A inteligência artificial deixou de ser um tema distante de laboratórios e centros de investigação. Hoje faz parte das agendas de investimento das empresas, influencia decisões de negócio e começa a alterar a forma como as organizações trabalham. Ainda assim, a adoção real nas empresas portuguesas está longe de ser homogénea.
Entre entusiasmo, receios e desafios de implementação, a tecnologia só faz sentido quando resolve problemas concretos.
À margem do evento Building the Future, conversámos com Marco Vicente, AI Evangelist na Axians Portugal, sobre o impacto da inteligência artificial no trabalho, o estado de maturidade das empresas portuguesas e a forma como as organizações devem abordar esta tecnologia.
A conversa passou também pelos riscos éticos, pela importância dos dados e até pelo futuro dos robôs humanoides.
Para quem não está dentro do tema, como explica em poucas palavras o que é a inteligência artificial?
Não é uma explicação simples, mas há uma forma relativamente direta de olhar para o tema. Em princípio, falamos de inteligência artificial quando um computador consegue fazer algo que normalmente associaríamos a uma tarefa humana.
No nosso trabalho começamos sempre pelos problemas que um cliente tem. Depois analisamos como podemos resolvê-los. Se conseguimos usar os dados desse cliente e aplicar um algoritmo que execute essa tarefa de forma eficaz, então estamos perante um caso válido de inteligência artificial.
Existe ainda um receio social de que a inteligência artificial venha roubar empregos. Esse medo faz sentido?
A tecnologia vai inevitavelmente alterar o mercado de trabalho. Alguns empregos vão desaparecer, outros vão surgir, e muitos vão transformar-se.
A inteligência artificial também pode melhorar os empregos que já existem. Mas se alguém tem uma função muito repetitiva e fácil de explicar a um sistema, provavelmente deve começar a preparar-se para evoluir profissionalmente.
O medo é uma reação normal perante qualquer inovação tecnológica. Já aconteceu na indústria com os robôs. A questão não é ter medo, é preparar-se.
As empresas em Portugal estão a preparar os seus profissionais para trabalhar com inteligência artificial?
Na minha opinião, estamos atrasados.
Muitas empresas perceberam relativamente tarde que precisam de fazer esta transformação. No nosso caso, na Axians, damos formação em inteligência artificial a todos os colaboradores, mesmo àqueles que não trabalham diretamente com esta área.
Se olharmos para a história económica percebemos que as profissões mudam. Há cem anos grande parte da população trabalhava na agricultura. Hoje isso seria impensável.
Daqui a alguns anos provavelmente vamos achar estranho como é que, no início dos anos 2000, as pessoas trabalhavam tanto sem a ajuda da inteligência artificial.
Essa transformação levanta também questões ao nível da educação. As escolas deviam abordar a inteligência artificial mais cedo?
Acho que sim. E acredito que essa mudança pode acontecer de baixo para cima.
Os alunos já utilizam estas ferramentas no dia-a-dia. Em algum momento vão exigir da escola as mesmas ferramentas que usam fora dela. E quando isso acontecer, as escolas terão de se adaptar.
O mundo já está a mudar. A educação vai inevitavelmente acompanhar essa mudança.
A resistência à tecnologia muitas vezes está associada ao risco e às questões éticas. Falta formação nesta área?
Claramente.
Temos hoje exemplos de pessoas que colocam dados empresariais em ferramentas públicas como copilots ou sistemas baseados em OpenAI sem perceber que estão a partilhar informação confidencial.
Isto não é apenas um problema tecnológico. É um problema de literacia digital e de formação. As pessoas precisam de perceber o que estão a fazer quando utilizam estas ferramentas.
Nos Estados Unidos houve recentemente debate sobre o uso de inteligência artificial para fins militares, incluindo decisões de empresas como a Anthropic de limitar esse uso. Isto pode criar desconfiança nas empresas europeias?
A utilização da inteligência artificial deve ser sempre transparente e com responsabilidade.
Eu concordo com a posição de limitar determinados usos. Mas isto não é apenas uma questão da inteligência artificial. Qualquer tecnologia poderosa pode ser usada de forma positiva ou negativa.
A questão essencial é garantir que o uso é ético, seguro e devidamente controlado.
Quando uma empresa procura a Axians para implementar inteligência artificial, qual é a primeira pergunta que fazem?
A primeira etapa é avaliar o nível de maturidade da organização.
Para utilizar inteligência artificial é preciso que alguns princípios já existam dentro da empresa. Um exemplo simples: tem de existir uma fonte de dados fiável e consistente.
A primeira preocupação é perceber que dados existem e em que estado estão. Sem dados organizados não é possível construir soluções eficazes.
Costumo usar uma analogia: ninguém consegue fazer um mortal encarpado se ainda não sabe dar uma cambalhota.
Depois de percebermos o estado de maturidade, analisamos os problemas que o cliente quer resolver. Hoje em dia, quando alguém pergunta se a inteligência artificial consegue fazer algo, muitas vezes a resposta é sim. A questão é perceber se isso gera valor e retorno do investimento.
Muitas empresas perguntam primeiro que solução de inteligência artificial devem adotar. Essa é a abordagem correta?
Não. A primeira pergunta nunca é tecnológica.
A pergunta certa é: qual é o problema que queremos resolver?
Em alguns casos a solução nem sequer passa por inteligência artificial. Às vezes basta mudar um processo.
Quando vamos trabalhar com um cliente tentamos perceber exatamente como funcionam os seus processos. Quem está de fora consegue muitas vezes ver a floresta melhor do que quem está no dia-a-dia da operação.
Nos últimos meses tem aumentado o interesse pelos robôs humanoides. Este mercado vai realmente crescer?
Acredito que sim, mas vejo os humanoides como uma fase intermédia.
Hoje os nossos ambientes, desde casas a fábricas, foram pensados para o corpo humano. Por isso faz sentido criar robôs com forma humana para executar essas tarefas.
Mas no futuro provavelmente teremos robôs desenhados especificamente para cada função, não necessariamente com forma humana.
É um pouco como aconteceu com a digitalização de formulários em papel. No início limitávamo-nos a copiar o que existia. Depois percebemos que o digital permite fazer as coisas de forma diferente.
O que veio a Axians mostrar ao Building the Future?
A Axians faz parte do grupo VINCI, que tem cerca de 280 mil colaboradores em áreas como construção, concessões e energia. Estamos a falar de um grupo com milhares de unidades de negócio.
Criámos um centro de investigação onde testamos cerca de 15 a 20 projetos por ano. A ideia é resolver problemas concretos e depois disseminar essas soluções pelo grupo.
Entre os projetos que estamos a desenvolver estão, por exemplo:
- utilização de IA generativa para gerar automaticamente plantas de sistemas de HVAC
- análise de som para detetar falhas em quilómetros de tubagens
- projetos de processamento de linguagem natural (NLP) para extrair informação relevante de grandes volumes de dados
Ao todo já desenvolvemos mais de 100 projetos. A abordagem passa por testar primeiro, validar e depois criar aceleradores que possam ser reutilizados noutras áreas do grupo.
O atual contexto geopolítico e económico tem travado a adoção da inteligência artificial nas empresas?
Não diria que travou.
Existe alguma instabilidade no mercado, por exemplo ao nível do hardware. Os servidores estão mais caros e os prazos de preço são mais curtos. Isso cria alguma incerteza.
Mas as empresas continuam interessadas em resolver os seus desafios. Muitas perceberam que ficaram para trás e estão agora a tentar recuperar o atraso.
A adoção da inteligência artificial continua em marcha. E dificilmente vai abrandar.






