O renascimento do silício: Como o “AI PC” está a redefinir o trabalho e o os negócios

O computador pessoal visto como uma ferramenta genérica esta em vias de extinção. Impulsionado pela IA, o PC reclama o seu lugar no centro da estratégia das empresas. No Coffee Break, desta semana, Paulo Delgado, Product Marketing Specialist na ASUS, explica como esta transformação está a impactar o dia-a-dia do mercado nacional.
15 de Junho, 2026

Para quem gere equipas e toma decisões de compras tecnológicas nas empresas portuguesas, a rotina de renovar computadores parecia previsível: trocar as máquinas a cada três ou quatro anos por modelos ligeiramente mais rápidos. No entanto, a chegada dos computadores com Inteligência Artificial integrada, os chamados AI PCs (sigla em inglês), veio quebrar este ciclo tradicional. Mais do que uma simples atualização de componentes, estamos perante uma mudança profunda na forma como as equipas trabalham, colaboram e protegem a informação do negócio.

Uma nova categoria ou apenas marketing?

A grande dúvida que paira sobre muitos gestores é legítima: o “AI PC” é uma inovação real ou apenas uma estratégia comercial para reanimar as vendas? Paulo Delgado é categórico ao afirmar que não se trata de uma simples reembalagem, mas sim de uma nova categoria de computadores. A Inteligência Artificial veio mudar a própria natureza do equipamento e a forma como este interage com o utilizador.

O reflexo mais impressionante e prático desta evolução está na autonomia da bateria. Embora a capacidade física e química das baterias não tenha mudado significativamente nos últimos dois anos, o tempo de vida útil dos portáteis longe da tomada duplicou. Computadores que antes resistiam entre 8 a 10 horas conseguem hoje ultrapassar a barreira das 30 horas de autonomia. Isto acontece porque o computador conta agora com um chip inteligente que prevê o comportamento do utilizador, analisa o que está a acontecer no ecrã e otimiza o consumo de energia em tempo real. O utilizador comum beneficia diretamente desta eficiência sem sequer precisar de perceber as complexidades técnicas por trás do processo.

Após anos de centralização absoluta em que tudo dependia da nuvem (cloud), o mercado assiste agora a um regresso equilibrado ao processamento local. A computação na nuvem continuará a ser essencial, mas o hardware local surge como um complemento crítico.

Esta mudança traz vantagens estratégicas evidentes para o dia-a-dia das empresas portuguesas. Por um lado, verifica-se o fim da dependência da internet, o que significa que o colaborador deixa de estar refém de uma ligação rápida ou estável para utilizar ferramentas inteligentes, obtendo respostas imediatas e sem quebras. Por outro lado, há um ganho enorme na segurança da informação sensível. Ao processar os dados diretamente no próprio computador, evita-se o envio de relatórios e dados confidenciais do negócio para servidores externos na internet, protegendo de forma robusta a privacidade da empresa e dos seus clientes.

A pressão ecológica e as exigências de sustentabilidade são hoje critérios decisivos nas compras corporativas. Havia o receio de que esta corrida à Inteligência Artificial encurtasse ainda mais a vida útil dos computadores, obrigando as empresas a trocas constantes. Contudo, a tendência aponta no sentido oposto: investir em máquinas preparadas para a IA é uma forma de garantir que o parque informático resiste melhor ao tempo e dura mais anos.

A par do software, a sustentabilidade tornou-se uma parte central no desenvolvimento do hardware. Paulo Delgado destacou o esforço da indústria em criar materiais exclusivos, mais leves e resistentes, que utilizam menos químicos na sua concepção. É o caso do Ceraluminum, uma liga que funde alumínio e cerâmica, permitindo criar portáteis de alta gama com menos de um quilograma. Até o embalamento foi repensado para eliminar o desperdício diário, recorrendo a caixas totalmente feitas de papel, incluindo as pegas, sem colas e com tintas ecológicas à base de soja, respondendo diretamente às metas ambientais que as empresas nacionais têm de cumprir.

Com o crescimento do trabalho remoto e a mobilidade de funcionários por cidades como Lisboa e Porto, os edifícios de escritórios esvaziaram-se e o risco digital disparou. Existe, contudo, uma perigosa subvalorização deste tema, pois a maioria dos utilizadores individuais ainda acredita que uma palavra-passe simples protege o seu computador de qualquer ameaça.

Para proteger o elo mais fraco, que continua a ser o fator humano, a segurança teve de passar a vir programada de fábrica, diretamente no silício da máquina.

Os portáteis profissionais atuais contam com sistemas avançados de autenticação biométrica através de reconhecimento facial por infravermelhos que são muito difíceis de contornar. Além disso, as máquinas integram uma forte resiliência ao nível do firmware através de sistemas de BIOS redundantes com certificação de segurança. Se o computador detetar que o seu sistema de arranque foi manipulado ou atacado por um vírus, ele bloqueia essa inicialização, aciona automaticamente uma cópia de segurança limpa e repara-se sozinho em segundo plano, sem necessidade de intervenção do utilizador.

Uma preocupação legítima levantada na conversa prende-se com o risco de exclusão digital, ou seja, a possibilidade de os benefícios da IA ficarem guardados apenas para as empresas com maior capacidade financeira. A resposta do mercado tem sido a democratização. Embora no início da transição estas capacidades fossem exclusivas de modelos de topo, hoje a tecnologia já está integrada em computadores de entrada de gama, tornando a performance acessível a orçamentos mais contidos.

Em Portugal, o comportamento dos compradores divide-se claramente. Existem as empresas focadas puramente no preço baixo e nas especificações técnicas básicas, descurando aspetos como o peso ou a autonomia. Em contrapartida, os clientes do segmento profissional valorizam uma escolha holística, exigindo segurança nativa, mobilidade real e investindo no bem-estar dos colaboradores através de ecrãs de melhor qualidade, como a tecnologia OLED, que reduz a luz azul prejudicial aos olhos. O mercado nacional reconhece cada vez mais este valor, confirmando que o PC continua bem vivo e que o sucesso das ferramentas de software do futuro depende, inteiramente, de termos uma boa máquina connosco no dia-a-dia.