PME, a produtividade das empresas portuguesas e a forma como a inteligência artificial está a transformar o trabalho.
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Com 1.600 participantes reunidos no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, o Agentforce World Tour Lisboa 2026 tornou-se uma demonstração prática de como a inteligência artificial agêntica está a sair da fase experimental para entrar no quotidiano das empresas. Para a Salesforce, a questão já não é se as organizações vão adotar agentes de IA, mas sim a velocidade com que o vão fazer e a capacidade de transformar essa tecnologia em ganhos concretos de produtividade e crescimento.

Ao longo do evento, a tecnológica norte-americana apresentou casos de utilização em diferentes setores, desde seguros à saúde, mostrando como agentes de inteligência artificial podem assumir tarefas repetitivas, automatizar processos e libertar colaboradores para funções de maior valor acrescentado.

A visão da empresa assenta no conceito de Empresa Agêntica, um modelo organizacional onde humanos e agentes de IA colaboram de forma integrada. Segundo a Salesforce, que afirma contar já com mais de 29 mil clientes Agentforce a nível global, o desafio deixou de ser tecnológico e passou a ser estratégico: transformar pilotos em projetos produtivos e escaláveis.

O tema é particularmente relevante numa altura em que a maioria das iniciativas de IA continua sem chegar à produção. Citando um estudo do MIT apresentado durante o evento, a Salesforce recorda que 95% dos projetos-piloto de inteligência artificial não ultrapassam a fase experimental, demonstrando que os grandes modelos de linguagem, por si só, não resolvem os desafios operacionais das empresas.

Conversámos com Tiago Machado, Sales Director da Salesforce Portugal, sobre a adoção da IA agêntica no mercado nacional, o papel das PME, a produtividade das empresas portuguesas e a forma como a inteligência artificial está a transformar o trabalho.

O Agentforce é hoje uma das apostas estratégicas da Salesforce. Que resultados concretos estão a observar em termos de adoção?

É o produto que mais rapidamente cresceu na história da Salesforce. No último trimestre registámos um crescimento de cerca de 50% tanto nas vendas como no número de clientes que utilizam a solução.

Mas existe aqui um indicador que considero ainda mais relevante do que as vendas: a utilização efetiva. Estamos a entrar num paradigma diferente, onde não basta vender tecnologia. O verdadeiro sucesso mede-se pela forma como os clientes a utilizam no seu dia-a-dia.

Em Portugal também estamos a assistir a uma adoção muito rápida. Durante este evento temos exemplos concretos de organizações portuguesas, como a Generali ou a Luz Saúde, a demonstrarem casos reais de utilização da tecnologia. Isso mostra que já não estamos apenas perante uma tendência; estamos perante uma transformação efetiva.

Essa adoção resulta sobretudo da integração natural da IA nas soluções Salesforce ou da pressão do mercado?

Diria que resulta da conjugação de três fatores.

O primeiro é que a inteligência artificial não apareceu agora na Salesforce. Temos capacidades de IA há mais de doze anos. Antes da IA generativa, já utilizávamos inteligência artificial preditiva para ajudar, por exemplo, equipas comerciais a identificar quais as oportunidades com maior probabilidade de conversão.

O segundo fator é a própria evolução tecnológica. Se compararmos uma prova de conceito realizada há pouco mais de um ano com uma semelhante realizada hoje, a diferença é enorme. Os modelos evoluíram de forma extraordinária e a qualidade dos resultados também.

O terceiro fator é provavelmente o mais importante: a abertura da plataforma. A Salesforce optou por uma estratégia aberta, permitindo que os clientes utilizem interfaces próprias, integrem tecnologias externas e construam soluções adaptadas às suas necessidades, mantendo toda a lógica de negócio e os dados da plataforma.

Essa liberdade acelera significativamente a adoção.

Quando se fala de IA, os exemplos recaem frequentemente sobre grandes organizações. Como estão as PME portuguesas a reagir?

Curiosamente, quando analisamos o número de clientes, são precisamente as pequenas empresas que lideram a adoção.

Não falo apenas das PME. Falo também de microempresas e startups. Muitas vezes, estas organizações não têm capacidade financeira para aumentar rapidamente as suas equipas e recorrem à tecnologia para escalar operações.

Para uma pequena empresa, um agente de IA pode funcionar como um multiplicador de capacidade. Permite fazer mais com os recursos existentes, melhorar processos e acelerar o crescimento sem necessidade de aumentar proporcionalmente os custos.

Em muitos casos, o retorno do investimento é até mais evidente numa pequena empresa do que numa grande organização.

Um dos receios mais frequentes continua a ser o impacto da IA no emprego. Como responde a essa preocupação?

É um debate legítimo e compreensível.

Posso dar o exemplo da própria Salesforce. Conseguimos reduzir em dois terços a necessidade de recursos humanos em determinadas operações de contact center através da utilização de agentes de IA.

Mas não despedimos essas pessoas.

O que fizemos foi transferi-las para funções de maior valor acrescentado dentro da organização.

Imagine uma instituição financeira que concede crédito ao consumo. Grande parte do trabalho inicial consiste em recolher informação, validar dados e responder a questões básicas. Se um agente de IA assumir essa fase, o colaborador humano pode concentrar-se nas etapas de análise, aconselhamento e tomada de decisão.

O objetivo não é substituir pessoas. É permitir que as pessoas deixem de executar tarefas repetitivas e passem a dedicar-se a atividades onde realmente acrescentam valor.

Como caracteriza o grau de maturidade das empresas portuguesas na adoção da IA?

Há uma característica muito própria do mercado português.

Ao longo dos últimos nove anos, a pergunta que mais ouvi não foi “quanto vou ganhar?”, mas sim “quanto vou gastar?”.

Existe uma tendência para olhar para a tecnologia como um custo e não como um investimento.

Esse é provavelmente o maior desafio cultural que enfrentamos.

Quando falamos de inteligência artificial, a conversa deveria começar pelo impacto no negócio: aumento de produtividade, crescimento de receitas, melhoria do serviço ao cliente ou redução de desperdícios.

Só depois faz sentido discutir o investimento necessário.

O problema é que muitas organizações ainda fazem o percurso inverso.

Falta visão estratégica de longo prazo?

Em muitos casos, sim.

Existe um fenómeno curioso. Quando o negócio está a correr bem, muitas empresas consideram que não precisam de mudar. Quando o negócio começa a desacelerar, já não dispõem dos recursos necessários para investir.

A transformação deveria acontecer precisamente quando a empresa está numa posição confortável.

É nessa fase que se deve pensar como será a organização daqui a cinco ou dez anos.

Falta muitas vezes essa visão de futuro e essa capacidade de planeamento estratégico.

As empresas portuguesas enfrentam dificuldades específicas quando comparadas com outros mercados europeus?

Portugal tem desafios muito particulares relacionados com escala, dimensão de mercado e capacidade financeira.

Mas também tem vantagens extraordinárias.

Temos talento, criatividade, capacidade de adaptação e uma enorme cultura de trabalho.

Aquilo que noto frequentemente é que quando profissionais portugueses regressam ao país depois de experiências internacionais, trazem uma visão diferente sobre ambição, crescimento e inovação.

Essas pessoas ajudam a acelerar transformações dentro das empresas.

Por isso acredito que o problema não está na capacidade dos portugueses. A competência existe. O talento existe. A vontade de crescer também.

O que falta muitas vezes é confiança para dar o próximo passo e acreditar que o investimento em tecnologia pode ser um acelerador de crescimento e não apenas uma linha adicional de custos.

Qual é, então, a principal mensagem que gostaria de deixar às empresas portuguesas?

Que analisem os projetos de inteligência artificial através de um business case rigoroso.

Se a tecnologia não gerar retorno, não faz sentido avançar.

Mas se os benefícios forem claramente superiores ao investimento, o risco maior pode ser precisamente não fazer nada.

A inteligência artificial não é um fim em si mesma. É uma ferramenta para aumentar produtividade, melhorar competitividade e criar novas oportunidades de crescimento. E num país como Portugal, onde a produtividade continua a ser um desafio estrutural, isso pode fazer toda a diferença.

Uma questão de ambição

Esta conversa com Tiago Machado reflete um dos debates mais relevantes da atualidade tecnológica: a inteligência artificial deixou de ser apenas uma inovação tecnológica para se tornar uma questão de estratégia empresarial.

Num país onde a produtividade continua a ser um dos principais obstáculos à competitividade internacional, a promessa da IA agêntica surge como uma oportunidade para fazer mais sem aumentar proporcionalmente os recursos. Mas essa oportunidade exige algo que vai muito além da tecnologia: visão, capacidade de investimento e ambição para transformar modelos de negócio.

O desafio conclui o responsável da Salesforce, não está nos algoritmos nem nas plataformas. Está na capacidade das organizações portuguesas de encararem a transformação digital como um investimento no futuro e não apenas como uma despesa no presente.

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